Capítulo 4 Continuação

1885 Words
O Augusto deu uma risada alta, aquela gargalhada de quem acha que o mundo é um tabuleiro e ele é o único jogador com peça de ferro. Ele virou o resto da garrafa de Grey Goose na boca, deixou um pouco escorrer pelo queixo e limpou com a manga da camisa, um gesto bruto, de quem não precisa de etiqueta porque o morro inteiro se ajoelha pro rastro dele. Ele olhou pra Samira, que continuava ali, estática, aceitando o desrespeito de ver o marido se esfregando em duas piranhas de asfalto bem na frente dela. Ela não disse um "A". Só apertou o copo de cristal até os nós dos dedos ficarem brancos, uma estátua de marfim cercada por urubus. — Bora, Samira! Levanta essa raba daí que o pai hoje tá com sede de mais! — O Imperador gritou, puxando ela pelo braço com uma força que quase a fez tropeçar. — O baile tá bom, mas o meu quarto tá melhor. Ele saiu arrastando ela, as outras duas minas vindo logo atrás, rindo e trocando olhares de deboche pra cima da primeira-dama. Eu acompanhei o movimento com o olhar, mas meu corpo continuou parado na sombra, um sniper mental calculando a trajetória da queda. Eles cruzaram o camarote, os seguranças da linha de frente abrindo caminho na base do empurrão, e eu fui logo atrás, mantendo a distância necessária pra não ser notado, mas perto o suficiente pra sentir o rastro que ela deixava no ar viciado. Quando eles atravessaram o portão de ferro que dava pro acesso VIP dos fundos, onde os carros blindados tavam estacionados, o clima mudou. O barulho do funk ficou abafado, substituído pelo som dos motores ligados e pelo chiado dos radinhos. — c*****o, Caçador... tu viu aquilo? — Uma voz fanhosa e cheia de inveja m*l disfarçada brotou do meu lado. Era o Bochecha, um dos vapores da contenção que achava que ter uma fita vermelha no braço dava pra ele o direito de ter opinião. O moleque tava com a cara cheia de pó, os olhos arregalados, olhando pro r**o da Samira sumindo dentro da Land Rover blindada do chefe. — O chefe tem uma sorte grande de outro mundo, né, relíquia? — O moleque deu uma risadinha nervosa, ajeitando a bandoleira da 7.62 dele. — Olha o naipe daquela mulher, mano. O cara esculacha, traz p*****a pra dentro do camarote, faz o que quer e ela ainda aceita tudo calada, de cabeça baixa, servindo o cara como se ele fosse um deus. p***a, se eu tivesse uma joia daquela em casa, eu não precisava de mais nada na vida. O Imperador é o único que sabe domar a fera e manter a rédea curta. O cara é o brabo, não tem jeito. Eu parei. Não virei o corpo, só a cabeça, devagar, o suficiente pra ele ver o brilho gélido no meu olhar por baixo da aba do boné. O Bochecha engoliu em seco, o sorriso dele morrendo antes de chegar no canto da boca. O silêncio que eu impus ali era mais pesado que o som do baile que ainda ecoava no fundo. Eu não ia entrar na onda de falar m*l do Imperador pra um vapor qualquer; traição de elite se faz no silêncio, não em fofoca de beco. — Tu fala demais, Bochecha. Mas já que tu tá tão emocionado, presta atenção na visão — falei, a voz saindo como uma lixa numa chapa de aço, seca e cortante. — O problema de vocês é achar que mulher se domina no grito e no esculacho. Mulher daquele naipe ali, com aquele porte de joia imperial, não nasceu pra ser troféu de prateleira nem saco de pancada emocional. Uma mulher como a Samira deveria ser tratada como rainha, colocada num pedestal onde ninguém encosta, e não como um objeto que tu joga no canto quando cansa de usar. O vapor piscou, confuso, tentando processar a profundidade da minha revolta disfarçada de análise técnica. Eu dei um passo pra frente, deixando o cheiro de pólvora da minha fuzil invadir o espaço dele. — O Augusto tem o ferro, tem o ouro e tem o comando. Mas tratar uma rainha como se fosse p*****a de beira de estrada é pedir pra criar um monstro dentro de casa. E monstro, parceiro, não respeita dono quando sente o cheiro do sangue. O Bochecha deu uma risadinha sem graça, coçando a nuca, tentando aliviar o clima sinistro que eu tinha instalado. Ele olhou pro comboio de luxo que já começava a manobrar pra descer a ladeira e depois voltou os olhos pra mim, com uma ponta de inveja que ele não conseguia segurar. — É, relíquia... tu fala bonito, mas no fundo tu sabe que é o cara mais invejado desse Turano hoje. Tu que se deu bem nessa divisão de tarefas, papo reto. Nós todos aqui embaixo, os moleques da contenção, os gerentes de pista, tava todo mundo querendo ser o segurança particular da primeira-dama. Imagina? Ficar 24 horas colado naquela pele, sentindo o perfume dela, sendo a sombra da mulher mais cobiçada do Rio... — O moleque suspirou, balançando a cabeça. — E o Imperador, do nada, escolheu logo tu. O cara mais fechado, mais seco e mais perigoso da elite. Ele disse que tu era o único que não ia se emocionar com a carne dela. m*l sabe ele que até pedra sente o calor daquele vulcão. Tu tá no céu, Caçador, e ainda tá reclamando do clima? Eu dei um sorriso de canto, um movimento mínimo que não chegava nos olhos. A ironia daquela situação era um prato que eu tava comendo frio há meses. O Augusto me escolheu porque achava que eu era um robô, uma máquina de matar sem alma e sem desejo. Ele achava que a minha lealdade ao comando era maior que o meu instinto de homem. Erro fatal. No jogo do poder, o excesso de confiança é o primeiro passo pro abismo. — Ele escolheu a sombra certa, Bochecha. Só esqueceu que a sombra é a única coisa que acompanha a pessoa até dentro do quarto — respondi, ajeitando a bandoleira do meu AR-15 com um estalo seco. — Se ele acha que eu sou o cadeado do cofre, ele tá certo. Mas ele não sabe que eu também sou o único que tem a combinação pra abrir a porta por dentro. — Qual foi, Caçador... tu tá sinistro hoje, mano. Parece que tá prevendo o fim do mundo. O Bochecha deu um passo pro lado, tentando ler o que se passava por trás da minha cara de granito, mas ele não tinha envergadura pra isso. Ele tava com aquela curiosidade de moleque, aquela vontade de saber como era o gosto do pecado que eu, por dever de ofício, tinha que escoltar toda noite. Ele deu um gole no energético, limpou a boca com as costas da mão e jogou a pergunta que tava entalada na garganta de metade dos soldados daquele morro. — Mas fala aí, Caçador... papo de homem agora, sem a farda do comando pesando. Tu que tem esse vulgo, que é conhecido por não perder um rastro e por ter o olho mais afiado desse Turano... vai dizer que tu não deu nem uma olhada na primeira-dama? — O moleque deu um risinho safado, balançando o radinho no peito. — Tu tá colado nela o tempo todo, mano. Sente o cheiro, vê o movimento daquele vestido branco que hoje tava de sacanagem... Impossível tu ser de gelo assim. Tu não deu nem uma secada de leve quando o chefe tava de costas não, relíquia? Tu não é de ferro, paizão. Eu mantive o olhar fixo no comboio que sumia na curva, sentindo o peso da mentira se acomodar no meu peito com a mesma naturalidade de quem carrega uma arma carregada. Minha mente deu um flash instantâneo: a pressão do meu corpo contra o dela no corredor, o perfume de baunilha que quase me tirou o rumo. Mas pro Bochecha, e pro resto do mundo, eu era o Caçador. E o Caçador não se emociona. — Tu tá me confundindo com esses moleques que ficam babando em cima de postagem de i********:, Bochecha — respondi, a voz saindo mais seca que chão de sertão, sem um pingo de hesitação. — Eu não olho pra Samira como mulher. Eu olho pra ela como um fardo. Uma missão que o Augusto me deu e que, pra ser sincero, é o tédio mais caro da minha vida. Menti com a precisão de um sniper. Menti olhando no olho dele, deixando a frieza do meu tom convencer a alma medrosa do vapor. — Pra mim, ela é só pele e osso num vestido caro que eu tenho que garantir que não seja furado por bala inimiga. Tu acha que eu tô no céu? Eu tô é de saco cheio de carregar bolsa de madame e ouvir reclamação de quem tem tudo e não tá satisfeita com nada. Enquanto tu imagina o vulcão, eu só vejo o trabalho que dá manter a cratera fechada. Eu não olho, não seco e não desejo. Meu interesse por ela é o mesmo que eu tenho por um muro de concreto que eu tenho que vigiar: se ele cair, a culpa é minha. Fora isso, é só paisagem morta. O Bochecha arregalou os olhos, claramente decepcionado com a minha resposta, mas convencido pela minha falta de humanidade. Ele balançou a cabeça, rindo sem acreditar. — c*****o, Caçador... tu é um robô mesmo, né, mano? Por isso que o Imperador confia em tu de olhos fechados. Qualquer outro aqui já tinha tentado um desenrolo ou tava sofrendo de paixão recolhida. Tu é frio demais, parceiro. Deus me livre ter esse teu sangue de barata. — É esse sangue de barata que faz eu estar vivo enquanto muito "emocionado" tá virando adubo no cemitério — cortei o assunto, subindo na moto e dando a partida. — Agora para de fantasiar com a mulher dos outros e vai ralar. O turno não acabou e a pista tá salgada. O ronco da moto abafou qualquer réplica que o moleque pudesse ter. Saí dali queimando o asfalto, a mentira ainda vibrando na minha garganta. Mentir pro Bochecha foi fácil. O difícil era mentir pra mim mesmo enquanto o rastro de baunilha dela continuava queimando as minhas narinas e a lembrança do toque dela no corredor fazia meu sangue ferver por baixo do colete. O Augusto confiava em mim porque achava que eu não tinha olhos. O morro me respeitava porque achava que eu não tinha desejo. Mas a real é que eu tinha os dois, e tava usando cada um deles pra tecer a corda que ia enforcar o Imperador. Eu não tava "dando uma olhada" nela. Eu tava devorando a alma dela em silêncio, esperando o momento de levar o prêmio principal. Acelerei a moto ladeira abaixo, seguindo o rastro das lanternas vermelhas da Land Rover. O Bochecha achava que eu não via nada. A Samira achava que eu via tudo. E eu? Eu já tinha visto até o final daquela história, e ele não era nada "profissional" como o comando exigia. Eu sou o Caçador. E a mentira é a minha camuflagem favorita antes do bote final.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD