Capítulo 2 Caçador

1317 Words
Eu tava lá no meu canto, escorado num pilar de concreto bruto, no ponto mais escuro onde a luz do estrobo não chegava e onde a morte costuma puxar a cadeira pra assistir o show. Na mão, um copo de uísque com gelo de coco que eu nem bebia direito, só mantinha ali pra fingir que eu tava na social, camuflado entre os peixes grandes. Saboreando a ideia de como seria desmoronar o castelo de cartas do Augusto, senti aquela presença pesada se aproximando. O cheiro de charuto caro e o odor rançoso de quem acha que comprou a alma do morro subiu antes mesmo dele abrir a boca. O Imperador chegou chegando, com aquela marra de quem é dono da vida e da morte de geral. Ele tava com o fuzil de ouro atravessado no peito, brilhando mais que os dentes dos moleques da linha de frente que davam a vida por migalha. Ele parou do meu lado, soltou uma lufada de fumaça pro alto e deu aquela risada de quem tá se sentindo o dono do jogo, o mestre de uma marionete que ele nem imaginava que já tinha cortado os fios. — E aí, Caçador? Tá curtindo o baile ou tá achando que tá num enterro, p***a? — Ele bateu no meu ombro com aquela força desnecessária, aquela palmada de quem quer reafirmar quem manda no pedaço. — Tu tá aqui no pico, uísque do bom na mão, a elite do crime no teu pé... relaxa essa cara de carrasco, parceiro. Hoje a noite é de comemorar. O carregamento de peça nova chegou, o lucro tá batendo no teto e a paz tá reinando sob o meu fuzil. Eu virei o rosto devagar, centímetro por centímetro, mantendo a expressão de gelo, os olhos mais frios que o fundo de uma geleira. No fundo, eu tava rindo da cara de o****o dele. Paz? O cara não via que o maior inimigo dele tava bebendo no mesmo copo, ouvindo os planos de fuga e desejando a mulher que ele exibia como se fosse um troféu de caça. O cara tava cego pelo brilho do próprio ouro. — O olho não dorme, Imperador. — Respondi, a voz saindo num tom baixo, mais grossa que o normal, como se viesse lá do fundo do inferno. — Alguém tem que ficar de prontidão enquanto o resto se emociona com o grave. Se eu relaxar, o alvo se mexe. E tu sabe que eu não gosto de perder o rastro da caça. O Augusto deu um gole direto na garrafa, um gesto bruto, e olhou lá pra baixo, pro mar de gente que se batia na pista. Ele tava se sentindo um deus, mas deuses também sangram. De relance, vi a Samira lá no fundo do camarote, cercada por umas amigas, mas o olhar dela... p***a, o olhar dela tava procurando o meu no meio da penumbra. Eu sentia aquela eletricidade queimando a distância, uma voltagem que ia fritar o juízo de quem tivesse no caminho. — Tu é f**a, Renan. Por isso que tu é meu número um, a minha contenção de elite. Mas até o melhor fuzil precisa de manutenção pra não travar o ferrolho na hora do vamo-ver. — O Imperador deu um sinal seco com a mão pra um dos seus seguranças pessoais que tava na escada vigiando o acesso. — Se liga... por conta da casa hoje. Tu merece o melhor da vitrine. Em menos de um minuto, três minas que pareciam ter saído de capa de revista ou de clipe de funk brotaram na nossa frente. Só as "pistas quente" do Turano, aquelas que só encostam onde o cheiro de nota é forte. Shortinho curto de lycra que não deixava nada pra imaginação, topinho que m*l segurava os p****s, pele bronzeada no sol da laje e aquele olhar de quem tava pronta pra qualquer missão, por mais suja que fosse. Elas chegaram já se esfregando, sentindo o cheiro da grana, do uísque e do perigo que exala da minha pele. — Essas aqui são o bônus, Caçador. Escolhe uma, escolhe duas, leva as três... o quarto VIP lá nos fundos tá liberado e abastecido com o que tem de melhor, do pó à bebida. — O Imperador deu um tapa sonoro na raba de uma delas, que deu um sorrisinho de submissão, e deu uma piscada pra mim, achando que tava me dando o mundo. — Vai lá descarregar o pente, moleque. Tu tá precisando aliviar essa tensão. É ordem do patrão: vai se divertir com a carne que eu tô te oferecendo. As minas começaram a me cercar como hienas em volta de um leão. Uma passou a mão no meu peito, sentindo a rigidez dos meus músculos e a dureza do colete por baixo da camisa preta, enquanto a outra sussurrava no meu ouvido promessas de um prazer que faria qualquer vapor do morro perder o juízo e entregar o radinho. Elas tinham o cheiro doce e enjoativo de perfume barato misturado com desejo de crescer na hierarquia do crime. Mas pra mim? Aquilo ali não valia um centavo de real furado. Era carne de balcão, mercadoria de troca. Eu tava olhando pra elas, mas o que eu enxergava era a pele cor de canela da Samira, o jeito que ela me olhava com um misto de medo e vontade de ser destruída por mim. Eu tava sentindo o toque delas, mas o que eu queria era a resistência da primeira-dama, o gosto proibido da traição. Comparar aquelas meninas com a Samira era comparar um estalo de bombinha com uma explosão de C4 dentro de um túnel. Uma era diversão de moleque; a outra era a guerra que eu tava disposto a travar. — E aí, Caçador? Vai ficar parado com essa cara de pedra ou vai mostrar pra essas gatas por que tu tem esse vulgo de quem não erra o bote? — O Augusto provocou, rindo alto, achando que tava me fazendo um favor real, o favor de um rei pro seu súdito mais fiel. Eu afastei a mão da mina que tava no meu peito com uma frieza que fez ela recuar na hora, o sorriso dela sumindo como se tivesse visto um fantasma. Olhei pro Imperador, o rosto mais fechado que porta de cofre de banco central. — Valeu a consideração, Patrão. De verdade. Mas meu paladar tá mais exigente ultimamente. Não é qualquer prato que me abre o apetite. — Dei um gole final no uísque, sentindo o gelo bater nos dentes com um estalo seco. — Essas aí servem pra quem se contenta com o que sobra na pista, pra quem gosta de quantidade. Eu prefiro guardar meu fôlego pra quando a caça for de elite. Aquela que ninguém mais consegue pegar, aquela que é proibida até de olhar. O Imperador arqueou as sobrancelhas, surpreso com a minha recusa, mas logo deu de ombros, soltando uma gargalhada que ecoou mais alto que o som do DJ. Ele achava que era só minha marra de soldado solitário, o jeito bicho do mato de quem vive no escuro. — Tu que sabe, Renan. Tu sempre foi estranho, meio por fora da curva, mas é o melhor que eu tenho na contenção. Se não quer as piranhas, volta pra tua vigília de sombra. Mas ó... o olho na minha Samira tem que ser total, entendeu? A visão é nela 24 horas. Não quero nenhum engraçadinho tentando a sorte com o que é meu. — Pode deixar, Augusto. — Falei, sentindo um gosto amargo e doce de ironia pura na boca, uma sensação de poder que ele nem sonhava. — A visão tá nela 24 horas, sem piscar. Eu não perco um movimento, não perco um suspiro. Pode ter certeza absoluta que ela tá sendo vigiada como nunca foi na vida. Vou cuidar de cada detalhe do que é "teu".
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD