Capítulo 11 Imperador

1412 Words
O Douglas deu um passo pra trás, chegando na porta, mas parou de novo. Aquele sorriso de deboche dele é o que mais me irrita, parece que o desgraçado quer testar o limite da minha paciência. Ele ajeitou o boné, deu uma olhada pro corredor pra ver se tinha alguém ouvindo e voltou a encarar o meu cano, sem medo de morrer. — Só cuidado pra não perder depois, Augusto. Eu falo como teu sangue. Se eu fosse você, começava a tratar ela com mais carinho, papo de visão mesmo. Mulher é bicho traíra quando se sente desprezada, e a Samira não é qualquer p*****a que tu troca por dois pinos de pó. Ela tem valor, e valor atrai interessado. Tu tá dando muito espaço pra sombra, e às vezes a sombra é quem acaba ocupando o lugar do dono. — Ele soltou essa e saiu andando rápido, antes que eu pudesse voar no pescoço dele. Fiquei ali, sozinho na sala, sentindo o peito subir e descer. A fumaça do baseado ainda flutuava no ar, desenhando o que o Douglas acabou de plantar na minha cabeça. "Carinho". Essa palavra soa como piada no meu vocabulário. Onde já se viu dono de morro ter que fazer carinho pra manter mulher na linha? Se eu dou o mundo pra ela, se eu dou a proteção do meu fuzil, o que mais essa mulher quer? Passei a mão na nuca, sentindo o suor frio. Eu não sou homem de sentimentos, sou homem de resultados. Mas a provocação do Douglas martelava. Será que ela tá mesmo engolindo brasa? Ontem no camarote ela tava muda, estática, mas eu achei que era só a postura de dama que eu mesmo exigi. Eu tratei ela como trato tudo que é meu: com o punho fechado. — Carinho o caralho... — resmunguei baixo, dando um murro na mesa que fez a cinza do baseado voar. Puxei o rádio na cintura e apertei o botão, a voz saindo mais grave que o normal, destilando a neurose que o primo plantou. — Caçador na escuta? — perguntei, esperando o chiado de resposta. — Na escuta, Patrão. — A voz do Renan veio seca, sem emoção, do jeito que eu gosto. — Já buscou a patroa na mansão? Tá onde agora? — Saindo da garagem agora, Patrão. A senhora Samira tá no banco de trás. Algum informe novo? Eu dei uma pausa, olhando pro nada. A vontade era de mandar ele voltar, de eu mesmo ir lá e marcar meu território de novo, mas o comando não para por causa de insegurança. — Informe é o seguinte: Olho no lance. Se ela reclamar de alguma coisa, se ela quiser parar em algum lugar que não tava no plano, tu me avisa. E ó... se algum engraçadinho chegar perto, não precisa nem perguntar. Já sabe o procedimento. Tu é os meus olhos, Caçador. Não vacila. — Entendido, Patrão. Missão dada é missão cumprida. Sem falha. Desliguei o rádio e me joguei na poltrona. "Tratar com carinho". O Douglas não sabe de nada. No Turano, o carinho que eu dou é o ouro que ela carrega no pescoço. Se ela quiser amor, que procure nas joias que ela vai comprar hoje. Mas o veneno da dúvida já tava correndo. Eu confio no Caçador, mas depois do que o Douglas falou, comecei a pensar que até o melhor soldado pode se perder se a carne for muito fraca. O silêncio na salinha da boca era pesado, cortado apenas pelo barulho das máquinas de contar dinheiro lá fora e pelo chiado constante dos radinhos. Eu tava ali, fritando na neurose, as palavras do Douglas martelando a minha mente igual batida de pistão. "Carinho". Que p***a de carinho? Eu sou o Imperador, c*****o! Eu não dou carinho, eu dou ordens, eu dou proteção, eu dou a vida de luxo que nenhuma dessas piranhas do asfalto sonha em ter. A porta rangeu devagar e o cheiro de perfume doce e barato invadiu o ambiente antes mesmo dela aparecer. Era a Raíssa, uma das minas mais rodadas aqui do morro, mas que sempre teve passe livre na minha mão porque sabe como aliviar a tensão do chefe sem fazer pergunta difícil. Ela entrou rebolando, naquele shortinho jeans que não escondia nem os pensamentos e um top que deixava tudo à mostra. Ela veio caminhando na minha direção com aquele olhar de quem sabe que o bicho tá acuado. Sem dizer uma palavra, ela se ajoelhou entre as minhas pernas, as unhas compridas e pintadas de vermelho deslizando pela minha bermuda, tateando o volume da minha pistola de ouro e o que tava por baixo dela. A mão dela era quente, experiente, e começou a massagear o meu p*u por cima do tecido, tentando arrancar de mim aquela agressividade que tava transbordando. — Tu tá muito tenso hoje, Augusto... — ela sussurrou, a voz manhosa, subindo o olhar pra me encarar. — Deixa a Raíssa cuidar de você, deixa eu tirar esse peso das tuas costas. Eu fechei os olhos por um segundo, sentindo o toque dela, mas a imagem que veio na minha cabeça não foi a dela. Foi a da Samira. Vi o rosto dela ontem no baile, aquele olhar de quem tava morrendo por dentro enquanto eu me exibia pras outras. Vi o jeito que ela deitou na cama depois que eu usei o corpo dela sem perguntar se ela queria. As palavras do Douglas voltaram com tudo: "Cuidado pra não perder seu patrimônio... do jeito que vai, será que ela aguenta?" Um ódio súbito, uma repulsa que eu nunca tinha sentido, me subiu pela garganta. A mão da Raíssa no meu p*u agora parecia suja, parecia errada. Eu não queria carne barata, eu não queria alívio de quem se vende por um pino de pó ou um malote de grana. Aquilo ali era lixo perto da joia que eu tinha em casa e que eu tava tratando como lixo. Puxei a Raíssa pelo braço com uma força bruta, fazendo ela dar um grito de susto. Levantei da poltrona de uma vez, quase virando a mesa com o uísque e espalhando cinza de baseado pra todo lado. — Sai da minha frente, Raíssa! — rosnei, a voz saindo como um trovão que fez até os vapores lá fora darem um pulo. — Vaza daqui agora antes que eu perca a paciência e te jogue ladeira abaixo! — Qual foi, Patrão? O que eu fiz de errado? — ela gaguejou, assustada, tentando ajeitar o top e recuperar o equilíbrio. — Tu não fez nada, p***a! Só some da minha vista! Não quero raba hoje, não quero nada que venha de ti! — Gritei, apontando o dedo pra porta com uma fúria que eu nem sabia de onde vinha. Ela não esperou a segunda ordem. Pegou a bolsa e saiu correndo, sem olhar pra trás, com medo de levar um tiro por puro capricho meu. Eu fiquei ali, ofegante, o peito subindo e descendo, sentindo o suor frio escorrer pelas costas. Caminhei até a janela da salinha, olhando o movimento da boca, os moleques de fuzil, o império de sangue que eu construí. Pela primeira vez, a dúvida bateu forte, doendo mais que tiro de raspão. Será que o Douglas tá certo? Será que tratar a Samira como um "patrimônio" sem vida tá abrindo a porta pra eu perder a única mulher que realmente fecha comigo no 10 a 10? O medo dela não tava mais me dando prazer, tava me dando náusea. A ideia de outro cara o Caçador, ou qualquer playboy de shopping dando pra ela o carinho que eu n**o, fez meu sangue ferver de um jeito que nenhuma invasão de facção vizinha nunca fez. Peguei o rádio de novo, o dedo em cima do botão de chamada. A neurose tava me consumindo vivo. Eu precisava saber se ela ainda era minha, se o castelo ainda tava de pé. — Caçador... — chamei, a voz saindo baixa, carregada de uma insegurança que o Imperador nunca poderia demonstrar. — Me dá o informe da posição. Agora. Quero saber se a patroa tá bem. Fiquei ali, segurando o rádio, esperando o chiado da resposta. O morro tava tranquilo, o lucro tava alto, mas dentro de mim a guerra tava só começando. O carinho que o Douglas falou... talvez fosse a única arma que eu ainda não sabia usar, e o tempo tava correndo contra o meu fuzil de ouro.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD