Ele não se afastou.
Depois de dizer que o que lhe interessava era o que sobrava depois do descarte, Matteo manteve-se ali, sólido, imóvel, como se aquele espaço à minha frente lhe pertencesse por direito e não houvesse qualquer necessidade de o devolver.
Eu ainda estava a tentar reorganizar a respiração.
O corpo atrasado em relação à mente.
A pele demasiado consciente.
A sensação desconfortável de estar exposta de uma forma que nunca tinha estado, nem mesmo durante os cinco anos em que fui esposa.
O silêncio alongou-se apenas o suficiente para se tornar uma pressão física, como se ele estivesse à espera de que eu dissesse alguma coisa errada, algo que o autorizasse a avançar mais um passo. Não disse nada. O meu corpo, no entanto, denunciava-me. A respiração irregular, o peso deslocado de uma perna para a outra, a atenção demasiado focada nele.
Matteo inclinou ligeiramente a cabeça, observando-me com atenção clínica.
— Você não serve como mulher — disse, de forma direta.
Não elevou a voz.
Não dramatizou.
Disse como quem constata um facto.
O impacto foi imediato.
A frase não doeu apenas pelo conteúdo, mas pela forma como foi dita, sem raiva, sem desprezo visível, como se eu fosse um objeto m*l classificado, algo que simplesmente não cumpria a função para a qual tinha sido destinado.
— Perdeu todo o seu poder — continuou. — Primeiro com o seu marido. Depois com a exposição.
Senti o estômago afundar.
— Toda a gente sabe — acrescentou, aproximando-se um passo. — Sabe que não deu um herdeiro. Sabe porquê.
O nome não precisou ser dito.
Infértil.
A palavra ecoou na minha cabeça como um selo, uma marca social que eu não podia apagar. Vi-a refletida no olhar dele, não como pena, mas como dado. Um facto utilizável.
— Nenhum homem vai querer você agora — disse, sem pressa, o olhar preso ao meu como se estivesse a medir cada reação. — Não depois disto.
A humilhação veio quente, sufocante, misturada com uma raiva impotente que me fez cerrar os dentes.
— Você é um risco — continuou. — Uma mulher descartada. Falhada. Sem utilidade social.
Engoli em seco.
O corpo, traidor, não concordava com aquela leitura.
E isso confundia-me ainda mais.
Eu sabia que devia recuar, quebrar o contacto visual, proteger-me. Em vez disso, fiquei. Parada. Como se alguma parte de mim estivesse à espera do próximo golpe. Ou do próximo toque. A constatação fez-me estremecer por dentro.
— Mas — acrescentou ele, e houve algo naquele tom que me fez prender a respiração — ainda tem algum uso.
A frase ficou suspensa.
O meu coração acelerou, não de esperança, mas de alerta. Uso significava posse. Função. Um papel que não tinha escolhido.
Matteo aproximou-se o suficiente para invadir de novo o meu espaço e, com a ponta dos dedos, passou lentamente a mão pelo meu braço, do cotovelo até ao pulso, um toque deliberadamente leve, quase distraído.
O arrepio foi imediato.
Violento.
Incontrolável.
A pele acendeu-se sob aquele contacto mínimo, a respiração falhou por um segundo, e um calor errado espalhou-se pelo meu corpo, rápido demais para ser negado.
O choque não foi o toque em si, mas a resposta do meu corpo, aquela entrega involuntária, aquela memória muscular que nunca tinha existido com o meu marido. Nunca. Nem uma vez em cinco anos.
Ele viu.
O canto da boca de Matteo curvou-se num sorriso pequeno, predador, satisfeito, como se tivesse acabado de confirmar uma hipótese.
— O seu corpo não esqueceu o que é ser mulher, mesmo depois de tudo o que perdeu.
Afastou a mão.
A ausência do toque foi quase tão perturbadora quanto a presença.
O braço ficou a arder, a pele demasiado consciente, e tive de fechar os dedos com força para não estender a mão atrás da dele, um impulso tão absurdo que me encheu de vergonha.
— Para o papel que eu quero que assuma — continuou, com calma —, não me interessa se é infértil ou não.
As palavras caíram pesadas, definitivas.
— Eu não preciso de herdeiros — acrescentou. — Preciso de discrição. Disponibilidade. Silêncio quando for necessário.
Cada requisito era dito como uma camada a mais de uma gaiola invisível. Eu conseguia vê-la a formar-se à minha volta, mesmo sem barras.
Deu mais um passo.
— Enquanto for minha amante, será intocável.
Levantei os olhos de imediato.
A palavra amante bateu-me no peito com uma violência inesperada. Não como fantasia, mas como estatuto. Um lugar definido. Um rótulo que o mundo entenderia.
— Ninguém se aproxima — continuou. — Ninguém comenta. Ninguém ousa tocar-lhe sem a minha autorização.
O tom não era de promessa.
Era de regra.
— Terá proteção — disse. — Nome. Presença. Um lugar claro. Não ficará à mercê de olhares ou de favores.
Ele falava e eu odiava o facto de cada frase resolver um medo concreto que eu tinha tentado ignorar nas últimas semanas. O dinheiro. A casa da minha tia. O peso de ser um fardo. Ele sabia. Claro que sabia.
Fez uma pausa curta, calculada.
— E quando o nosso acordo terminar, não a deixarei na mão.
Senti o peito apertar.
— Não sairá sem dinheiro — acrescentou. — Não sairá dependente de um familiar que a vê como um fardo. Não voltará a implorar por um teto ou por silêncio.
A palavra implorar fez-me estremecer. Porque ele não estava a exagerar. Estava a descrever o meu futuro com precisão c***l.
Cada palavra era uma faca precisa.
— Eu cuido do que é meu — concluiu.
O choque misturou-se com uma reação que me fez odiar cada fibra do meu corpo.
— Eu não sou sua — disse, a voz a trair-me.
Matteo inclinou-se ligeiramente, o suficiente para que a presença dele voltasse a esmagar o ar entre nós.
— Ainda não — respondeu. — Mas ninguém mais vai querer.
A proximidade voltou a desorganizar-me. O cheiro dele, discreto, caro, o contraste com o tom brutal das palavras, tudo conspirava para me manter ali, presa entre repulsa e uma atração que eu não reconhecia como legítima.
O silêncio que se seguiu foi denso, pesado, impossível de ignorar.
Ele endireitou-se, recuperando a distância apenas o suficiente para me obrigar a respirar.
Percebi então que aquela distância era concedida, não recuperada. Que ele a controlava como controlava tudo o resto.
— Então, Ivy — disse, finalmente, o olhar fixo no meu, atento demais, paciente demais — qual vai ser a sua resposta?
O corpo ainda ardia onde ele tinha tocado. A mente gritava para fugir. E, no meio do caos, uma pergunta horrível insinuou-se, baixa, traidora: e se aceitar for a única forma de sobreviver?