Kayra Selik Acordo com o corpo pesado, como se a cama tivesse me engolido durante a noite e não quisesse me soltar. Fico aqui, estendida, encarando o teto, sentindo o calor abafado do quarto e a moleza nos músculos. Não demora muito para perceber de onde vem essa sensação: uma cólica discreta, mas insistente que começa a me cutucar no baixo ventre. Pronto. Mais uns dias e as minhas regras chegam. Todo mês, na mesma data, como um relógio crüel que nunca atrasa. Eu deveria ficar feliz, afinal, é sinal de saúde e que tudo está certo, mas odeio isso. Resmungo sozinha, já imaginando como vai ser trabalhar nesse período. Dor e pressão nas costas, ventre inchado, e eu andando pela casa como se fosse uma máquina de limpeza. Duvido que alguém aqui vá se importar, muito menos oferecer um remédio.

