capitulo 5 Samira

1441 Words
NARRADO POR SAMIRA O espelho à minha frente não mentia, mas eu tentava enganar a mim mesma toda vez que passava o batom caro pra esconder o tremor nos lábios e a alma que já tava em frangalhos. Meu nome é Samira, a "primeira-dama" do Turano, a mulher que geral respeita no grito e na reverência quando eu passo, mas que no silêncio desse quarto de luxo tem que catar os estilhaços de um sonho que virou o pior dos pesadelos. Geral olha pra mim e vê ouro, vê poder, vê a mulher do cara que manda em tudo. Eu olho pro reflexo e só vejo uma prisioneira que usa diamantes no lugar de algemas. Antes de ser a "Dama", eu era só a Samira do asfalto, uma menina correria que trabalhava num salão de beleza de luxo ali perto da Tijuca. Eu era a braba daquela p***a, atendendo madames que não faziam ideia do que era a vida real, enquanto eu sonhava com um futuro onde eu não precisasse contar moeda pro ônibus. Eu tinha o pé no chão, mas a cabeça voava alto. Queria ser dona do meu próprio negócio, queria sair do aperto do aluguel e dar uma vida de rainha pra minha mãe. E foi numa tarde de chuva, quando eu tava saindo do trabalho com o uniforme dobrado na bolsa e o cansaço batendo forte, que a minha vida deu um cavalo de p*u. O Augusto ainda não era o Imperador absoluto, mas já era o frente que tava botando o Turano no mapa na base da bala. Ele encostou com uma nave blindada na porta do salão porque a mulher dele na época uma loira que não valia o que o gato enterra tinha feito um escândalo lá dentro por causa de uma unha quebrada. Eu tava na calçada, esperando o ônibus que nunca vinha, quando ele desceu. O cara exalava um perigo que, na minha inocência de menina boba, eu achei que era charme. Ele me olhou de cima a baixo, ignorou a confusão lá dentro e parou na minha frente, travando o meu caminho. — Tu trabalha aí nesse aquário de dondoca, morena? — ele perguntou, com aquele sorriso de canto que hoje eu sei que é o aviso do bote da cobra. — Trabalho pra ganhar a vida, não pra fazer média com ninguém — respondi, sem baixar a cabeça, sustentando o olhar. Acho que foi ali que eu assinei minha sentença de morte em vida. Ele riu, me deu um cartão com o vulgo dele e disse que se eu quisesse parar de lixar unha de madame pra começar a mandar nelas, era só dar o sinal que o bonde buscava. Eu fui boba. Fui muito boba. Me achei a escolhida, a Cinderela da favela que ia mudar o destino de um bandido. Achei que o amor de um homem como ele ia me blindar do mundo, que eu ia ser a única capaz de amansar a fera. No começo, o Augusto era só carinho e ostentação. Me tirou do salão, me deu essa mansão que parece um castelo, me cobriu de ouro e dizia que eu era a luz da vida dele. Mas bandido não ama, né? Bandido possui. Bandido marca território. Com o tempo, o carinho virou cobrança, e a cobrança virou agressão mascarada de cuidado. O Imperador foi crescendo no crime e o coração dele foi virando pedra, esfriando conforme o poder aumentava. O homem que me buscava no trabalho com flores foi substituído por esse monstro que me puxa pelo cabelo na frente dos soldados e me chama de "patrimônio". Eu olho pra trás e sinto um ódio mortal de mim mesma por ter acreditado que o crime ia me dar a paz que eu não tinha no asfalto. Hoje, eu vivo nessa cela de mármore. Eu amo o Augusto? Às vezes eu acho que sim, ou talvez eu só tenha um medo paralisante de como seria minha vida sem o peso do nome dele pra me proteger. É uma síndrome de estocolmo misturada com instinto de sobrevivência pura. Eu sou fiel, fecho com ele nas guerras, seguro a onda quando o cerco fecha e a polícia brota, mas por dentro eu tô em carne viva. Eu aguento o beijo possessivo, aguento a mão pesada que deixa marca roxa na minha coxa, porque aprendi que mulher de bandido tem que ser de aço pra não quebrar na primeira porrada da vida. O trajeto do baile pra casa hoje foi um silêncio cortante, interrompido apenas pelo ronco do motor da Land Rover blindada subindo as ladeiras do Turano. O Augusto vinha do meu lado, exalando aquele bafo de uísque caro misturado com cheiro de charuto, e a mão dele... p***a, a mão dele não saía da minha perna, apertando com uma força que eu sabia que ia virar mancha amanhã. Ele tava eufórico, rindo de piada interna com os soldados, se sentindo o dono do mundo porque o baile tinha sido um sucesso e o lucro tava batendo no teto. Eu só olhava pela janela, vendo os reflexos das luzes da favela passando rápido, tentando manter a postura de primeira-dama enquanto meu estômago dava voltas de tanto nojo e cansaço. Assim que pisamos dentro da mansão, o clima pesou. O luxo das paredes de mármore e os quadros caros pareciam mais frios, mais vazios. O Augusto jogou o fuzil de ouro em cima do sofá de couro um troféu de guerra que ele exibe pra esconder a própria fraqueza e se virou pra mim com aquele olhar de quem tá traçando um plano onde eu sou o território a ser ocupado e vigiado. — Tu viu o movimento lá embaixo no baile, né, Samira? Os alemão tão querendo crescer o olho no que é meu. Tão achando que eu tô vacilando, que eu tô ficando mole — ele disse, vindo na minha direção e segurando meu rosto com aquela agressividade que ele jura por tudo que é sagrado que é amor. — Eu não vou te perder, morena. Tu é minha relíquia, o meu estandarte. E pra garantir que ninguém, absolutamente ninguém, chegue perto da minha joia, a partir de agora o bagulho vai ser doido. Eu senti um calafrio percorrer minha espinha. — Mais soldado na porta, Augusto? Eu já vivo cercada por esse bando de urubu, não consigo nem respirar sem um rádio chiar perto de mim. Pra que mais? — Soldado é bucha, já te falei. Qualquer um vira a casaca por um punhado de nota. Eu quero elite. — Ele deu um sorriso de lado, seco, que me deu mais medo que um fuzil apontado. — O Caçador. O Renan vai ser tua sombra. Onde tu pisar, ele pisa. Se tu for pro banho, ele fica na porta. Se tu for dormir, ele fica na contenção do corredor. Ele é o meu melhor elemento, o cara que não tem sentimento e que a ordem é passar o cerol em qualquer um que ousar te olhar diferente. Até dentro dessa casa, ele vai ser teus olhos e meus ouvidos. Eu tentei contestar, a palavra "liberdade" quase saindo da minha boca, mas o olhar de demônio dele me calou na hora. No crime, a gente não discute ordem do patrão, mesmo que o patrão seja o homem que dorme do nosso lado e diz que nos ama depois de nos humilhar. Ele me deu um beijo possessivo, estalado, que tinha gosto de posse, álcool e dominação, e saiu pra varanda pra terminar de resolver as pendências com os frentes, me deixando ali, parada no meio da sala. Subi pro quarto com as pernas pesadas, parecendo que eu tava carregando o peso do morro inteiro nas costas. O som das botas táticas do Caçador já ecoava lá embaixo, um barulho ritmado e frio, anunciando que a minha pouca liberdade tinha acabado de receber uma sentença de morte definitiva. Entrei no meu santuário e me parei na frente do espelho de moldura vitoriana. Comecei a tirar as joias, uma por uma, como se estivesse me livrando de correntes. O colar de ouro maciço, pesado e brilhante, parecia mais uma coleira de luxo. O par de brincos brilhava sob a luz do abajur, mas não brilhava mais que a lágrima que eu teimava em não deixar cair, porque mulher de bandido não chora, ela engole o choro pra não ser chamada de fraca. Eu encarava meu reflexo e tentava enxergar a Samira do salão, aquela menina cheia de planos, mas só via a "Joia do Império". Uma prisioneira adornada de diamantes pra disfarçar a podridão da vida que escolheu.
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