Capítulo 8

1014 Words
Arrumei as malas sem cerimónia, sem dramatização, sem aquela pausa teatral que costuma acompanhar as despedidas importantes, porque naquele momento não havia nada para lamentar nem para preservar. Peguei apenas no essencial, documentos, o caderno gasto, a caneta, algumas poucas coisas pequenas que reconhecia como minhas de verdade, e deixei tudo o resto onde estava, pendurado ou dobrado, intacto, como se aquelas roupas nunca tivessem pertencido ao meu corpo. Não olhei para trás quando fechei a mala. Não precisei. A porta abriu-se sem aviso. A minha tia entrou no quarto com passos seguros, lançou um olhar rápido à mala aberta, às gavetas vazias e ao armário quase intacto, e sorriu com uma satisfação evidente, como alguém que finalmente tinha recebido a confirmação que esperava. — Então é isso — disse. Fez uma pausa curta, calculada. — Saiu como esposa… e voltou como p**a. A palavra caiu limpa, sem emoção, sem esforço, dita como se fosse apenas uma constatação social inevitável. Continuei a fechar a mala. — Foi rápido — acrescentou, aproximando-se um passo. — Nem esfriou a cama de um, já está a ir para a do outro. Fechei o zíper com força suficiente para o som ecoar no quarto. Levantei-me e encarei-a sem pressa. — Sempre fui o que decidiram que eu era — respondi. — Agora só mudaram o nome. Ela não disse mais nada. O sorriso desapareceu, substituído por uma expressão tensa, incomodada não pelo que eu dissera, mas pela ausência de vergonha que ela esperava ver. Saí da casa poucos minutos depois, sem despedidas, sem explicações, sem carregar nada além da mala e de um silêncio pesado. O carro já estava à espera. Entrei no banco de trás e a porta fechou-se com um som firme, definitivo. O portão abriu-se e voltou a fechar atrás de nós antes que eu pudesse sequer pensar em olhar para trás. O trajeto foi curto. Não observei a rua, não contei o tempo, não tentei antecipar nada. Permaneci sentada, a mala aos meus pés, o corpo rígido, alerta, como se cada metro percorrido estivesse a afastar-me de algo que nunca tinha sido realmente meu. A mansão de Matteo surgiu sólida e silenciosa, rodeada por muros altos, portões pesados e uma ausência total de ostentação desnecessária. O carro avançou pelo caminho interno ladeado por árvores alinhadas com precisão excessiva e parou diante da entrada principal. Uma mulher aguardava à porta. Vestia-se de forma discreta, elegante, o cabelo preso, a postura correta demais para ser casual. — Boa noite — disse. — Sou Elena. Vou acompanhá-la. Não perguntou se eu queria. Segui-a para dentro. Atravessei corredores amplos, silenciosos, com pisos impecáveis e paredes claras, onde cada passo parecia absorvido pelo espaço. Não havia quadros excessivos, nem objetos pessoais à vista. Tudo ali parecia pensado para não distrair, para não permitir dispersão. Elena abriu uma porta e indicou o interior com um gesto breve. — Este é o seu quarto. Entrei. O espaço era grande, funcional, impessoal. A cama estava feita com precisão, as cortinas pesadas filtravam a luz, e o ambiente tinha um silêncio controlado que não convidava ao descanso, mas à espera. Coloquei a mala no chão e fui direto ao roupeiro. Abri a porta. Dentro, roupas organizadas por cores e cortes, vestidos sóbrios, peças estruturadas, tecidos caros, tudo no meu tamanho. Mais abaixo, camisolas largas, calças macias, roupas simples, iguais às que eu costumava usar quando estava sozinha, longe de olhares, longe de papéis a representar. Passei os dedos por uma das camisolas sem pensar e fechei o roupeiro. — O senhor pediu que descansasse — disse Elena, atrás de mim. Fez uma pausa curta. — Ele chama quando quiser vê-la. Assenti. Ela saiu sem acrescentar mais nada. Poucos minutos depois, bateram à porta. — O senhor DeLuca pede que vá ao escritório. Respirei fundo uma única vez, ajustei o vestido e saí do quarto. Segui pelo corredor, depois por uma escadaria larga, atravessando mais um espaço amplo até parar diante de uma porta dupla. Elena abriu-a. O escritório era grande, austero, dominado por uma secretária de madeira escura e janelas altas que deixavam entrar pouca luz. Matteo estava em pé, junto da secretária, de costas, como se já soubesse exatamente o momento em que eu entraria. Vestia um fato escuro sem o casaco. A camisa estava arregaçada até aos antebraços, revelando braços fortes, tatuados com linhas escuras e antigas que subiam pela pele com naturalidade. O colete ajustava-se ao tronco com precisão, marcando uma postura firme, imóvel. As mãos apoiavam-se na secretária. Grandes. Firmes. Veias visíveis sob a pele, dedos ligeiramente afastados, como se aquele fosse o estado natural de alguém habituado a segurar, decidir, impor. Ele virou-se devagar. — Entre. Dei alguns passos e a porta fechou-se atrás de mim. Matteo manteve-se de pé. Ajustou o punho da camisa com um gesto lento, depois deu dois passos na minha direção, parando a uma distância curta demais para ser casual. — Fique aí. Obedeci. Ele contornou a secretária, recostou-se na borda e cruzou os braços, o olhar fixo em mim, direto, avaliador, sem pressa. — Aqui, nada acontece por impulso — disse. — Tudo é decidido antes. Descruzou os braços e apoiou novamente as mãos na madeira, inclinando-se ligeiramente para a frente. — Você veio porque aceitou vir — continuou. — E porque não tem para onde voltar. Deu a volta à secretária com calma, aproximando-se mais um passo. — Se ficar nesta casa, segue as minhas regras. Parou à minha frente. — Hoje. A palavra caiu seca. — Vai ficar aqui. Leva apenas o que é seu. Não quero que use roupas que um homem tirou de você. Ergueu a mão por um instante, os dedos a roçarem de leve no meu braço, suficiente para provocar um arrepio imediato. O canto da boca dele moveu-se num esboço breve ao notar a reação. — O resto — concluiu — eu trato. Afastou-se e voltou para trás da secretária, retomando a posição como se nada tivesse sido improvisado. — Agora — disse, finalmente —, responda. O silêncio instalou-se pesado. Eu ainda estava ali.
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