Capítulo 18

1207 Words
Depois de tudo o que tinha acontecido, o sono não veio. O corpo estava exausto, pesado, mas a mente mantinha-se desperta, presa a imagens soltas, a vozes, a momentos que se repetiam sem ordem. Cada vez que fechava os olhos, sentia de novo a tensão da noite, o perigo que quase me tocou, a sensação constante de estar à mercê de decisões que não eram minhas. O quarto parecia grande demais, silencioso demais, e o ar tornou-se denso, difícil de respirar. Ao fim de algum tempo a revirar-me na cama, levantei-me devagar, calcei nada nos pés e saí para o corredor às escuras. Precisava de água. Precisava de frio. Precisava de algo simples e real para me ancorar ao presente, nem que fosse apenas o copo gelado entre as mãos na cozinha. Eu já estava na cozinha quando Matteo apareceu. O espaço estava quase às escuras, iluminado apenas pela luz fria da lua que entrava pela janela acima da pia. O mármore claro refletia um brilho pálido, limpo demais. Eu estava sentada num dos bancos altos, um copo de água entre as mãos, sentindo o frio do vidro contra a pele ainda cansada da viagem. O silêncio ali não era vazio. Tinha peso. O som baixo do frigorífico. A minha respiração. A dele, quando entrou, sem anunciar presença. Ele não falou. Sentou-se à minha frente, do outro lado da ilha, como se aquele fosse um gesto normal. Como se não houvesse tensão acumulada entre nós. Como se o conforto não fosse, por si só, uma ameaça. Ficámos assim por alguns minutos. Eu observava a água no meu copo. Ele observava o dele. Nenhum de nós precisava olhar para saber que o outro estava ali. Conforto. A palavra surgiu na minha cabeça e eu soube imediatamente que era perigosa. Havia qualquer coisa de ligeiramente fora do lugar na maneira como ele se levantou. Não hesitação... algo mais sutil. Mais perigoso. Um desvio mínimo do controlo habitual. De repente, o peso dele deixou o banco em frente a mim. Matteo contornou a ilha sem ruído, parando tão perto que me obrigou a inclinar o queixo para vê-lo. O cheiro dele preencheu o espaço entre nós. Limpo. Quente. Familiar de uma forma que eu não queria reconhecer. Ele não explicou nada. Ergueu a mão e tocou-me com um único dedo sob o maxilar. O toque era leve. Quase impessoal. Ainda assim, a ordem estava lá. Silenciosa. A boca dele tomou a minha com uma intensidade imediata, quase brutal, que arrancou o ar dos meus pulmões. Não houve construção lenta, nem exploração suave. Foi um beijo faminto, desesperado, como se ele estivesse tentando me consumir inteira. Uma das mãos fechou-se no meu cabelo, mantendo-me presa, enquanto a outra deslizava pela minha coluna, pressionando meu corpo contra o plano duro e inflexível do dele. Minhas próprias mãos subiram para agarrar os ombros dele, não para afastá-lo, mas para ter apoio. Ele me guiou para trás, passo a passo deliberado, até que a parte de trás das minhas pernas encontrou a borda da pesada mesa de madeira. Os movimentos dele eram controlados, precisos, mas a urgência no jeito como ele me beijava, a força contida no aperto do meu cabelo, traíam uma energia frenética fervendo logo abaixo da superfície. Ele se afastou por uma fração de segundo, apenas o suficiente para me erguer e me colocar sobre a mesa. A madeira polida estava fria contra a parte de trás das minhas coxas. Então ele estava sobre mim outra vez, o corpo dele um peso denso e devorador. O tecido do meu vestido se acumulou nos punhos dele. Ouvi uma costura esticar, ceder. O ar frio atingiu minha pele, um choque súbito que me fez arfar contra a boca dele. Ele usou a alavanca para me puxar mais para perto, minhas pernas se fechando instintivamente ao redor da cintura dele. As mãos dele estavam por toda parte, mapeando meu corpo com um toque possessivo que era ao mesmo tempo irritante e eletrizante. Não havia delicadeza, apenas uma necessidade crua e insistente. Ele entrou em mim com um único impulso profundo que arrancou o fôlego dos meus pulmões. Era o mesmo ritmo possessivo que ele sempre usava, um compasso controlado, quase punitivo, feito para dominar. Mas havia algo diferente naquela noite. Talvez fosse a i********e silenciosa da cozinha ou a calma inesperada que antecedera tudo aquilo. Um som escapou da minha garganta, um gemido cru, sem contenção, que eu não pretendia soltar. Foi uma rendição, não da vontade, mas das paredes cuidadosamente erguidas em torno das minhas respostas. Minhas mãos deslizaram dos ombros dele para se enroscar no cabelo na nuca, puxando-o para mais perto, meu corpo arqueando para encontrar os movimentos dele com um abandono que eu nunca tinha permitido antes. O ritmo dele falhou. Por um instante mínimo, a precisão mecânica se quebrou, substituída por algo mais caótico, mais urgente. Ele enterrou o rosto na curva do meu pescoço, a respiração quente e irregular contra a minha pele. O som dos nossos corpos, o choque frenético de pele contra pele, preencheu a cozinha silenciosa. A tensão se enroscou no meu ventre, apertada e quente, e então se rompeu. Uma onda de prazer, cegante e absoluta, me atravessou. Eu gritei, um som inesperado arrancado do meu peito. Meu corpo inteiro convulsionou, apertando-se ao redor dele, meus dedos cravando-se no cabelo dele. E, naquele exato momento do meu auge, ele congelou. Uma imobilidade completa, de corpo inteiro, mais chocante do que qualquer movimento anterior. Todo o corpo dele ficou rígido acima de mim. Então, tão baixo que por um instante achei que tivesse imaginado, ele murmurou meu nome junto ao meu pescoço. —Ivy. Não foi uma ordem nem uma maldição. Foi apenas o meu nome. Dito com uma surpresa silenciosa, quase reverente, como se o som fosse estranho na língua dele. Havia ali uma pergunta que ele não pretendia fazer, uma admissão que não tinha a intenção de conceder. Naquela única palavra, a dinâmica cuidadosamente construída entre nós se quebrou. Foi o gesto mais íntimo que ele já teve comigo. O silêncio que se seguiu foi mais pesado, mais profundo do que o de antes. Ele se afastou primeiro, erguendo-se e saindo de cima de mim num único movimento fluido. Não houve explicação. Só o agora, cru, presente. A atmosfera mudou instantaneamente. O ar carregado esfriou, tornou-se denso de implicações não ditas. O conforto que tinha permitido aquele momento acontecer, a quietude quase doméstica da cozinha, agora parecia uma ameaça. Ele virou as costas para mim, passando a mão pelo cabelo desalinhado, os ombros formando uma linha tensa. Não olhou para mim. Não conseguia. Sentei-me devagar, o corpo ainda vibrando, o vestido arruinado ao redor dos meus quadris. A madeira fria da mesa contrastava brutalmente com o calor que ainda permanecia na minha pele. Observei-o, a rigidez da coluna dele. Naquele breve instante desprotegido, quando ele sussurrou meu nome, eu não tinha apenas perdido o controle do meu corpo. Eu tinha visto ele perder o controle do dele. E ele sabia que eu tinha visto. O silêncio confortável tinha desaparecido, substituído por outra coisa. Algo frágil e perigoso. Ele também sentira a mudança. E já estava reconstruindo os muros, tijolo invisível por tijolo invisível.
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