A mansão estava iluminada como sempre, mas havia algo errado no ar quando o carro atravessou os portões. Não era calma. Era contenção. Os seguranças falaram baixo entre si, rápidos demais, e quando a porta se abriu eu ainda estava a tentar organizar o corpo, o cabelo desalinhado, o vestido amarrotado, a adrenalina a vibrar-me nas mãos.
Matteo já estava à porta.
Não entrou em pânico.
Não correu.
Ficou imóvel, os ombros rígidos, os olhos a percorrerem-me com precisão clínica. Demorou-se demasiado no rasgão discreto do vestido, na marca arroxeada no meu pulso, no modo como eu respirava alto demais. O maxilar contraiu-se. Uma vez. Duas.
— O que aconteceu — perguntou.
Não foi preocupação.
Foi comando.
Antes que eu respondesse, virou-se para os seguranças.
— Explique.
Eles falaram por cima uns dos outros, rápido, técnico, profissional. Emboscada. Tentativa de abordagem. Dois homens. Armas brancas. Neutralizados. Sirenes ao longe. Retirada imediata.
Matteo não os interrompeu até ao fim.
Depois explodiu.
— Vocês tinham ordens claras — disse, a voz baixa e cortante. — Distância, rotas variáveis, sem paragens.
— Don, a decisão foi tática —
— Não me interessa — cortou. — Ela volta a entrar num carro hoje por milagre. E vocês chamam isso de decisão tática.
O silêncio caiu pesado.
Eu passei por ele sem pedir licença.
— Já chega.
Ele virou-se de imediato.
— Suba — disse.
— Não agora.
Os olhos dele estreitaram-se.
— Suba, Ivy.
Ignorei-o e continuei a andar. Só quando cheguei ao fundo do corredor senti a presença dele atrás de mim, a energia densa, agressiva, m*l contida.
No quarto, fechei a porta com força e encostei-me a ela por um segundo, as pernas a tremerem. Só então o peso do que tinha acontecido caiu de verdade. Podia ter sido levada. Podia ter desaparecido.
Tirei a roupa com gestos bruscos e entrei no banho sem pensar. A água quente bateu-me nos ombros como um impacto físico, mas não acalmou nada. Quando saí, envolvi-me no roupão e fiquei ali, parada, o coração ainda acelerado.
A porta abriu.
Não bateu.
Matteo entrou como se aquele espaço também fosse dele.
O olhar encontrou-me de imediato. Desceu. Subiu. Parou no meu rosto.
Havia algo diferente agora.
Não era apenas controlo.
Era nervosismo.
— Tentaram matar-me — disse eu, antes que ele falasse.
Ele fechou a porta atrás de si com um gesto seco.
— Não.
— Tentaram raptar-me. O resultado seria o mesmo.
— Ninguém lhe vai fazer m*l — disse ele, avançando um passo.
— Já fizeram — respondi. — Porque o senhor decidiu que eu devia sentar-me àquela mesa. Porque decidiu que eu devia aparecer ao seu lado como se fosse uma bandeira.
— Eu protejo o que é meu.
— Eu não sou sua esposa — disparei. — Então por que me manda almoçar com as mulheres deles. Por que me expõe. Por que me põe no meio de guerras que não são minhas.
Ele parou a poucos centímetros de mim.
O calor do corpo dele atravessava o roupão.
— Porque manda em você.
As palavras bateram-me como um estalo.
— Não manda — respondi, mas a voz falhou no fim.
Ele inclinou ligeiramente a cabeça, os olhos escuros a percorrerem-me sem pudor.
— O seu corpo discorda.
— Tire a mão de mim — disse, quando senti os dedos dele tocarem o meu braço.
Ele não tirou.
Dois dedos apenas. Firmes. Controlados.
Um arrepio traiçoeiro atravessou-me inteira.
O canto da boca dele ergueu-se.
— Vê.
— Não use isso contra mim.
— Então não me provoque.
— Eu não provoquei ninguém — atirei. — Eu sobrevivi. E por causa disso alguém decidiu que eu era descartável.
Ele aproximou-se mais um centímetro.
— Você não é descartável.
— Para eles sou. E para si sou o quê, Matteo.
O nome saiu devagar.
Algo mudou.
Vi o instante exato em que a contenção dele cedeu um grau. Não perdeu o controlo. Escolheu largar parte dele.
— Não jogue esse jogo comigo.
— Que jogo — desafiei. — O de fingir que não me quer controlar enquanto me coloca no centro do seu mundo.
A mão dele subiu abrupta, parou a dois centímetros do meu braço.
— Você sabe o que provoca quando fala assim.
— Então afaste-se.
Ele sorriu.
Não foi humor.
Foi perigo.
— Está a testar limites.
— Alguém tem de o fazer.
Os dedos deslizaram pelo meu braço, lentos, marcando território invisível. O corpo respondeu antes de mim. Ele percebeu. Riu-se baixo.
— O seu corpo percebe antes da sua cabeça.
— Eu não sou um objeto.
— Não — disse ele, aproximando-se até quase tocar o meu rosto. — É minha.
— Ninguém me possui.
— Ainda não.
O silêncio tornou-se insuportável.
Respirações misturadas.
Raiva, medo, desejo.
Ele perdeu o último fio de contenção.
E beijou-me.
Não foi suave.
Foi urgente. Dominante. Carregado de tudo o que tinha sido reprimido desde o carro, desde a festa, desde o quase.
A boca dele tomou a minha como uma afirmação brutal de posse, a mão firme na minha nuca, o corpo colado ao meu sem pedir permissão. Senti-o inteiro, tenso, vivo, perigosamente presente.
Quando me afastei para respirar, ele não me largou.
— Ninguém — disse, a voz rouca — vai tocar em você.
A testa encostou-se à minha.
— Porque você é minha.
E naquele momento, entre raiva, medo e desejo, percebi que o verdadeiro perigo não tinha sido a emboscada.
Era isto.
Ele afastou-se apenas o suficiente para me olhar de frente, como se precisasse confirmar que eu ainda estava ali, inteira, a respirar. A mão não saiu da minha nuca. Não era carinho. Era ancoragem. O peito dele subia e descia num ritmo irregular, a raiva ainda viva sob a pele, misturada com algo mais perigoso.
— Não volte a duvidar disso — disse, baixo. — Nem de mim. Nem do que eu faço para a manter viva.
Quis responder. Tinha mil palavras afiadas na ponta da língua. Mas nenhuma saiu. O corpo ainda estava demasiado consciente do dele, do calor, da pressão invisível que ele exercia mesmo parado.
Matteo recuou um passo, finalmente, como quem se força a recuperar controlo.
— Descanse — ordenou. — Amanhã falamos.
E saiu.
A porta fechou-se atrás dele com um clique seco.
Fiquei sozinha no quarto, o coração descompassado, a boca ainda a arder do beijo, com a certeza inquietante de que nada naquela casa voltaria a ser simples. Nem seguro. Nem neutro.
E, pela primeira vez, percebi que sobreviver ali ia exigir mais do que obediência. Ia exigir guerra.