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2409 Words
Que desperdício. — Davi revirou os olhos, nem liguei, no mesmo instante algo chamou minha atenção atrás dele, no caso não algo, mas sim alguém, Cauã. — Não olha agora. —minha voz saiu num sussurro, mas foi o mesmo que não dizer nada, Davi se virou no mesmo instante para ver o que era. — o que ele tá fazendo aqui? — Boa coisa não é. —nesse instante Cauã se aproximou parando pouco à frente de Davi. —Que surpresa te encontrar aqui Milena! —falou cínico, mas por trás sua voz transbordava em raiva. — quer dizer que esse é seu novo namorado? — a palavra "namorado" veio repleta de nojo. — foi por ele que você me trocou? — Quem me trocou foi você. — Davi respondeu num tom de voz alto e firme. — Quantas vezes vou ter que te dizer que aquilo foi só um deslize? — Pode dizer quantas vezes quiser que eu não vou acreditar. — Milena você não entende... — Vai embora daqui Cauã. —o interrompi irritada. —ninguém aqui quer ouvir mais mentiras suas. — Quem você pensa que é para me mandar fazer algo? — Alguém que está com nojo de ouvir sua voz. —descarreguei toda minha raiva, o que veio em seguida não me agradou nem um pouco, Cauã acertou um soco bem no meu nariz, o dele foi muito mais forte que o do Davi, eu simplesmente não consegui me manter em pé e cai sentado para trás. — Cadê o machão agora? —ele gritou mas eu não liguei, a única coisa que me preocupava era a dor imensa no meu rosto e o sangue que já molhava minha roupa. Minha vista ficou embaçada e tudo ficou complicado de se entender dali para frente, só sei que uma confusão se iniciou, logo os seguranças apareceram, senti um par de mãos me erguerem, com muita dificuldade consegui identificar Eduardo como que me auxiliava. — Meu Deus! O que aconteceu? —reconheci a voz de Alinne enquanto saíamos da boate. — Ela... ele levou um soco. — era Davi dizendo. — Vou leva-lo ao hospital. —Eduardo disse. — Não. —neguei no mesmo instante. —não quero ir ao hospital. — Você precisa. —ouvi outra voz feminina, não tenho certeza mas parecia a Sara. — Eu to bem. —tentei me soltar do Eduardo, mas ele segurou mais forte meu braço. —meu nariz já não dói tanto e o sangramento parou. — Tudo bem, vamos para casa. —Eduardo concordou. —mas se voltar a sangrar vamos pro hospital. — Tá. — assenti. — Eu vou com vocês. —Davi se prontificou. — Não precisa. —mas Eduardo negou. —é melhor vocês irem para casa, tenho certeza que o Cláudio não se importa em acompanhar vocês. — Pode deixar. — Cláudio concordou. — Tá achando que eu não sei me cuidar? —Davi retrucou ofendido. — Você tem a metade do tamanho dele. —Eduardo respondeu óbvio e Davi desistiu de discutir. Seguimos para o carro, me sentei no banco do carona e tombei minha cabeça para trás, meu nariz ainda latejava um pouco mas tenho quase certeza que não quebrou e nem mesmo destroncou. Dei graças a deus ao chegar em casa, fui direto para cozinha enquanto Eduardo buscava o kit de primeiros socorros, ele fez um curativo básico no meu nariz e eu reclamei o tempo inteiro. — Fica parada. — Não dá. —falei. — tá ardendo. — Eduardo estava limpando o machucado com álcool. — Acho que não quebrou. —analisou após limpo. —só cortou, o que fez aumentar o sangramento. — E você ainda queria me arrastar a um hospital. —falei enquanto ele terminava de fazer o curativo. — É assim que você agradasse por eu me preocupar com você? —senti um frio na boca do estômago ao ouvi-lo. — Você ficou preocupado comigo? —perguntei baixo ao mesmo tempo que nossos olhos se encontraram, ele sustentou meu olhar, senti algo completamente louco naquele instante, uma vontade enorme de beija-lo, como se tudo me puxa-se ao seu encontro. Sem nem ao menos me dar conta de meus atos, eu fechei os olhos e aproximei meu rosto do seu e quase beijei seus lábios se não fosse o fato de Eduardo dar um passo para trás afastando-se de mim, foi então que voltei a realidade e percebi o que quase acabei de fazer. — Me diz que você não ia me beijar? —ele perguntou sério, senti a vergonha tomar conta de cada canto do meu corpo. — Me desculpe... eu só estou... eu to confusa. —tentei me explicar mas me enrolei toda. — Olha só Milena. —ele começou com a voz calma. — isso nunca mais pode se repetir, ouviu bem? — balancei a cabeça positivamente. —você pode até ser uma garota, mas está no corpo do meu melhor amigo, eu nunca conseguiria... — Eu já entendi Eduardo. — o interrompi. — me desculpa de novo, isso nunca mais vai acontecer. — Tudo bem. —ele concordou meio sem reação ainda. —eu já terminei. — novamente balançou a cabeça concordando, Eduardo se afastou se dizer nada, fiquei ali na cozinha feito i****a, senti vontade de cavar um buraco e me enfiar nele, mas não era mais vergonha, era uma pontada h******l no meu peito, uma sensação estranha que me fazia até querer chorar, talvez eu realmente estivesse sentindo algo a mais pelo Eduardo, mas daqui para frente eu iria enterrar esse sentimento No domingo acordei tarde e com o rosto doendo horrores, me levantei e fui dar uma olhada no espelho para ver como estava, meu rosto estava inchado e meu nariz meio roxeado. Eu estava h******l e me sentia mais h******l ainda, decidi voltar para a cama, antes de fazê-lo o celular começou a tocar, olhei no visor e era a Alinne, atendi: — Oi. — falei, me jogando sentada na cama. — Como você está? — Meu rosto ta doendo muito ainda. — respondi. — O Cauã te acertou em cheio mesmo. — ouvi uma risada em seguida. — Ri mesmo. — eu disse sem humor nenhum. — Foi mal.— falou tentando segurar o riso. — mas foi tão engraçado, fico feliz que você tenha enfrentando aquele i****a. — Também fiquei feliz por conseguir, parece que tirei um peso das costas. — Minha menina está crescendo. —Alinne afinou a voz. — Para de me zoar. —falei caindo na risada em seguida, mas logo voltei a ficar seria, eu precisava contar sobre meu quase beijo para alguém e Alinne era minha melhor escolha. — aconteceu uma coisa ontem. — Além da briga com o Cauã? O que foi? — Eu tentei beijar o Eduardo. — respondi baixo. — Você fez o que? —ela pareceu muito surpresa. —como assim? Você gosta dele? Porque não me disse antes? — Eu não sei. — suspirei. — eu acho que sim mas agora... — O que aconteceu? — Ele se esquivou do beijo e fez eu prometer que aquilo nunca mais iria acontecer. — expliquei. — Da para entender a reação dele, ne? Você está num corpo de homem, do melhor amigo dele. — Foi justamente isso que ele disse. —falei. —mas sei lá... todo homem é assim, só vê o exterior, se ele sentisse algo por mim, não se importaria com o fato de eu estar num corpo masculino. — Sei não Milena. — Aline disse meio apreensiva. —acho que nesse caso você está enganada. — Isso não importa mais Alinne, vou esquecer qualquer sentimento que eu possa sentir por ele. — falei. — Você acha que vai ser tão fácil assim? —ela perguntou. — Vai ser o melhor. —garanti. —até porque no final as coisas seriam tão catastróficas quanto foi com o Cauã. — Você não pode comparar os dois. —ela disse. —o Eduardo não é o Cauã e nem todo relacionamento é igual. — Pois eu não quero saber mais dessa d***a de amor. —me sentia um pouco irritada, mas ao mesmo tempo algo doía aqui dentro. — toda vez é a mesma coisa, eu só saio machucada. — Você ainda tem muito o que aprender Milena. — Olha só, não quero mais falar nisso. —Vai ficar bravinha agora Milena? — no mesmo instante ouvi uma batida na porta. — Eu não estou brava. —respondi me levantando da cama. —tem alguém batendo aqui, depois a gente se fala. — Tudo bem. —ela concordou e eu desliguei. Confesso que minha esperança era que fosse o Eduardo ali, talvez para me pedir desculpas por ontem ou simplesmente para puxar assunto, mas infelizmente não era ele e sim o Davi. — O que você tá fazendo aqui? — Precisamos conversar. —ele já foi logo entrando. — To sem paciência Davi. — É sério. —pela sua cara percebi que ele não estava brincando, nunca tinha visto-o com aquela expressão no rosto, tanto que cheguei a ficar preocupada com o que ele tinha a me dizer. — Fala logo. — fechei a porta e cruzei os braços. — É melhor você se sentar. — falou enquanto ia até a escrivaninha e puxava a cadeira para se sentar também. — Esse é mais algum dos seus papos sem nexo? — Eu pareço estar brincando? — não lhe respondi e apenas fui me sentar na cama como ele pediu, mesmo assim Davi permaneceu calado me encarando. — Eu já to sentada. — falei para ver se ele desembuchava, mas mesmo assim nada. — fala logo Davi você está me deixando agoniada. — Eu não sei por onde começar. — admitiu relaxando os ombros. — como se diz algo para uma pessoa quando eu sei que ela não vai gostar do que vai ouvir? — Davi você está me deixando confusa e assuntada, aconteceu algo? — ele não respondeu. — foi algo com meus pais ou com o Micael? Eles estão bem? — Fica calma, eles estão bem. — Então porque esse suspense todo? — novamente um silêncio. — Posso te contar uma história? — um pouco a contragosto eu balancei a cabeça positivamente, Davi demorou um pouco para dizer algo mas logo começou o relato. — eu tinha dez anos quando tudo começou, meu pai chegava tarde em casa sempre com a desculpa do trabalho, ele e minha mãe m*l se olhavam e eram poucas as palavras que trocavam um com o outro, o tempo que ele passava comigo e com meu irmão mais novo também não era o mesmo, cada dia meu pai ficava mais distante, até que um dia ele e minha mãe chamaram eu e meu irmão para conversar, em algum lugar dentro de mim eu já sabia o que era só não queria admitir, foi então que os dois anunciaram o divórcio, foi um choque, mas eles estavam certos disso.— Davi deu um pequena pausa e respirou fundo.— a separação foi amigável, na verdade eu nunca vi meus pais levantarem a voz um para o outro, algum tempo depois meu pai assumiu uma outra mulher, eles se casaram e vivem juntos até hoje, meu irmão aceitou a situação com mais facilidade, já eu, muito cabeça dura, bati inúmeras vezes de frente com meu pai até que finalmente nos afastamos, minha mãe nunca tomava partido e sempre dizia que eu precisava me acertar com ele, só quando eu tinha doze anos eu tive coragem de fazer as perguntas mais difíceis para minha mãe: porque vocês se separar? Porque desistiram tão fácil um do outro? Se eu nunca vi uma briga de vocês, qual foi o problema? — uma outra pequena pausa, a essa altura eu já sentia um aperto no peito, porque Davi está me contando isso agora? — me lembro direitinho da ocasião, minha mãe se sentou na beira da cama e me chamou para que eu me sentasse ao seu lado, ela só disse uma coisa: depois que o amor acaba, não há mais nada que se possa ser feito. — e então Davi continuou. — minha mãe nunca se casou novamente, mas eu sei que ela é feliz, por um tempo eu tentei me aproximar novamente do meu pai, só que por idiotice minhas nós voltamos a nos afastar, eles moram no interior, desde que vim para cá estudar quase não nos falamos mais com tanta frequência, só nas férias eu vou visitar minha mãe e m***r a saudade. — Porque você está me contando isso? — perguntei com um certo receio. — Porque sua família está passando pela mesma situação. — respondeu meio triste. — O que? — minha voz foi sumindo e as lagrimas brotaram em meus olhos. — do que você está falando? Minha família é perfeita e meus pais se amam. — É claro que sua família é perfeita... — Então porque você está inventando essas mentiras? — praticamente gritei ao mesmo tempo que ficava em pé num pulo, as lagrimas rolaram pesadas no meu rosto. — Não são mentiras Milena, só você que não queria ver. — Você está enganado. — junto com o choro eu senti uma raiva enorme me consumir. — Eu vi. — Davi disse sério. — a alguns dias eu encontrei seu pai almoçando com outra mulher, nós conversamos e eu aconselhei seu pai a falar a verdade para sua mãe, os dois brigaram f**o e desde então Afonso não apareceu em casa mais. — Não pode ser.— voltei a me sentar. — meu pai traindo a minha mãe? — minha cabeça girava, eu precisava de um tempo para digerir isso, por sorte Davi não disse nada, permanecemos calados por um logo tempo, meus olhos focados no nada. — até meu pai foi capaz de fazer isso, justamente ele que eu sempre tive como meu herói. — logo toda minha vista se embaçou e eu só me deixei cair no choro sem restrição. — Ele vai ser sempre seu pai, e seu herói. — senti a mão de Davi sobre meu ombro, apenas balancei a cabeça negativamente. — Eu nunca mais quero vê-lo na minha frente. — limpei as lagrimas furiosa. — Não fala isso Milena. — Porque não? — minha magoa se tornou raiva. — ele é como qualquer outro homem imundo, que trai, mente e engana
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