O Convento Do Silêncio
Capítulo 1 — O Convento do Silêncio
O silêncio do convento não era ausência de som.
Era presença.
Helena aprendera isso cedo demais.
O rangido do assoalho antigo, o sino distante marcando as horas, o roçar do hábito contra a pele — tudo existia dentro daquele silêncio espesso que envolvia o lugar como um voto não pronunciado.
Ela caminhava pelo corredor de pedras com uma cesta de roupas limpas nos braços, o olhar baixo, como aprendera a manter. Não por submissão, mas por proteção.
Porque quando erguia os olhos… ela via.
Sempre viu.
As almas das irmãs passavam por ela como sombras de luz. Algumas densas, pesadas de culpa antiga. Outras leves, quase transparentes, sustentadas mais por hábito do que por fé.
Helena não julgava.
Nunca julgara.
A madre superiora, por exemplo, carregava uma alma rachada, sustentada por fios finos de devoção e medo. Não era santa. Nunca fora. Mas permanecera.
Permanecer também era um tipo de milagre.
Helena entrou na pequena lavanderia e fechou a porta atrás de si. Ali, sozinha, permitiu-se respirar fundo.
Desde criança aprendera a fingir normalidade. Na infância, os adultos chamaram de imaginação. Depois, de sensibilidade excessiva. Só quando o convento a acolheu é que o dom deixou de ser pergunta.
Ali, tudo que não era compreendido… era oferecido a Deus.
Ela nunca pedira para ver almas.
Nunca rezara por isso.
Na verdade, rezara muitas vezes para não ver.
Mas Deus permanecera em silêncio.
E Helena aprendera a conviver com isso também.
Quando o sino do meio-dia soou, ela já estava no pátio interno, regando as plantas com movimentos lentos. O sol atravessava as folhas, e as almas das irmãs pareciam mais suaves à luz do dia.
Foi então que sentiu.
Não viu.
Sentiu.
Uma ausência.
Helena congelou.
A água continuou escorrendo, encharcando a terra.
Alguém atravessava o portão principal.
Ela ergueu o olhar antes de conseguir se impedir.
As irmãs que caminhavam ao redor tinham alma. As freiras que se aproximavam do claustro tinham alma.
Mas o homem que entrava, acompanhado pela madre…
Era vazio.
Não escuro.
Não corrompido.
Apenas… nada.
Helena sentiu o coração disparar de um jeito que não conhecia. Não era medo. Não era tentação.
Era desequilíbrio.
Como se o mundo tivesse esquecido de terminar algo.
O homem caminhava normalmente. Sorria educadamente. Agradecia à madre. Era… humano em tudo, menos no que ninguém via.
Quando seus olhos cruzaram os de Helena, ela sentiu algo ainda mais perturbador.
Ele a via.
Não como as outras.
Como se soubesse.
Helena baixou o olhar de imediato, o hábito escondendo parte do rosto. O coração martelava no peito, uma oração esquecida presa na garganta.
— Ele ficará algumas semanas — disse a madre às irmãs. — O convento precisa de restauração. O telhado antigo não resistirá a outro inverno.
Helena apertou os dedos em torno do regador.
Restauração.
A palavra ecoou como ironia c***l.
Ela sabia, naquele instante, com a certeza que só o dom lhe dava:
Aquele homem não estava ali por acaso.
E pela primeira vez desde que fizera seus votos, Helena sentiu algo que não conseguiu oferecer a Deus.
Medo de amar aquilo que não podia ser salvo.