capitulo 10

1001 Words
O Douglas abaixou a cabeça, dando aquele sorriso amarelo de quem sabe que cruzou a linha da disciplina, mas o veneno dele já tava espalhado no ar daquela sala mofada. No crime, a inveja de família é a que mais dói, a que mais trai, e eu já tava anotando a placa dele mentalmente, pronto pra cobrar o preço se ele continuasse querendo ser o dono da visão. — Mas ó, fica na tua disciplina e foca na contagem dessa carga aí, que o tempo tá passando e o lucro não espera. Se faltar um pino, se a conta não fechar, quem vai prestar conta com o tribunal sou eu e tu não vai gostar de ver o "primo" virar o Imperador c***l que não perdoa erro. O Caçador cuida da minha mulher, e eu cuido de quem acha que pode dar palpite na minha gestão ou na minha vida pessoal. Entendeu a visão ou quer que eu te mostre o peso da minha confiança com o cano da peça na tua testa pra tu não esquecer nunca mais? O Douglas deu um passo pro lado, limpando a fumaça do rosto com as mãos, mas o desgraçado é persistente, não se deu por vencido. Ele tem essa mania irritante de achar que o sangue que corre nas veias dele dá o direito de ser abusado, de querer ser o conselheiro real. Ele encostou no batente da porta, cruzou os braços tatuados e me encarou com aquele ar de quem sabe de algo que eu tô ignorando por pura soberba de rei. — Só vou te dar um conselho de quem te viu crescer, Augusto. Cuidado pra não perder o teu, como você diz, "patrimônio" por falta de visão. Pelo jeito que a carruagem tá andando, o bagulho tá ficando doido e a corda tá esticada. Eu tava lá ontem, vi tu se esfregando nas minas no camarote, gastando a onda com as piranhas de asfalto enquanto a tua mulher tava ali do lado, no canto, com aquela cara de quem tava engolindo brasa pra não explodir na frente de geral. Tu acha que ela vai aguentar muito tempo esse pique? Tu gosta dela de verdade, Imperador? Ou ela é só mais um objeto que tu exibe pra inflar o teu ego? — O Douglas soltou a pergunta como se fosse uma granada sem pino jogada no meio da sala, esperando pra ver se eu ia explodir ou se eu ia amarelar. Eu senti o sangue subir pra cabeça, fervendo na veia, mas mantive a calma de quem dita o ritmo da favela inteira. Puxei o ar devagar, saboreando o resto do baseado, e olhei pra ele com uma frieza que faria qualquer vapor de contenção tremer as pernas e pedir pra sair. — Gostar? Que papo de o****o é esse, Douglas? Tu tá lendo muito livro de romance ou vendo muita novela das oito, p***a. — Amassei a ponta do baseado no cinzeiro de cristal com uma força desnecessária, quebrando a ponta do fumo. — A Samira é a minha mulher. Ponto final. Eu tirei ela da lama do asfalto, dei o luxo que ela nunca sonhou ter, dei o meu nome que abre porta em qualquer lugar e dei o respeito que ninguém ousava dar pra ela. Se eu me esfrego em p*****a no baile, é porque eu posso, porque eu sou o Imperador do Turano, c*****o! O que eu faço na pista, na curtição, não muda em nada o que ela representa dentro da minha mansão e perante o comando. Mulher de bandido tem que ser de aço, tem que saber o lugar dela e entender que o rei precisa de distração pra não perder a linha na guerra e não descarregar o ódio em quem não deve. Levantei da poltrona de couro com calma, crescendo pra cima dele como uma sombra que engole a luz. O Douglas é alto, mas perto da minha presença, ele sempre parece pequeno, um subordinado que esqueceu o lugar dele. — Ela vai aguentar o que eu mandar ela aguentar. E vai agradecer de joelhos no final. Porque fora daqui, sem a minha proteção, sem o meu dinheiro e sem o terror que o meu nome causa, ela volta a ser só mais uma manicure de bosta querendo ganhar a vida lixando unha de madame no asfalto. Ela gosta do poder, gosta do ouro que eu coloco no pescoço dela e gosta da segurança que esse fuzil aqui garante pra ela dormir tranquila. E se eu gosto dela? Eu gosto do que ela representa. Gosto de saber que a mulher mais braba e desejada do Rio de Janeiro se ajoelha pra mim toda noite e me chama de dono. Isso pra mim é mais que amor, é domínio. E domínio, primo, é a única coisa que mantém esse morro sob o meu pé e a paz reinando no Turano. Apontei o dedo grosso pro peito dele, sentindo a raiva latejar na ponta da minha bota. — Não confunde as coisas. A Samira sabe quem manda na p***a toda. Ela é fiel porque ela é inteligente, sabe onde o lado dela é melhor servido, e não porque ela é carente de atenção. E o Caçador? O cara tá lá pra garantir que ninguém, absolutamente ninguém, encoste na minha propriedade. Se tu tá tão preocupado com o meu "patrimônio", começa a se preocupar com o teu próprio pescoço, que tá ficando muito esticado pro meu gosto ultimamente. Agora vaza daqui, volta pra contagem e termina o teu serviço antes que eu resolva te dar um conselho de volta, mas o meu conselho vem em calibre .40, direto na ideia, pra tu não ter tempo de pensar. O Douglas levantou as mãos em sinal de paz, recuando um passo, mas aquele sorrisinho de lado, aquela ponta de deboche, não saiu da cara dele. Ele sabe que plantou a dúvida, e sabe que no mundo do crime, a dúvida é o primeiro passo pro gatilho ser puxado.
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