Capítulo 7

1279 Words
— Quanto tempo? A pergunta saiu antes que eu pudesse reconsiderar, curta e seca, como se falar em duração tornasse aquilo menos real, menos degradante, ainda que o simples facto de a formular já fosse, por si só, uma admissão perigosa. Matteo não respondeu de imediato. Observou-me em silêncio, como se a pergunta confirmasse algo que ele já esperava, algo que eu própria tinha acabado de admitir sem perceber, enquanto o olhar dele me percorria com uma lentidão calculada, sem pudor nem pressa, avaliando não a pergunta em si, mas o corpo que a tinha feito. Houve um segundo em que pensei que ele me faria repetir, que me obrigaria a ouvir a palavra sair da minha boca outra vez, mais fraca, mais exposta, até perder qualquer ilusão de dignidade. — Até eu me cansar do seu corpo. Não do resto. As palavras caíram sem cuidado, sem disfarce, sem rodeios, como uma sentença dita por alguém que não precisava justificar-se. Senti o estômago revirar. O pior não foi ele ter dito aquilo. Foi eu não ter recuado, não ter dado um passo atrás, não ter reunido forças para sair daquele espaço no instante seguinte. Foi o corpo manter-se imóvel, como se aquela resposta tivesse apenas confirmado algo que já estava em marcha dentro de mim, algo que eu vinha evitando nomear. — Isso é… — comecei, mas a frase morreu antes de ganhar forma. Humilhante, redutor, sujo. Tudo isso. E ainda assim, eu estava ali, sem me mover, consciente demais do próprio corpo para fingir indiferença. Abri a boca para dizer alguma coisa, qualquer coisa que quebrasse aquele momento, mas nenhuma palavra conseguiu atravessar o nó que se formara na minha garganta. Ele não reagiu. Não comentou. Não corrigiu. Limitou-se a ficar a olhar para mim, com uma atenção silenciosa e implacável, como se a minha permanência naquele espaço fosse resposta suficiente para tudo o que eu ainda não tinha coragem de admitir. O nojo maior não era dele. Era de mim mesma. De estar ali, imóvel. De não me afastar. De precisar de uma explicação que, no fundo, não mudaria nada. Matteo afastou-se então sem aviso e foi até ao bar, quebrando a pressão apenas o suficiente para me lembrar de respirar, embora o ar parecesse mais pesado a cada segundo. Pegou numa garrafa de whisky, serviu-se sem medir e levou o copo à boca num gesto direto e rude, sem qualquer preocupação com elegância. Houve algo naquele movimento, masculino, descuidado, absolutamente seguro, que me irritou de imediato e, ao mesmo tempo, me afetou de uma forma que eu não queria reconhecer. Quando voltou a aproximar-se, o cheiro do whisky misturava-se com o perfume escuro que eu já associava à presença dele, e percebi, tarde demais, que tinha prendido a respiração sem notar. Ele parou à minha frente por um segundo longo demais para ser casual, tão perto que eu sentia o calor do corpo dele através do tecido, como se estivesse a avaliar, com uma paciência c***l, se eu iria fugir naquele último instante. Eu não fugi. — Olhe para mim — disse ele, com uma voz baixa e firme que não admitia hesitação. Levantei os olhos, sentindo o impacto imediato do olhar dele, que escureceu um tom quase impercetível, não de desejo exposto, mas de controlo absoluto, como se o simples facto de eu obedecer tivesse fechado uma equação que só ele conhecia. Ele segurou-me pelo braço com firmeza suficiente para me puxar um passo à frente, e a presença dele tornou-se esmagadora, ocupando todo o espaço disponível, anulando qualquer tentativa de distanciamento. — Não — murmurei, mais por reflexo do que por verdadeira convicção, consciente de que a palavra soara fraca demais para funcionar como recusa. O beijo veio mesmo assim. No início, o corpo enrijeceu, a boca fechou-se, as mãos tentaram empurrá-lo num gesto desordenado e inútil, traído pela reação imediata da minha própria pele. Depois perdi-me. Porque ele não forçou o beijo no sentido bruto da palavra. Impôs-o com uma certeza tranquila, como se soubesse, desde o início, que a resistência não duraria. O sabor do whisky invadiu-me a boca, quente e intenso, enquanto o beijo se mantinha lento, possessivo, sem pressa, como se ele já tivesse todo o tempo do mundo e eu nenhum. A mão dele na minha nuca não apertava. Guiava, indicando com precisão onde eu devia estar, e houve um momento curto, imperdoável, em que deixei de resistir e comecei a acompanhar sem sequer perceber quando tinha acontecido a transição. Quando ele se afastou, foi por decisão própria, deixando-me ali, suspensa entre a falta e a memória do toque. Matteo manteve-se perto, demasiado perto, e passou o polegar pelo meu rosto num gesto que não tinha nada de carinhoso, apenas avaliador, como se estivesse a confirmar algo que sempre soubera. — Sempre pensei que fosse assim. O polegar afastou-se. O corpo, não. Depois recuou. Fiquei ali, os lábios a arder, o corpo em desordem, com a certeza aterradora de que tinha atravessado uma linha que não saberia desfazer. — Há condições — disse ele, e o tom mudou de imediato, deixando para trás qualquer vestígio de i********e. O ar pareceu mais frio. — Que condições? — perguntei, sentindo a voz menos firme do que gostaria. — Se aceitar, vem hoje para a minha casa — respondeu, sem hesitar. Hoje. — Hoje? — repeti, incapaz de esconder o choque. — Hoje — confirmou, e a forma como o disse não deixou espaço para negociação. Não era urgência. Era domínio do tempo. Caminhou até à mesa e pousou as mãos na madeira. — Não quero períodos de adaptação nem hesitações — continuou. — Ou entra agora, ou não entra. — E o que levo? — perguntei. — Apenas os seus pertences pessoais. Documentos. Objetos seus. — E as minhas roupas? — As roupas ficam. — Todas? O olhar dele escureceu, não de impaciência, mas de desprezo contido. — Não quero que use roupas que um homem tirou de você. O impacto foi imediato. A frase foi dita como se o meu corpo fosse um território marcado, algo que ele não admitia ver contaminado por vestígios de outro. — Como assim… — comecei, mas ele cortou-me. — Roupas escolhidas para serem arrancadas, para agradar, para ficarem no chão de um quarto que não era seu. — Isso não entra na minha casa. O tom não era ciúme. Era posse limpa, direta, inegociável. Senti o rosto aquecer, não apenas de vergonha, mas de uma reação absurda e quente que me fez baixar os olhos por um instante. — Leva apenas o que é seu — continuou. — O que ninguém lhe arrancou do corpo. — O resto fica para trás. A imagem de malas vazias formou-se na minha mente como um corte definitivo, sem retorno. — E quando isto acabar? — perguntei, num fio de voz. Matteo observou-me com atenção calculada. — Não a deixo na mão. Não foi promessa. Foi garantia prática. — Sai com dinheiro, com um lugar para ficar, sem depender de quem a trata como um fardo. O silêncio voltou a instalar-se, pesado e absoluto. Ele não se aproximou, não tocou, não pressionou. Esperou. — Está a pedir-me que desapareça — murmurei. — Estou a pedir-lhe que escolha — disse. — Uma única vez. O olhar dele fixou-se no meu. — Aceita e vem comigo hoje. A frase ficou suspensa no ar. Eu sentia o corpo ainda marcado pelo beijo, a boca sensível, a mente em ruínas. E compreendi, com uma clareza que me assustou, que ele já sabia a resposta. A pergunta nunca foi se eu aceitava. Era quando eu teria coragem de admitir que já estava dentro.
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