Capítulo 12 Samira

776 Words
O PREDADOR NA CONTENÇÃO Acordei com a claridade agressiva invadindo o quarto, cortando as frestas da cortina de veludo, e o lado direito da cama vazio, apenas com o rastro do calor que o Augusto deixou antes de sair. O lençol de seda tava todo revirado, um campo de batalha que denunciava a possessão da noite passada. O Augusto já devia estar lá embaixo, no miolo do morro, resolvendo as pendências que o poder exige de quem senta no trono: vida, morte e contagem de malote. Levantei sentindo o peso do meu corpo, um cansaço que parecia vir dos ossos, uma exaustão que nem o banho mais demorado e caro parecia querer levar embora. Me arrumei com a calma de quem prepara uma armadura. Cada peça de roupa era uma camada de proteção contra o mundo que me cercava. Escolhi um conjunto de linho fino, tons pastéis que evocavam uma paz que eu não tinha, e as joias que o Augusto faz questão que eu use o ouro reluzindo contra a minha pele, pesado, gritando pra quem quisesse ver que eu tinha dono. Eu era a "Joia da Vitrine", e joia precisa brilhar pra inflar o ego do joalheiro. Desci as escadas devagar, o som do meu salto batendo no mármore ecoava como batidas de um metrônomo no silêncio daquela mansão que mais parecia um mausoléu. Quando entrei na sala de jantar, a mesa estava impecável, mas a energia do lugar tinha mudado. Era a Juju, a novinha que o comando trouxe pra ajudar nos serviços. Ela tava de costas, terminando de organizar as frutas tropicais, e quando percebeu minha presença, deu um pulo, com o susto estampado naquela cara de menina que ainda não entendeu onde se meteu. Eu a observei em silêncio por alguns segundos. Ela era jovem, bonita de um jeito cru, mas tinha aquele brilho de curiosidade excessiva nos olhos, um deslumbramento perigoso com o luxo que sempre me deixava com o sistema de alerta ligado no máximo. — Bom dia, senhora Samira — ela disse, baixando a cabeça rápido, mas eu senti o olhar dela subindo de volta, me escaneando, analisando o tecido do meu linho, o brilho do meu ouro, tentando decifrar como se vira uma rainha. — Bom dia, Juju — respondi, mantendo a voz suave, mas com aquela firmeza de quem conhece cada engrenagem daquela estrutura de poder. Sentei na cabeceira oposta à do Augusto e comecei a servir meu café, sentindo o olhar dela queimando na minha nuca. — O café cheira muito bem. Espero que você esteja se adaptando bem à rotina da mansão. — Estou sim, senhora. O senhor Augusto é... bem exigente, mas estou fazendo o meu melhor — ela comentou, e eu senti um tom diferente, uma vibração na voz dela quando pronunciou o nome dele. Um tom que eu conhecia bem: fascinação pelo monstro. Deixei a xícara sobre o pires com um estalo seco e olhei diretamente nos olhos dela. Eu não precisava gritar. No Turano, a autoridade de uma primeira-dama se exerce no silêncio e na palavra certeira que corta como navalha. — Juju, escute com atenção. Esta casa tem uma ordem muito específica. O Augusto é um homem de muitas responsabilidades, e a cabeça dele está sempre voltada pra guerra do morro. — Fiz uma pausa, deixando o peso das minhas palavras sufocar o ambiente. — Eu prezo muito pela discrição. Aqui, o seu trabalho é ser invisível. Especialmente quando o meu marido estiver presente. Não quero olhos curiosos, não quero conversas desnecessárias e, principalmente, não quero que você olhe para ele. O Imperador é o meu marido, e a sua função aqui termina onde a nossa i********e começa. Entendeu a visão? A menina engoliu em seco, o rosto perdendo a cor na hora. A segurança que ela tentou demonstrar sumiu diante da minha calma gelada. Ela sabia que eu não tava dando um conselho, tava dando um ultimato. — Entendi perfeitamente, senhora. Peço desculpas se pareci... — Não precisa se desculpar — interrompi com um sorriso leve que não chegava nem perto dos olhos. — Apenas siga as regras e teremos uma convivência tranquila. Agora, termine de organizar a cozinha. Eu vou sair para o shopping e quero encontrar tudo em perfeita ordem quando eu voltar. Ela assentiu rapidamente e saiu quase sem fazer barulho, como se quisesse desaparecer no mármore. Eu suspirei, sentindo um peso no peito. Não era por maldade, era por preservação. Eu sabia como o Augusto era, um bicho que devorava o que via pela frente, e sabia que o destino dessas meninas que se deslumbram com o poder costuma ser um beco sem saída.
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