Terminei meu café sem sentir o gosto de nada, peguei minha bolsa e caminhei até a porta principal. O sol já tava alto e o mormaço começava a subir as ladeiras do Turano. Ao abrir a porta, a figura de preto já tava lá, parada como uma estátua de guerra.
A brisa quente do morro bateu no meu rosto, mas o que me fez estremecer foi o olhar dele. O Caçador não se moveu um milímetro, mas eu senti como se ele tivesse me tocado, uma carícia invisível e pesada que percorreu meu corpo todo. Aqueles olhos cinzentos, frios como o aço de um fuzil deixado no gelo, me mapearam de cima a baixo. Ele demorou um segundo a mais na fresta do meu conjunto de linho, onde a pele aparecia de leve. Senti meu sangue subir, uma mistura de irritação com uma eletricidade que eu me recusava a nomear, mas que fazia minhas mãos suarem dentro da bolsa de grife.
Eu tentei manter a pose, o queixo erguido de quem é a dona da p***a toda, mas o silêncio do Renan era ensurdecedor. Ele não era como os outros soldados que baixavam a cabeça e olhavam pro chão com medo. Ele me encarava de frente, como se soubesse exatamente cada segredo que eu escondia por trás dos óculos escuros de marca.
Ele deu um passo à frente, com aquela calma irritante, e abriu a porta traseira da Land Rover blindada. O movimento foi preciso, mas a proximidade dele, o calor que emanava daquele corpo robusto, me fez prender a respiração. O cheiro dele uma mistura de pólvora, metal quente e aquele perfume amadeirado rústico, seco era um convite perigoso pro caos.
— Onde está o Tião? O outro que fazia a minha segurança... ele não vai hoje? — perguntei, tentando manter a voz firme, embora o tom tivesse saído mais nervoso do que eu planejava.
O Caçador me olhou de soslaio, um canto da boca esboçando algo que poderia ser um sorriso cínico, uma expressão debochada de quem domina a situação.
— O Tião foi realocado, senhora Samira. — A voz dele saiu grave, uma vibração rouca que parecia ecoar dentro das minhas costelas. — O Imperador achou que ele estava ficando "emocionado" demais com a paisagem, perdendo o foco na contenção. Agora, a senhora é minha missão exclusiva. A partir de hoje, a visão é só minha.
Ele sustentou o meu olhar por um tempo que pareceu uma eternidade, um desafio silencioso no meio da rua. Eu sabia muito bem o que "realocado" significava no vocabulário de sangue do Augusto, e um frio percorreu minha espinha. O Augusto não trocava as peças do tabuleiro por acaso; ele tava cercando o frango, e o lobo que ele escolheu pra vigiar a ovelha era infinitamente mais perigoso do que qualquer alemão de morro vizinho.
— Entra, Samira. O asfalto tá salgado hoje e eu não quero te deixar exposta nem mais um segundo aqui fora pro inimigo — ele falou meu nome sem o "senhora", uma liberdade vulgar, seca, que me fez as pernas tremerem, mas eu não tive coragem de corrigir. A audácia dele me desarmava.
Me acomodei no banco de couro gelado e ele fechou a porta com um estalo seco, finalizando o isolamento do mundo. Quando ele assumiu o volante e o carro começou a descer as ladeiras do Turano, eu via pelo retrovisor o reflexo daqueles olhos cinzas. Ele não olhava para a estrada como um motorista comum; ele caçava ameaças em cada beco, em cada laje, com a cabeça girando como um radar.
O silêncio dentro do carro era denso, carregado de uma eletricidade estática que fazia os pelos do meu braço arrepiarem. Eu era a mulher do dono do morro, a rainha do império, mas ali, trancada naquele blindado com o Caçador, eu me sentia vulnerável, exposta. O Augusto me deu um guarda-costas, mas o que eu sentia era que ele tinha me entregado pro próprio perigo.
— Tu tá muito tensa pro meu gosto, morena. — Ele soltou a frase do nada, sem tirar os olhos da via, mas eu vi a mão dele apertar o volante com força, os músculos do antebraço saltando, as veias desenhadas. — Relaxa. No shopping, o jogo é meu. Ninguém encosta no que o Imperador mandou eu guardar.
— Eu não sou um objeto para ser guardado, Renan. Me respeita — rebati, tentando recuperar minha dignidade e a minha posição de poder.
— Não disse que era. — Ele deu uma olhada rápida pelo retrovisor, e dessa vez, o gelo dos olhos dele pareceu derreter por um milésimo de segundo, revelando uma fome que ele tentava esconder sob a farda. — Disse que tu é a relíquia. E relíquia a gente não guarda no cofre... a gente protege com o sangue se precisar.
O jeito que ele falou "relíquia" me deu um nó na garganta. Era diferente do jeito que o Augusto falava. No Augusto, era posse. No Caçador, parecia... desejo reprimido. O carro descia a ladeira e eu sentia que tava descendo direto pros quintos dos infernos, e o meu guia era o d***o em pessoa, vestindo farda preta e carregando um fuzil atravessado no peito. A caçada tinha começado, e eu não sabia se era a presa ou o prêmio.