O IMPÉRIO DO MEDO
O Douglas, meu primo de sangue mas com a alma mais suja que valão em dia de chuva, se aproximou de fininho, deslizando pelas sombras da salinha da boca como se tivesse pisando em ovos pra não estalar o chão. Ele é da família, cresceu comigo dividindo a mesma laje, o mesmo pão com ovo e as mesmas fuga da polícia, mas eu sei que o desgraçado tem um olho maior que a barriga e vive naquela sede de querer mostrar que é mais esperto que o próprio dono do morro. Ele é do tipo que espera o momento da vulnerabilidade pra cravar a presa. Esperou o Caçador bater a porta da Land Rover lá fora e o motor v12 roncar na subida da ladeira antes de abrir o bico pra soltar o veneno que já tava entalado na garganta.
— Qual foi, Augusto... Papo reto aqui de primo, de quem fechava contigo desde quando a gente era dois moleque remelento roubando carga de cigarro no asfalto da Tijuca — o Douglas começou, falando baixo, com aquela voz mansa de quem quer te vender a própria mãe por um pino de pó. Ele encostou na mesa de madeira bruta onde eu tava contando os malotes, as notas de cem se empilhando sob o meu olhar. — Mas tu tem certeza absoluta que confia tanto assim nesse tal de Caçador pra deixar o cara colado na Samira 24 horas por dia? O sujeito é elite, não n**o, é o nosso melhor fuzil, o cara que não treme na hora do vamo-ver, mas ele é homem, né, primão? E a Samira... p***a, a Samira é um esculacho de mulher, a morena mais braba que já pisou nesse Turano e em qualquer outro morro do Rio. Colocar um lobo desse, que vive no escuro e no silêncio, pra cuidar da carne mais nobre do teu império não é dar sorte pro azar, não? Tu tá pedindo pra ser traído dentro da própria mansão.
Eu dei uma tragada longa no baseado da braba, sentindo o fumo queimar o pulmão até o limite, deixando a nicotina alinhar meus pensamento de guerra antes de soltar aquela fumaça espessa bem na cara dele. Olhei pro Douglas com um desprezo que fez o desgraçado ajeitar o cordão de ouro no pescoço, incomodado, perdendo o rumo do papo. Minha risada saiu seca, curta, carregada daquela arrogância de quem sabe que ninguém nessa p***a tem peito pra me peitar de frente.
— Tu tá querendo dizer o quê, Douglas? Que o meu melhor soldado, o cara que eu mesmo moldei na base da porrada e do treinamento de elite, vai vacilar comigo por causa de raba? — Perguntei, a voz saindo como uma lixa numa chapa de aço, num tom que faz o cara sentir o frio da morte no pescoço. — O Renan é uma máquina, primo. Uma ferramenta de destruição. Eu que dei a direção pra ele, eu que mostrei o que é ser um matador de verdade que não deixa rastro. O Caçador não tem sentimento, não tem emoção, não tem essa fraqueza de carne que tu tem. Não tem nada naquela mente que não seja a lealdade ao comando que eu dei pra ele. Ele sabe que se ele sequer pensar em respirar o mesmo perfume que a Samira com intenção de pecado, eu não apago só ele. Eu apago a linhagem dele desse mundo, apago até o rastro da família dele da face da terra.
Passei a mão na minha pistola de ouro, sentindo o relevo do meu vulgo gravado no metal frio, e fixei o olho no Douglas, deixando claro quem é que manda na hierarquia dessa p***a toda.
— O Caçador não é igual a tu, Douglas, que se emociona com qualquer p*****a de asfalto que sobe o morro rebolando pra ganhar seguidor no i********:. O cara é frio, é gelo puro. Eu coloquei ele ali justamente porque ele é o único que não tem brilho nos olhos quando olha pra beleza dela. Ele olha pra Samira e vê uma missão, vê um patrimônio do chefe que tem que ser entregue intacto no final do turno. Se eu tivesse qualquer dúvida, por menor que fosse, se eu sentisse o rastro de uma intenção errada, o Caçador já tava fazendo companhia pros x9 lá no alto do lixão faz tempo, com a boca cheia de formiga. Eu conheço meus bichos, Douglas. E eu sei quem eu treino pra morder e quem eu treino pra vigiar o que é meu.