Capítulo 8 imperador

1838 Words
O IMPÉRIO DO MEDO O despertador do meu celular tava no silencioso, mas quem me acorda não é tecnologia de o****o, é o peso do poder que faz a minha mente trabalhar em outra frequência. Eu abro o olho antes do sol pensar em apontar no horizonte, porque quem dorme muito no Turano acorda com a boca cheia de formiga. O rádio chiando na cintura dos vapores lá embaixo, o barulho do primeiro foguete anunciando que a mercadoria chegou e o som da favela despertando na atividade já são a minha trilha sonora oficial. Rolei pro lado e a Samira ainda tava lá, apagada, envolta naquele lençol de mil fios que ainda cheirava ao suor da nossa guerra de ontem à noite. Eu não dou beijo de bom dia, não sou moleque de condomínio pra ficar perdendo tempo com carinho de novela e juras de amor. Minha vida é feita de decisões que custam vidas, então levantei com o corpo ainda quente, joguei a cueca de lado e fui pro banheiro lavar a cara com água gelada, pronto pra mais um dia de ditadura absoluta. Me vesti com o pique de quem sabe que é o centro do universo. Meti uma bermuda de marca, daquelas que o tecido brilha, uma regata preta que destaca os risco da tatuagem no braço e faz os músculos parecerem pedra, e o meu cordão de ouro um bagulho grosso, pesado, que vale mais que a casa de muita gente que rala o mês inteiro. Enfiei a pistola de ouro no cós, ajustei o fuzil na mão, sentindo o frio do metal me dar o conforto que eu preciso, e saí pro corredor com o passo de quem é dono do chão que pisa. Lá embaixo, na cozinha, o cheiro de café forte já tava dominando tudo. A Juju, uma novinha nova que o gerente da pista trouxe pra mansão pra ajudar nos serviço, tava ajeitando a mesa. Ela tava de costas, toda distraída, e quando eu cheguei com o meu rastro de autoridade, o meu perfume bateu nela antes da minha voz. Ela tomou um susto tão grande que quase derrubou a xícara de porcelana, o que pra mim é sinal de respeito. Eu gosto de sentir o medo no ar, é como se fosse o meu oxigênio. Ver a mão da menina tremendo é o que me faz lembrar que aqui no morro, a lei sou eu. — Visão, Patrão... Desculpa o susto. — ela falou, gaguejando, com a cabeça baixa, sem coragem de sustentar o meu olhar de gelo. — Esquece a educação de escola, novinha. — respondi, a voz saindo grossa, rouca de sono e de fumaça. Passei por trás dela, sentindo o cheiro da nuca da menina, uma mistura de sabonete barato com o suor do medo que ela tava tentando esconder. — A mesa tá no capricho, gostei do serviço. Mas tu tem cara de que é esperta, Juju. Sabe muito bem o que acontece com quem vacila, com quem abre o bico ou com quem olha pro lado errado aqui dentro, né? Ela ficou muda, tremendo igual vara verde, sentindo a pressão do meu corpo perto do dela. Eu sentei na cabeceira da mesa, que é o meu lugar por direito divino e de guerra, e peguei o café. Olhei pra ela de cima a baixo, vendo cada curva daquele corpo de menina por baixo do uniforme, mapeando o que eu ia tomar pra mim quando o tédio batesse. A Samira lá em cima é a rainha, a joia da vitrine que eu exibo pros aliados, mas o Imperador aqui não se contenta com um prato só na mesa. Essa novinha ia ser o meu próximo petisco, e ela nem precisava aceitar, só precisava obedecer. — Fica esperta, Juju. — falei, com um sorriso de canto que ela não teve peito pra olhar. — O Imperador vê tudo, até o que tu pensa quando tá sozinha. Se tu for caprichosa, souber guardar segredo e souber como agradar o rei, a vida aqui vai ser de dondoca. Se tu for de vacilação, se der linha pra fofoca... aí o bagulho vai ficar doido pro teu lado e pro lado de quem te trouxe. Saí dali deixando o clima mais pesado que chumbo. O Caçador me esperava na porta da garagem, encostado na parede, com aquele olhar de predador que às vezes me intriga, mas que eu sei que é só o reflexo do meu próprio poder. O Renan é uma máquina, um robô de matar que eu mesmo moldei. Entrei na Land Rover blindada, o couro do banco ainda gelado, ajustei a postura e dei o papo pro motorista. A boca de fumo principal tava chamando, tinha uns x9 pra tirar do mapa pra servir de exemplo e o arrego da polícia pra conferir na ponta do lápis. O Turano não para, o império não dorme, e eu sou o único responsável por manter a chapa quente, o fuzil carregado e o bolso cheio de nota azul. A nave blindada cortou o asfalto do Turano rasgando o silêncio da manhã, fazendo os radinhos chiarem na cintura da molecada em cada esquina, avisando que o Homem tava descendo. Eu vinha no banco de trás, de perna aberta, sentindo o peso do meu fuzil de ouro no colo e a mente fritando no ódio de quem tem que sustentar esse império nas costas sozinho. O Caçador tava ali na frente, mudo, estático, com aquela cara de quem não sente pena nem do próprio reflexo. Gosto desse pique dele, o cara é cirúrgico, é o tipo de sombra que eu preciso pra manter a ordem quando eu não tô por perto pra dar o grito. Chegamos na boca principal, o coração da minha economia suja, onde o dinheiro não para de entrar e a droga não para de sair. Assim que eu botei o pé pra fora do carro, o clima ficou gélido, o barulho da favela parece que baixou uns dez decibéis. Vapor que tava de resenha calou a boca na hora, gerente veio correndo com a pasta debaixo do braço suando frio e os soldados bateram no peito em sinal de respeito máximo. Eu não sou de dar "bom dia", eu sou de dar a direção da morte ou da vida. Entrei pra salinha dos fundos, aquela que cheira a mofo, a nota de cem e a medo acumulado. Joguei o fuzil em cima da mesa de madeira bruta, puxei um baseado da braba e acendi, soltando a fumaça pro alto enquanto sentia a nicotina dar aquele soco na mente pra alinhar as ideias. Olhei pro Caçador, que tava encostado no portal da porta fazendo a contenção, um fantasma de preto pronto pra agir. Dei um sorriso cínico, de quem sabe que o jogo tá ganho antes mesmo de começar. — Se liga na visão, Caçador... — soltei a voz, saindo carregada por causa da fumaça. — Hoje o papo é reto, sem curva e sem vírgula. A Samira acordou com aquela coceira na mão, querendo descer pro asfalto pra gastar o meu ouro no shopping. Coisa de primeira-dama, tá ligado? Quer ir comprar trapo caro, bolsa de luxo e essas merdas que mulher gosta, só pra desfilar no morro depois e mostrar pra essas piranhas quem é que tem o cartão sem limite e o poder no nome. Ela gosta da ostentação, gosta de ver as outras morrendo de inveja. Dei um gole num copo de uísque puro que o moleque me trouxe o líquido queimou a garganta, me deixando mais aceso e fixei o olho no Renan. O cara não piscava, parecia um sniper esperando o alvo aparecer na mira. — Eu quero você na bota dela, entendeu? Não é pra ficar de longe fazendo média, não. É pra ser a sombra da minha relíquia. Onde ela pisar, tu pisa. Se ela entrar em loja de madame pra provar roupa, tu fica na porta secando qualquer um que ousar respirar o mesmo ar que ela. Se algum playboy de bosta de condomínio olhar atravessado, se algum playboy metido a malandro tentar um desenrolo de asfalto achando que ela é carne de balcão, tu já sabe o procedimento de elite: passa o cerol, apaga o infeliz no silêncio e deixa que o meu jurídico resolve a bucha depois. No meu patrimônio ninguém encosta a digital sem a minha permissão expressa, e tu é o meu cadeado de ferro, Renan. Puxei outra lufada de fumaça, sentindo o poder borbulhar na veia como se fosse veneno. — Eu confio essa missão pra tu porque tu é o meu melhor elemento, o cara que eu sei que não tem sentimento, que não se emociona com carne e que sabe o valor da lealdade ao comando acima de qualquer coisa. A Samira é a minha joia da vitrine, a cara do meu sucesso no Turano. Se ela perder um fio de cabelo que seja, ou se ela der um passo que não esteja no meu radar, é a tua cabeça que vai rolar na ladeira, parceiro. Shopping é lugar de x9, de polícia infiltrada e de gente que não fecha com a gente, então o olho tem que estar no lance 24 horas. Não quero ela conversando com estranho, não quero ela parando pra tirar foto, não quero p***a nenhuma que saia do script. O Caçador só deu um toque seco na aba do boné, aquele sinal de "missão dada é missão cumprida" que ele faz como ninguém. Eu dei uma risada de canto, sentindo o prazer absoluto de mandar em tudo e em todos. — Vai lá, busca a patroa na mansão e faz o teu serviço com o rigor que eu te ensinei. Se ela tossir diferente, se ela olhar pra um lado que eu não autorizei, eu quero o informe no radinho na hora, sem atraso. No Turano o sol só brilha pra mim, e a lua só sai se eu der a ordem. Entendeu o papo ou quer que eu desenhe com o cano da peça na tua testa pra tu não esquecer? O Renan não falou nada, só girou nos calcanhares com a frieza de sempre e saiu pro carro. Eu fiquei ali, sozinho com a minha fumaça, olhando pra pilha de notas de cem que os gerentes tavam arrumando. A Samira podia até ir pro shopping se sentir livre, gastar a minha grana e achar que tá no comando, mas ela nunca ia esquecer que, onde quer que ela fosse, o hálito do Imperador tava no pescoço dela através do Caçador. O império é meu, a mulher é minha, e o medo é a única coisa que mantém essa engrenagem de poder girando sem travar. O dia ia ser longo, e eu tava pronto pra cobrar o preço de sangue de quem ousasse cruzar o meu caminho ou olhar torto pro que eu chamo de meu. Aqui no Turano, a regra é clara: o rei manda, e quem não obedece, vira história contada em velório.
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