O capítulo começa mostrando os acontecimentos do dia seguinte às conversas aleatórias dos personagens. Estamos trilhando um caminho cada vez mais próximo da Bienal.
— Já entendi...
— É sério, ele mudou, sabe?
— Todos os homens falam isso antes de aplicarem o próximo golpe. — debochou.
— Mas agora é sério! — exclamou.
Agnes, nossa gerente favorita, está com um problema grave encima do dia da Bienal do Livro. Ela não quer voltar a encarar os olhos de seu primo, mas sua mãe, a dona da editora, quer contratá-lo, pois além de precisar de mão de obra especializada, existe a possibilidade da contratação de um escritor talentoso para um livro que trará retorno financeiro alto.
— Mãe, eu não confio mais nele, aliás, ninguém confia, ele saiu de casa, fugiu da casa da namorada, não assumiu sua paternidade e ainda trabalha como cobrador de dívidas! É sério que você ainda conta com esse cara?
Agnes estava visivelmente alterada com tudo, desde a situação à fisionomia de seu primo. Tudo nele lhe irritava.
— AGNES! EU SOU A SUA MÃE E A SUA CHEFE! OU VOCÊ O CONTRATA OU PODE ESQUCER O SEU EMPREGO E O FILÉ DE FRANGO COM FRITAS NO JANTAR! — gritou.
Aquilo sim era golpe baixo, não falo da ameaça de emprego, mas de dormir sem frango com fritas no jantar.
Mas você acha que Agnes se importou? Ela apenas desligou o celular. Sua mãe lhe enviou o endereço e ela seguiu.
Saiu do bairro do Maracanã e trilhou rumo ao Riocentro. Foram longos minutos de reflexão enquanto avaliava os possíveis foras que poderia dar ao seu primo sobre as mais diversas atitudes de tomou em toda a sua vida.
"Deve ser aqui". — pensou.
Agnes saiu do carro, olhou os arredores, trancou e ligou o alarme.
— Nunca se sabe, né?
Esticando um pouco o olhar, pode notar a presença do Riocentro ali próximo e encarou aquilo com estranheza.
"O endereço dá numa viela? Porque isso não me surpreende?" — analisou.
Cada vez mais que ela procura o local no glorioso Google Maps, sua intriga aumenta à medida em que sua desconfiança lhe mantém alerta.
Ao passar pela viela, ela notou uma cena dantesca de crianças brincando de fralda com galinhas e um princípio de algazarra entre senhores idosos.
"Esse lugar definitivamente não é para mim". — Agnes estava profundamente descontente por estar ali.
"Número vinte e sete, número vinte e sete, onde está? Essa ordem aqui, não segue uma ordem". — pensou.
— Boa tarde moça!
— Boa!
— Moça!
Três idosos cumprimentaram Agnes que abriu o seu sorriso delicado.
— Boa tarde, os senhores! — devolveu o cumprimento.
— O que trás a sua graça aqui? — respondeu um dos senhores.
— Que ótimo, uma ajuda. Vocês poderiam me dizer onde é o número vinte e sete?
— Vinte e sete? É o novo número quinze, fica ali, nas casas da direita.
— Obrigado! — respondeu.
— Obrigado moça!
— Obrigado!
— Moça!
Os três responderam e voltaram para a algazarra sobre futebol.
"Vinte sete o novo número quinze? Mas que bosta de lugar é esse?"
Agnes caminhou até o número vinte e sete com uma remarcação enorme encima feita por um pincel vermelho muito do s****o por cima, possuindo o quinze ao lado em amarelo.
— Que podre!
Ela bateu na porta esperando que seu primo atendesse.
Mas depois de ficar ali por quase dez minutos, já estava desistindo. Foi quando o deus do destino mexeu os seus pauzinhos e reorganizou o seu baralho, colocando ninguém mais do que Luciana em seu caminho.
— Perdão, mas está atrás do Miguel?
— Sim, sim, você é amiga dele?
— Pode-se dizer que sim. Mas ele está trabalhando, chega muito tarde.
— Posso deixar recado contigo? É que eu preciso muito falar com ele! — implorou.
— Sim, sim! Do que se trata?
— Fala pra ele que a Agnes esteve aqui e eu preciso muito falar com ele de verdade. É sobre uma proposta de trabalho. Aqui, fique com o meu cartão. — Agnes deu um cartão da editora para Luciana.
— VOCÊ É DE UMA EDITORA? — gritou de felicidade.
— Bom... Sim... Mas porque?
— Eu estou finalizando um livro que o Miguel está me ajudando a finalizar!
— COMO É QUE É? O QUE FOI QUE DISSE? — esbravejou Agnes.
Luciana deu uma risada alta, ela estava tão nervosa quanto Agnes.
— O Miguel tem me ajudado a finalizar um livro que eu quero lançar na Bienal.
— Mas o livro ainda não está pronto então?
— Não, olha, me entenda. Eu finalizei ele à minha maneira, mas o Miguel me disse para dar alguns retoques, excluir algumas coisas, revisar outras e mudar o final. Me disse que o roteiro estava um pouco desorganizado, ele mesmo reorganizou muita coisa e eu tive de reescrever várias coisas. — explicou Luciana.
"NOSSA! O MIGUEL REALMENTE ESTÁ SE ESFORÇANDO?" — Agnes estava admirada pelo trabalho de seu primo.
— E a que pé anda?
— Falta apenas um único capítulo para o final, eu queria explicar algumas coisas, mas ele me aconselhou a escrever finais como o Edmundo faz.
— Meio abertos? Sem algumas explicações básicas?
— Sim!
"Como ele tem tempo de pensar em tudo isso? Ou melhor, como ele tem encontrado tempo para ler o que o Edmundo escreve?" — Agnes estava surpresa com Miguel e interessada no original.
— Ele me disse que é uma tendência boa para o mercado, pois deixa os leitores em dúvidas e aumenta a possibilidade de uma continuação. — completou.
— E ele tem razão mesmo, mas me tira uma dúvida?
— Todas!
— Posso dar uma lida nele?
— VOCÊ QUER LER O MEU LIVRO?
— E porque não iria querer? Ele é bom, não é? Então, me deixe ver, eu realmente tenho curiosidade.
— Você é uma leitora beta? Então me ajude, pois ninguém além de mim e do Miguel leram o livro.
— Leitora beta? — sorriu. — Eu sou a gerente de aquisições da editora, sou eu que faço as propostas editoriais para os autores. — completou.
Luciana entrou em choque, não sabia o que fazer, falar ou andar.
— Calma, vamos até o seu quarto, lá você me mostra o original, combinado?
— Certo!
Agnes acompanhou Luciana até seu quarto, que era logo ao lado. O lugar, para ser simples, ainda precisava melhorar muito. Já o descrevi capítulos atrás, é melhor voltar para ver.
Mas hoje, especialmente hoje, o clima não estava quente, mas abafado. O quarto parecia um forno, uma sauna, mas até que da cama, dava pra sentir a leve brisa que circulava vinda da porta aberta e o pouquíssimo vento que o ventilador um tanto sujo proporcionava.
Luciana abriu o notebook e correu até a sua pastinha de originais. Tudo foi acompanhado de perto por Agnes, ela notou todas as referências, fotos e slides que a garota montou, bem como arquivos em word com nomes muito curiosos e específicos que iam até o volume cinco.
"Como ela é organizada". — imaginou.
"Eu não acredito que ela entrou nessa bagunça, ela vai mesmo ler o meu original nesse lugar? Nessas condições?" — passava-se todo um multiverso de coisas pela cabeça da Luciana no momento exato em que ela abria o arquivo do word.
Sabe o melhor de tudo? O notebook, antigo, estava esquentando demais e começou a travar. Agnes havia percebido, mas deixou pra lá, se o original valesse a pena, tudo estaria resolvido.
— Pronto! É que tinham muitas coisas abertas, perdão pela demora. — desculpou-se Luciana.
"Mas não tinha nada aberto". — avaliou Agnes.
Nossa queria gerente pegou o notebook em suas mãos e se sentou na cama, bem ao lado da Luciana.
— Vamos começar. — no instante em que ela terminou a frase, o coração de Luciana explodiu.
"Será que é assim que as coisas funcionam? Que todo autor se sente? Será que depois disso, eu viro uma autora? Será que ela vai aceitar?" — Agnes colocou a mão no ombro de Luciana, interrompendo seus pensamentos.
— Lu, fala mais baixo, calma, eu preciso ler.
— Eu não estava pensando?
— Você só faltou se m***r do meu lado, relaxa, deixa que terminar de ler que logo te dou uma definição. — sorriu.
— Eu vou é colocar minha roupa na máquina, tá? Acabei de descobrir que não tenho maturidade pra passar por isso, perdão. — brincou.
Luciana se levantou, pegou a roupa suja e caminhou até o lado de fora em cólicas.
"O QUE SERÁ QUE ELA VAI FAZER?" — pensou.
"Agora posso ler em paz!" — imaginou Agnes, retornando à leitura.
Luciana bem que tentou, mas seu coração sabia que algo importante estava acontecendo, bem como o seu cérebro não a deixaria parar de pensar em outra coisa.
Ela pôs toda a roupa na máquina de lavar e a cada batida de roupa, era uma lauda lida por Agnes. Nossa gerente era extremamente rápida, possuía olhos treinados. Formou-se em roteiro e escrita criativa rapidamente quando era pequena. Sabia e entendia todos os clichês necessário. Conseguia ver e ler tudo o que estava para acontecer.
Mas é nesse quesito que os verdadeiros escritores se sobressaem, pois afinal de contas, se você for bom, você é bom, e é isso o que importa.
"Essa parte eu não previ". — disse para si mesma ao ler o plot twist.
Agnes não perguntou qual era o gênero do livro para que seu cérebro pudesse ir moldado formatos e pensando em soluções sozinho. Também não quis saber à idade da menina, para não julgar ou ter pré-conceitos sobre sua escrita.
É por isso que os originais são enviados por e-mail, para que o jurado não faça qualquer julgamento prévio.
Agnes já havia feito muito em aceitar ler o original naquelas condições, mas pela coçada de cabeça e os sorrisos frouxos, aquilo estava realmente valendo a pena.
— Luuuuuuuuuuuu! — gritou.
— Estou aqui!
— NOSSA! — Agnes se assustou com a rapidez em que ela se aproximou.
— É que eu fiquei aqui do lado de fora esperando. Mas e ai? Meu livro dá para o gasto?
— Você disse que está no capítulo final, certo?
— Sim!
— Então, eu parei de ler no antepenúltimo, não quero pegar mais spoilers e se bem vi, Miguel corrige e assinala suas correções direto no original, certo? Ele mesmo não corrigiu os três últimos, vou deixar de lado, mas quero que me envie para o e-mail que deixarei para você, combinado? — argumentou Agnes retirando outro cartão do bolso.
— Você quer que envie o que para onde? — interrompeu Miguel.
Nosso anti-herói favorito entrou no quarto como um gato!
Luciana pulou no seu pescoço.
— ELA LEU O MEU ORIGINAL.
Luciana nem percebeu, mas Agnes e Miguel tinham contas a acertar. O fogo dos olhos deles estavam se confrontando.