Laços do destino

1821 Words
O capítulo começa mostrando os acontecimentos do dia seguinte às conversas aleatórias dos personagens. Estamos trilhando um caminho cada vez mais próximo da Bienal. — Já entendi... — É sério, ele mudou, sabe? — Todos os homens falam isso antes de aplicarem o próximo golpe. — debochou. — Mas agora é sério! — exclamou. Agnes, nossa gerente favorita, está com um problema grave encima do dia da Bienal do Livro. Ela não quer voltar a encarar os olhos de seu primo, mas sua mãe, a dona da editora, quer contratá-lo, pois além de precisar de mão de obra especializada, existe a possibilidade da contratação de um escritor talentoso para um livro que trará retorno financeiro alto. — Mãe, eu não confio mais nele, aliás, ninguém confia, ele saiu de casa, fugiu da casa da namorada, não assumiu sua paternidade e ainda trabalha como cobrador de dívidas! É sério que você ainda conta com esse cara? Agnes estava visivelmente alterada com tudo, desde a situação à fisionomia de seu primo. Tudo nele lhe irritava. — AGNES! EU SOU A SUA MÃE E A SUA CHEFE! OU VOCÊ O CONTRATA OU PODE ESQUCER O SEU EMPREGO E O FILÉ DE FRANGO COM FRITAS NO JANTAR! — gritou. Aquilo sim era golpe baixo, não falo da ameaça de emprego, mas de dormir sem frango com fritas no jantar. Mas você acha que Agnes se importou? Ela apenas desligou o celular. Sua mãe lhe enviou o endereço e ela seguiu. Saiu do bairro do Maracanã e trilhou rumo ao Riocentro. Foram longos minutos de reflexão enquanto avaliava os possíveis foras que poderia dar ao seu primo sobre as mais diversas atitudes de tomou em toda a sua vida. "Deve ser aqui". — pensou. Agnes saiu do carro, olhou os arredores, trancou e ligou o alarme. — Nunca se sabe, né? Esticando um pouco o olhar, pode notar a presença do Riocentro ali próximo e encarou aquilo com estranheza. "O endereço dá numa viela? Porque isso não me surpreende?" — analisou. Cada vez mais que ela procura o local no glorioso Google Maps, sua intriga aumenta à medida em que sua desconfiança lhe mantém alerta. Ao passar pela viela, ela notou uma cena dantesca de crianças brincando de fralda com galinhas e um princípio de algazarra entre senhores idosos. "Esse lugar definitivamente não é para mim". — Agnes estava profundamente descontente por estar ali. "Número vinte e sete, número vinte e sete, onde está? Essa ordem aqui, não segue uma ordem". — pensou. — Boa tarde moça! — Boa! — Moça! Três idosos cumprimentaram Agnes que abriu o seu sorriso delicado. — Boa tarde, os senhores! — devolveu o cumprimento. — O que trás a sua graça aqui? — respondeu um dos senhores. — Que ótimo, uma ajuda. Vocês poderiam me dizer onde é o número vinte e sete? — Vinte e sete? É o novo número quinze, fica ali, nas casas da direita. — Obrigado! — respondeu. — Obrigado moça! — Obrigado! — Moça! Os três responderam e voltaram para a algazarra sobre futebol. "Vinte sete o novo número quinze? Mas que bosta de lugar é esse?" Agnes caminhou até o número vinte e sete com uma remarcação enorme encima feita por um pincel vermelho muito do s****o por cima, possuindo o quinze ao lado em amarelo. — Que podre! Ela bateu na porta esperando que seu primo atendesse. Mas depois de ficar ali por quase dez minutos, já estava desistindo. Foi quando o deus do destino mexeu os seus pauzinhos e reorganizou o seu baralho, colocando ninguém mais do que Luciana em seu caminho. — Perdão, mas está atrás do Miguel? — Sim, sim, você é amiga dele? — Pode-se dizer que sim. Mas ele está trabalhando, chega muito tarde. — Posso deixar recado contigo? É que eu preciso muito falar com ele! — implorou. — Sim, sim! Do que se trata? — Fala pra ele que a Agnes esteve aqui e eu preciso muito falar com ele de verdade. É sobre uma proposta de trabalho. Aqui, fique com o meu cartão. — Agnes deu um cartão da editora para Luciana. — VOCÊ É DE UMA EDITORA? — gritou de felicidade. — Bom... Sim... Mas porque? — Eu estou finalizando um livro que o Miguel está me ajudando a finalizar! — COMO É QUE É? O QUE FOI QUE DISSE? — esbravejou Agnes. Luciana deu uma risada alta, ela estava tão nervosa quanto Agnes. — O Miguel tem me ajudado a finalizar um livro que eu quero lançar na Bienal. — Mas o livro ainda não está pronto então? — Não, olha, me entenda. Eu finalizei ele à minha maneira, mas o Miguel me disse para dar alguns retoques, excluir algumas coisas, revisar outras e mudar o final. Me disse que o roteiro estava um pouco desorganizado, ele mesmo reorganizou muita coisa e eu tive de reescrever várias coisas. — explicou Luciana. "NOSSA! O MIGUEL REALMENTE ESTÁ SE ESFORÇANDO?" — Agnes estava admirada pelo trabalho de seu primo. — E a que pé anda? — Falta apenas um único capítulo para o final, eu queria explicar algumas coisas, mas ele me aconselhou a escrever finais como o Edmundo faz. — Meio abertos? Sem algumas explicações básicas? — Sim! "Como ele tem tempo de pensar em tudo isso? Ou melhor, como ele tem encontrado tempo para ler o que o Edmundo escreve?" — Agnes estava surpresa com Miguel e interessada no original. — Ele me disse que é uma tendência boa para o mercado, pois deixa os leitores em dúvidas e aumenta a possibilidade de uma continuação. — completou. — E ele tem razão mesmo, mas me tira uma dúvida? — Todas! — Posso dar uma lida nele? — VOCÊ QUER LER O MEU LIVRO? — E porque não iria querer? Ele é bom, não é? Então, me deixe ver, eu realmente tenho curiosidade. — Você é uma leitora beta? Então me ajude, pois ninguém além de mim e do Miguel leram o livro. — Leitora beta? — sorriu. — Eu sou a gerente de aquisições da editora, sou eu que faço as propostas editoriais para os autores. — completou. Luciana entrou em choque, não sabia o que fazer, falar ou andar. — Calma, vamos até o seu quarto, lá você me mostra o original, combinado? — Certo! Agnes acompanhou Luciana até seu quarto, que era logo ao lado. O lugar, para ser simples, ainda precisava melhorar muito. Já o descrevi capítulos atrás, é melhor voltar para ver. Mas hoje, especialmente hoje, o clima não estava quente, mas abafado. O quarto parecia um forno, uma sauna, mas até que da cama, dava pra sentir a leve brisa que circulava vinda da porta aberta e o pouquíssimo vento que o ventilador um tanto sujo proporcionava. Luciana abriu o notebook e correu até a sua pastinha de originais. Tudo foi acompanhado de perto por Agnes, ela notou todas as referências, fotos e slides que a garota montou, bem como arquivos em word com nomes muito curiosos e específicos que iam até o volume cinco. "Como ela é organizada". — imaginou. "Eu não acredito que ela entrou nessa bagunça, ela vai mesmo ler o meu original nesse lugar? Nessas condições?" — passava-se todo um multiverso de coisas pela cabeça da Luciana no momento exato em que ela abria o arquivo do word. Sabe o melhor de tudo? O notebook, antigo, estava esquentando demais e começou a travar. Agnes havia percebido, mas deixou pra lá, se o original valesse a pena, tudo estaria resolvido. — Pronto! É que tinham muitas coisas abertas, perdão pela demora. — desculpou-se Luciana. "Mas não tinha nada aberto". — avaliou Agnes. Nossa queria gerente pegou o notebook em suas mãos e se sentou na cama, bem ao lado da Luciana. — Vamos começar. — no instante em que ela terminou a frase, o coração de Luciana explodiu. "Será que é assim que as coisas funcionam? Que todo autor se sente? Será que depois disso, eu viro uma autora? Será que ela vai aceitar?" — Agnes colocou a mão no ombro de Luciana, interrompendo seus pensamentos. — Lu, fala mais baixo, calma, eu preciso ler. — Eu não estava pensando? — Você só faltou se m***r do meu lado, relaxa, deixa que terminar de ler que logo te dou uma definição. — sorriu. — Eu vou é colocar minha roupa na máquina, tá? Acabei de descobrir que não tenho maturidade pra passar por isso, perdão. — brincou. Luciana se levantou, pegou a roupa suja e caminhou até o lado de fora em cólicas. "O QUE SERÁ QUE ELA VAI FAZER?" — pensou. "Agora posso ler em paz!" — imaginou Agnes, retornando à leitura. Luciana bem que tentou, mas seu coração sabia que algo importante estava acontecendo, bem como o seu cérebro não a deixaria parar de pensar em outra coisa. Ela pôs toda a roupa na máquina de lavar e a cada batida de roupa, era uma lauda lida por Agnes. Nossa gerente era extremamente rápida, possuía olhos treinados. Formou-se em roteiro e escrita criativa rapidamente quando era pequena. Sabia e entendia todos os clichês necessário. Conseguia ver e ler tudo o que estava para acontecer. Mas é nesse quesito que os verdadeiros escritores se sobressaem, pois afinal de contas, se você for bom, você é bom, e é isso o que importa. "Essa parte eu não previ". — disse para si mesma ao ler o plot twist. Agnes não perguntou qual era o gênero do livro para que seu cérebro pudesse ir moldado formatos e pensando em soluções sozinho. Também não quis saber à idade da menina, para não julgar ou ter pré-conceitos sobre sua escrita. É por isso que os originais são enviados por e-mail, para que o jurado não faça qualquer julgamento prévio. Agnes já havia feito muito em aceitar ler o original naquelas condições, mas pela coçada de cabeça e os sorrisos frouxos, aquilo estava realmente valendo a pena. — Luuuuuuuuuuuu! — gritou. — Estou aqui! — NOSSA! — Agnes se assustou com a rapidez em que ela se aproximou. — É que eu fiquei aqui do lado de fora esperando. Mas e ai? Meu livro dá para o gasto? — Você disse que está no capítulo final, certo? — Sim! — Então, eu parei de ler no antepenúltimo, não quero pegar mais spoilers e se bem vi, Miguel corrige e assinala suas correções direto no original, certo? Ele mesmo não corrigiu os três últimos, vou deixar de lado, mas quero que me envie para o e-mail que deixarei para você, combinado? — argumentou Agnes retirando outro cartão do bolso. — Você quer que envie o que para onde? — interrompeu Miguel. Nosso anti-herói favorito entrou no quarto como um gato! Luciana pulou no seu pescoço. — ELA LEU O MEU ORIGINAL. Luciana nem percebeu, mas Agnes e Miguel tinham contas a acertar. O fogo dos olhos deles estavam se confrontando.
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