CAPÍTULO 01
*** ANTES DE INICIAR A LEITURA, LEIA COM ATENÇÃO OS RECADOS:
Esta é o primeiro livro de uma duologia incrível. Uma estória cheia de detalhes, capítulos intensos e muitas reviravoltas, e o final será somente no livro 2.
Doce pecado do morro é uma narrativa envolvente que mostra a obscuridade do mundo do crime e o que ele traz consigo, que retrata também como traumas e erros do passado podem refletir no futuro de alguém.
Ressalto que é um livro de morro, com personagens masculinos possessivos, acostumados a terem tudo do seu jeito. É uma estória fictícia, porém, eu tento retratar o mais próximo da realidade. E na vida real, bandido do porte do protagonista que eu escrevi, não vira cachorrinho na mão de uma garota de 16 anos, então se você espera encontrar isso por aqui, essa estória não é para você😉
Mas, se deseja continuar a leitura, saiba que vai encontrar:
✔️ Palavras de baixo calão e gírias
✔️ Cenas com agressão, tortura e morte
✔️ Uso de drogas lícitas e ilícitas
✔️ Traumas
✔️ Sofrimento
✔️ Hot
✔️ Personagens masculinos possessivos, com atitudes complexas e questionáveis.
✔️ Evolução gradual dos personagens, sem atropelamento de fatos.
PRÓLOGO
— Será que você ainda não entendeu que eu não consigo mais lutar contra isso? — dou um giro com o corpo, olhando para o alto, pousando as mãos na cintura e meio sem acreditar no que estou prestes a fazer, me aproximei de seu rosto. — Eu tentei enganar a mim mesmo dizendo que era só desejo, só atração. Mas por mais que eu tente, essa porrä desse sentimento tá aqui e não me deixa em paz! — apontei para o lado esquerdo do meu peito. Eu nunca senti isso antes e não sabia como dizer, então a minha voz engasgou enquanto ela chorava desesperada. — Eu te amo, Amanda! Eu não sei como isso funciona, mas eu te amo, porrä!
DIAS ATUAIS...
Amanda
Mais um dia sob o sol escaldante no Rio de Janeiro com suas temperaturas altíssimas, estou voltando para casa desanimada, após outra tentativa frustrada de conseguir emprego. Levei currículo em vários locais, já perdi a conta de quantos distribuí no total, mas como só tenho 16 anos, é muito difícil me contratarem, principalmente porque meu endereço agora é a favela do Jacarezinho e infelizmente, algumas empresas não contratam moradores de comunidades. O preconceito impera muitas vezes.
Algumas ruas antes do ponto habitual de descermos do ônibus, o motorista para e informa que todos os passageiros precisam descer, dizendo que hoje não poderá passar deste local.
Só percebi que deveria descer ali, após tirar o fone de ouvido quando uma senhora chamou minha atenção, tocando em meu braço e falando sobre a orientação do motorista.
Ao descer do ônibus, senti um aperto no peito, uma sensação incômoda e angustiante.
Mais a frente, há um tumulto enorme, policiais, trânsito lento e muitas pessoas indo e voltando apreensivas, falando em seus telefones, aparentemente muito nervosas.
Guardo meu celular na mochila e também a caixinha de cor amarela com o fone de ouvido de bluetooth, e ao me aproximar da entrada do morro, sou impedida de continuar.
— Ninguém entra, ninguém sai! — um dos policiais avisa de forma truculenta, portando uma arma enorme em suas mãos.
Assim como eu, vários moradores ficam indignados com a situação, mas somos obrigados a ficar a uma certa distância, aliás, uma distância bem significativa e daqui ouvimos muitos gritos e tiroteio.
Nós todos com nossos celulares nas mãos, a maioria das pessoas sentadas no chão ou nos cordões das calçadas, tentando, incessantemente, conseguir contato com algum familiar ou amigo.
As batidas do meu coração pareciam estar no mesmo ritmo das rajadas de tiros que era possível ouvir incessantemente. Eu queria correr para dentro de casa, trancar as portas e me esconder, mas sabia que não podia. Fomos obrigados a permanecer na rua por conta da invasão policial que estava acontecendo na favela.
Eu moro há pouco tempo no Jacarezinho, pouco mais de 01 mês para ser exata e lá só conheço minha madrinha Diana e sua filha, Fabiele, que é minha melhor amiga desde a infância, assim como minha mãe Alessandra e a mãe dela também são amigas a vida toda. Elas viveram ali desde que nasceram e sempre nos contavam que eram inseparáveis e minha mãe foi embora da comunidade pouco antes de se casar com meu pai, que não era morador daqui.
Durante toda minha infância, a Diana e a Fabiele visitaram nossa casa, assim como algumas vezes, lembro de termos vindo à casa delas também.
Eu não gostei de ter que mudar para este lugar, é tudo novo e ainda estou me adaptando. Mas fomos obrigadas após minha mãe e meu pai se separarem definitivamente, e ela estando desempregada, não teve outra alternativa a não ser voltar para o Jacarezinho. Aqui, ela passou a ajudar Diana a vender os bolos de pote e outros doces no centro da cidade, minha madrinha é ótima nisso e já trabalha há anos neste ramo. Todo dia elas saem muito cedo para fazer as vendas e só retornam muitas horas depois.
Eu tive que trocar de escola assim como a minha irmã Laura de apenas 10 anos também, tudo é novo para mim, assim como para ela. Meus amigos, com exceção da Fabi, são todos da outra escola e eu sinto muita falta deles, e por esse motivo, não vejo a hora desse ano acabar. Estou cursando o último ano do ensino médio e nesta escola não consegui fazer amizades, as garotas não foram muito com a minha cara e se referem a mim, como a “novata da pista”, m*l sabem elas o quanto odeio estar neste lugar.
Meu sonho é cursar faculdade, mas sei que é uma realidade muito distante agora, já que meu pai sumiu no mundo após a separação e a situação financeira da minha mãe está caótica. Ela e meu pai já haviam se separado há alguns anos atrás, antes da minha mãe engravidar da Laura, inclusive, acho que na época, eles só reataram por conta da gravidez, porém, agora foi em definitivo e a nossa vida mudou de cabeça para baixo.
É tudo diferente e esquisito para mim, a Fabi está me ajudando muito, nossa casa é ao lado da casa delas, mas ainda não me adaptei a essa nova vida. A Fabi é do tipo alto astral, não leva desaforo pra casa e conhece todo mundo na comunidade, já que é cria da favela, como ela e a Diana falam.
Enquanto estou aqui sentada na mureta de pintura descascada da calçada, tento incessantemente contato com minha mãe, com a Fabi e até mesmo com a minha madrinha, porém, sem ter nenhum retorno. As horas vão passando e o sol já está se pondo, enquanto o cansaço e o nervosismo tomam conta de mim e todos que aguardam. Muitas páginas de internet informam sobre esta ocupação policial, falando inclusive, que há um grande número de mortes.
Lendo preocupada uma destas páginas, após muitas horas sem conseguir contato com ninguém, finalmente, chega uma mensagem da Fabi.
“Amiga, espero que esteja tudo bem com você, não estou em casa, mas a situação está começando a normalizar por aqui, acredito que mais um tempo e todos estarão liberados para entrar”.
Respondo a ela que estou bem, porém muito preocupada. E logo um movimento mais intenso chamou a minha atenção.
Presenciamos várias pessoas saindo presas do morro, de cabeças baixas tentando esconder o rosto, sendo conduzidas com bastante agressividade para dentro das viaturas cercadas por diversos policiais que estão comemorando as prisões. Seria uma tentativa de pacificação do local?
Já ouvi algumas vezes sobre isso, mas não tenho muito conhecimento de como realmente é.
Enquanto o sol se punha lentamente, o cenário ao redor adquiria tons de laranja e vermelho, criando um contraste impressionante com a tensão no ar, que era escura e sombria. E muitas horas após a mensagem da Fabi, a polícia começou a liberar aos poucos, nossa entrada. Meu corpo exausto implorava por água, assim como meu estômago que já fazia barulhos estranhos desejando algum alimento, meu celular notificava que precisava de bateria. Era início da noite quando minha vez foi autorizada e quando passei pela entrada, senti algo estranho, talvez o longo período sem comer nada, estivesse me deixando fraca.
A lua cheia já começava a fazer o seu espetáculo, seria mais uma linda noite estrelada no céu Carioca, mas no morro, a cena era de horror. Nunca em minha vida, eu havia presenciado nada igual, até então.
Muitos corpos espalhados, alguns com familiares desesperados os abraçando, colocando para fora a dor em forma de lágrimas, outros corpos solitários à mercê para serem recolhidos. Diversas cápsulas de bala, centenas delas, formavam um caminho de horror por onde eu ia passando, assim como muito sangue para todo lado, tudo muito semelhante a uma cena de guerra dos filmes que já assisti. Mas isso era vida real, a minha nova vida e eu que jamais imaginei vivenciar, e agora precisava tentar compreender que é a minha nova realidade.
Mais acima, na metade do morro, uma linda moça, de cabelos longos, aos prantos, estava jogada sobre o corpo de um rapaz. Ele, tão jovem quanto ela, tinha uma arma atravessada sob seu peito e, ao que tudo indica, teve sua vida no crime interrompida por um tiro letal. Com tudo que vi até o momento, fico desestruturada e saio correndo em direção à minha casa, precisava saber como todos estavam, eu só tinha conseguido contato com a Fabi e meu coração estava aflito.
Muito próximo ao meu portão, um aglomerado de pessoas dificultava a passagem até minha casa. Após pedir licença de um jeito não muito educado, avisto um corpo coberto por uma lona preta e aquela cena embrulhou meu estômago, fazendo todo meu corpo tremer e minha cabeça sentindo tudo girar. Em meio a uma pequena multidão de vizinhos ao redor do corpo, minha madrinha chorava copiosamente e estava sendo amparada por duas mulheres que não conheço e também pela Fabi, meu desespero aumentou em proporções gigantescas ao ver aquela cena e fui correndo até elas, empurrando qualquer um que pudesse se você colocar na minha frente.
— Onde está a minha mãe, madrinha? E a Laurinha? Cadê elas? — eu gritava e minha madrinha passou a mão nos cabelos, me olhando e então chorou ainda mais. A Fabi também chorava. Meu corpo retesou e eu senti uma corrente negativa passando por ele todo.
— FALA! — gritei, sentindo a visão turva pelo líquido que queria escorrer pelos meus olhos . — Me diz onde elas estão? — eu continuava gritando e sentindo meus olhos arderem. Fabi se aproximou, me abraçando.
Mas por quê? Por que ela estava me abraçando e me olhando de um jeito terno? Aliás, neste momento reparei que todos ali, me olhavam com expressão de lástima. O que estava acontecendo? Estão todos loucos?
— Amiga, eu sinto muito! — Ela diz, apertando o abraço com muita força e olhos inundados também.
— Por que você falando isso, Fabi? — perguntei temendo a resposta. — Eu quero ver minha mãe e a Laurinha!
Laurinha é como carinhosamente, chamamos a minha irmã Laura, ela é tudo na minha vida e nós somos inseparáveis.
— A Laurinha está bem, está com uma vizinha! — Fabi diz limpando uma lágrima com uma mão e me acariciando com a outra.
— E a minha mãe? — pergunto, chorando, tentando espantar da minha mente traiçoeira, algo horrível que estava me ocorrendo.
— Amiga... — ela tenta dizer algo e uma das pessoas diz:
— O pessoal que vai recolher o corpo chegou, abram espaço!
Olho para a Fabi com desespero e ela me devolve um olhar de dor e sofrimento. Então a ideia terrível do que pode ter acontecido e que passou pela minha cabeça, praticamente se confirmou
Me desvencilho do seu abraço e vou correndo em direção ao corpo coberto pela lona aterrorizante em frente ao meu portão. Fabi tentou, sem sucesso, me impedir.
— Amiga, você não tem que ver isso, não olha por favor! — Fabi grita chorando, me abraçando por trás.
Levanto a lona e ali vejo o rosto pálido da minha mãe virado para o lado esquerdo, com olhos entreabertos. O corpo com muito sangue, não consigo identificar se foi um disparo ou mais, só sei que sinto uma dor muito forte no peito como se quem tivesse sido baleada fosse eu.
Sem pensar muito, me jogo sobre seu corpo inerte, gritando desesperada de dor, assim como há poucos instantes presenciei algumas pessoas pelo morro no trajeto até aqui. Ao ver minha mãe sem vida, ali naquela estrada de chão batido, meu mundo desmoronava, a dor rasgava meu peito e assolava minha alma, me fazendo embalar seu corpo como ela fazia comigo quando eu era pequena e também com a Laura.
Eu acabara de perder a pessoa mais importante da minha vida no meio desta invasão e queria morrer junto com ela. Eu chorava desesperada olhando para o céu e me perguntando porque isso estava acontecendo? Por que viemos parar nesse lugar e minha mãe perder a vida?
Laura e eu estávamos sozinhas no mundo. Um mundo cheio de dor e injustiças e eu não podia imaginar como iríamos conseguir viver sem a nossa mãe.