Capitulo 1 Caçador

1561 Words
O PREDADOR NA CONTENÇÃO O grave do proibidão batia no peito como se fosse um soco de soco-inglês, uma pancada seca que fazia a caixa torácica vibrar e o chão do camarote tremer sob a sola da minha bota tática. Lá embaixo, no miolo da pista, a poeira do asfalto subia, misturada com o mormaço, a fumaça de narguilé e o bafo de ódio, criando uma neblina que cegava os otários. O baile do Turano tava no auge, o bagulho tava doido, clima de festa e de guerra naquela linha tênue onde um vacilo vira atestado de óbito. O cheiro era o de sempre: mistura de lança, maconha da braba, suor de corpo quente e o rastro metálico das peças que os moleques ostentavam na cintura, tudo temperado pelo cheiro de pólvora queimada que nunca sai do nariz de quem vive no limite. Do alto da área VIP, eu via tudo. Mas eu não tava ali pra rebolar, nem pra gastar onda. Eu tava ali pra caçar. Eu tava encostado num pilar de concreto bruto, no ponto mais escuro, onde a luz do estrobo não chegava e onde a morte costuma puxar a cadeira pra assistir o show. Na mão, um copo de uísque com gelo de coco que eu nem bebia direito, só mantinha ali pra fingir que eu tava na social, camuflado entre os peixes grandes. Meus olhos de gelo tavam travados, sem piscar, no centro do camarote principal. Lá, o Imperador dava o seu show de arrogância. O cara se acha o dono do mundo porque tem um fuzil de ouro cravejado e o comando da facção, mas o brilho do metal cegou o discernimento do sujeito. Ele ostenta a joia mais preciosa dele na frente de uma alcateia de lobos famintos e jura por Deus que o respeito é o que segura o ímpeto da rapaziada. Coitado. O respeito no morro é um vidro que racha com qualquer sopro de traição, e o Augusto já tava com o vidro dele todo trincado, só não tinha percebido ainda. Lá estava ela. Samira. A primeira-dama tava num vestido branco que era um deboche, um insulto à paz de qualquer homem que tenha sangue correndo nas veia. Aquilo não era roupa, era uma armadilha armada com precisão cirúrgica pra pegar o****o. O tecido marcava cada curva, cada movimento daquela raba que fazia o morro parar e o fôlego sumir de qualquer um que não fosse cego. Ela tava do lado do Augusto, fingindo que tava curtindo a batida, mas eu via o tédio cravado no fundo da retina dela. Eu via a grade da cela de ouro que ele montou em volta dela. E, porra... eu já tinha decidido que seria a chave mestra dessa cela. Minha mão coçava, uma agonia que vinha de dentro. Não era vontade de puxar o gatilho do meu fuzil, que tava ali na bandoleira, pronto pro estalo, alimentado e engatilhado. Era vontade de sentir aquela pele, de arrancar aquela seda branca no dente e ver o que o Imperador achava que tinha sob controle. O Augusto mandou eu vigiar, me colocou na contenção máxima, mas esqueceu que eu também tenho instinto. E eu não desejo pouco não, parceiro. Eu sou o Caçador. Eu não aceito sobra, eu não como resto, eu não me contento com migalha de atenção. Se eu miro, eu tomo. E o meu foco tava todo nela: no jeito que ela ajeitava o cabelo, no jeito que ela desviava o olhar quando o Augusto tentava marcar território como um cão velho, rosnando sem dente. — c*****o, Caçador... Tu tá em outra frequência, né, paizão? Tá parecendo uma estátua de gelo, mano. — Uma voz fanhosa, carregada de uma i********e que o sujeito não tinha, cortou meus pensamentos. Era o Tico, um dos vapores da contenção de baixo, um moleque que ainda não sentiu o cheiro da morte de perto. O moleque chegou cheio de marra, radinho chiando no peito e uma Glock com seletor de rajada na cintura, achando que o peso do ferro compensava a falta de cérebro. Ele parou do meu lado, tentou seguir a minha linha de visão e deu um sorriso de lado, aquele sorrisinho de quem tá querendo ganhar moral com quem é de elite, com quem é relíquia. — Tu não tira o olho do camarote do chefe, né, mano? O que que tu tanto olha lá, parceiro? Medo de algum alemão brotar no meio do baile ou tu tá só admirando a paisagem de luxo do patrão? — O moleque deu um gole num combo de Red Bull com vodka e continuou me instigando, cavando a própria cova com a língua. — A primeira-dama é um esculacho, né? O Imperador é o único que tem o mapa daquela mina de ouro. Se um sujeito olhar torto, ele arranca a cabeça e joga pros porcos. Tu é o único que tem o aval pra ficar secando assim, né? Pela função de sombra... Eu não me mexi. Nem a minha respiração mudou de ritmo. Continuei olhando fixo pra Samira, sentindo o sangue pulsar mais forte na veia, mas a mente continuava fria, um deserto de sentimentos. Dei um gole lento no uísque, deixando o líquido queimar a garganta pra manter o foco, e depois virei o rosto devagar, centímetro por centímetro, pra encarar o moleque. Meu olhar devia tá sinistro, porque o sorriso do Tico murchou na hora, como se tivesse levado um soco na alma. — Tu fala demais pro tamanho da tua peça, moleque. — Minha voz saiu num tom baixo, rouco, sem nenhuma emoção. Era o som do perigo puro, aquele que faz o cara se arrepender de ter nascido. — Eu não admiro paisagem. Eu estudo o terreno. E no meu estudo, eu vejo muita coisa que o dono do morro, na cegueira de poder dele, não consegue mais sacar. — Qual foi, Caçador? Só tô de resenha, paizão... — O vapor deu um passo pra trás, sentindo o peso do clima que eu joguei em cima dele. O suor já tava escorrendo na testa do sujeito. — A resenha mata, Tico. O que eu olho não te pertence, não te cabe saber e muito menos comentar na roda. Eu tô aqui pra garantir que ninguém encoste no que é "propriedade" do Imperador, certo? — Dei um sorriso de canto, um movimento seco, sem nenhuma alegria, apenas o prenúncio do que tava por vir. — Mas o que ninguém sabe é que o caçador mais perigoso é aquele que espera a presa se cansar do dono. O Augusto acha que tem tudo sob controle, mas controle é que nem areia: quanto mais tu aperta, mais escapa pelos dedos. E a areia dele já tá escorrendo faz tempo, só ele que não viu porque tá ocupado demais contando o ouro. Voltei a olhar pra Samira. Naquele momento, como se o destino tivesse escrito o roteiro com o sangue dos traidores, ela virou o rosto na minha direção. Nossos olhos se cruzaram por cima da multidão, por cima do som alto, ignorando cada fuzil e cada soldado ali dentro. Foi um segundo. Mas foi o suficiente pra eu ler o desafio no olhar dela. Eu vi que ela sabia que eu tava ali, na sombra, esperando o vacilo do rei pra tomar a coroa, o trono e a rainha junto. — Vaza daqui, Tico. Vai cuidar da tua contenção lá no acesso da mata antes que eu resolva testar minha mira na tua testa só pra passar o tédio desse baile de merda. — Falei sem olhar pra ele, a voz seca como um deserto de sal. O moleque não esperou a segunda ordem. Sumiu no meio da fumaça, engolido pelo medo, batendo biela. Eu fiquei ali sozinho, o Caçador na espreita, o único sujeito lúcido num mar de viciados em poder e ostentação. O fuzil de ouro do Imperador podia ditar a lei no asfalto pros morador, mas aqui dentro, no jogo do desejo e da traição, quem mandava era o meu instinto de predador. Eu não sou leal a ninguém além da minha própria vontade de vencer. O Augusto me deu o cargo de sombra, mas ele é burro demais pra sacar que a sombra é a primeira que engole a luz quando o sol se põe por trás do morro. Eu sou o cara que entra no silêncio, que não deixa rastro e que não aceita o "não" como resposta de ninguém. Samira acha que é a caça, que tá sendo cobiçada, mas ela ainda não entendeu que ela é o prêmio que eu já decidi que vai ser meu antes do amanhecer. O morro pode até ser do Imperador por enquanto, mas a alma da rainha dele... Ah, essa já tá na minha mira faz tempo. E eu nunca, em toda a minha vida de crime, errei o alvo. O pecado é tentador, mas a traição... a traição é o que me faz sentir o sangue fervendo. E eu tô com uma sede que uísque nenhum no mundo consegue apagar. O próximo bote vai ser cirúrgico, no pescoço, e quando o Augusto perceber que o império dele ruiu, eu já vou ter levado tudo o que ele jurava que era dele por direito. No mundo do crime, o dono é quem aguenta a pressão, e o Imperador já tá amolecendo.
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