Capítulo 9

1129 Words
Aceitei. A palavra saiu baixa, firme, sem enfeite, sem defesa, e o silêncio que se instalou depois não foi de surpresa, mas de confirmação, como se Matteo estivesse apenas a dar tempo ao meu corpo para compreender o que a minha boca já tinha decidido. — Aceito. Ele não respondeu de imediato. Manteve-se imóvel por um segundo longo demais, o olhar fixo em mim, pesado, avaliador, como se estivesse a medir não a minha coragem, mas a minha rendição. Senti o peso desse olhar percorrer-me sem pudor, da forma como eu estava em pé à maneira como respirava, consciente demais de cada centímetro de pele coberta, de cada reação que eu não conseguia controlar. Então, o canto da boca dele ergueu-se num sorriso lento e satisfeito, de quem nunca duvidou do resultado. — Boa escolha — disse, por fim, num tom calmo demais para ser gentil. Avançou. Sem pedir. Sem avisar. A mão dele fechou-se na minha cintura com força suficiente para me puxar contra o corpo dele num único gesto seco, fazendo-me perder o equilíbrio por um instante curto, humilhante, porque o meu corpo respondeu antes que eu pudesse resistir. Senti o impacto da proximidade, o calor firme do corpo dele, a diferença clara de força, e algo em mim cedeu de forma imediata, visceral. A outra mão subiu para a minha nuca. Os dedos enterraram-se no meu cabelo, puxando levemente para trás, obrigando-me a erguer o rosto, a expor a boca, o pescoço, a postura inteira, e o gesto foi tão natural para ele que me senti ainda mais pequena por perceber que aquilo não exigia esforço algum da parte dele. — Olhe para mim — disse, baixo. Obedeci. E foi nesse instante, com o olhar dele preso ao meu, que a boca dele desceu sobre a minha. O beijo não foi suave. Nem exploratório. Foi profundo, invasivo, decidido, como se ele estivesse a tomar algo que já considerava seu. Os lábios pressionaram os meus com firmeza, exigindo a******a, e quando tentei resistir por reflexo, o aperto na minha nuca aumentou, não como punição, mas como correção precisa. Abri a boca. O beijo aprofundou-se imediatamente. Senti a língua dele dominar o ritmo, lenta no início, depois mais intensa, como se estivesse a testar a minha resposta, a medir a forma como eu reagia, e o corpo traiu-me sem piedade. Um arrepio atravessou-me inteira, os joelhos enfraqueceram, e a respiração falhou num som baixo que não consegui conter. Ele percebeu. Sempre percebe. A mão na minha cintura apertou-se ainda mais, puxando-me contra ele sem qualquer delicadeza, deixando claro o contraste de corpos, a diferença de presença, e senti o estômago contrair-se de forma violenta, uma resposta física clara, inegável, que me encheu de vergonha e desejo ao mesmo tempo. Nunca tinha sentido aquilo. Nem quando fui esposa. Nem quando fui tocada por obrigação. O beijo tornou-se mais lento, mais pesado, como se ele estivesse a saborear a minha reação, a minha perda de controle, a forma como o meu corpo se ajustava ao dele sem que eu pedisse. O gosto de uísque misturou-se ao dele, quente, forte, masculino, e senti o calor espalhar-se de forma humilhante pelo meu corpo, uma resposta que não devia existir, mas existia. As minhas mãos ergueram-se, hesitantes, e pousaram no peito dele por instinto, não para afastar, mas para me segurar, e isso foi suficiente para ele aprofundar ainda mais o beijo, como se aquela mínima rendição fosse tudo o que precisava. Quando ele finalmente se afastou, não me soltou. Manteve-me presa a ele, a testa quase encostada à minha, a respiração controlada, enquanto a minha estava irregular, traidora, o corpo inteiro consciente da proximidade. — Veja-se — murmurou, baixo, a boca perto demais da minha. — Humilhada… e ainda assim a reagir. O calor subiu-me ao rosto num impulso cego, mais rápido do que qualquer pensamento, e a mão ergueu-se por instinto, aberta, pronta para o estalo que nunca chegou a acontecer. Ele apanhou-me o pulso no ar. Os dedos fecharam-se à volta da minha mão com firmeza absoluta, sem violência desnecessária, apenas força suficiente para me lembrar, de forma inequívoca, da diferença entre nós. O pulso latejou sob a pressão, uma dor breve, controlada, que fez o meu corpo ficar ainda mais alerta. Aproximou-se mais. — Não abuse, Ivy — disse, num tom calmo demais para ser indulgente. A mão dele manteve a minha presa entre nós por um instante longo, deliberado, como se quisesse que eu sentisse o erro antes de me soltar. Quando o fez, foi lento, preciso, retirando-se como quem decide encerrar uma lição. Dei um passo atrás. Levei a mão ao pulso sem perceber, os dedos fechando-se ali por reflexo, o coração acelerado, o corpo ainda quente, dividido entre a raiva e algo muito mais perigoso que eu não queria nomear. Matteo endireitou-se, ajustou o colete com um gesto breve e voltou a assumir a postura imperturbável de quem nunca perde o eixo. — Esteja pronta às 22h — disse, sem olhar para mim. — Sem atrasos. Ergueu finalmente o olhar, direto, firme. — Vou buscá-la. Não perguntou se eu concordava. Não explicou mais nada. A conversa tinha terminado. Fiquei ali, imóvel, com o pulso ainda sensível sob os meus dedos, o corpo inteiro em alerta, consciente demais do que tinha acabado de acontecer e do que estava prestes a acontecer, sabendo, com uma clareza desconfortável, que aquilo não tinha sido uma ameaça. Tinha sido um aviso. E às 22h, eu teria de estar pronta. O silêncio no escritório não se dissipou quando ele deixou de falar. Ficou. Pesado. Controlado. Como se ainda estivesse ali mesmo depois de Matteo se afastar alguns passos, retomando o lugar atrás da secretária, organizando papéis com a calma de quem já tinha encerrado o assunto. Eu continuei parada onde estava. Não por respeito. Por inércia. O pulso ainda sensível lembrava-me do aperto, da correção precisa, e a simples memória fez-me endireitar a postura, como se o corpo estivesse a aprender regras novas sem que ninguém precisasse repeti-las em voz alta. — Pode ir — disse ele, finalmente, sem erguer o olhar. Não houve despedida. Virei-me e caminhei até à porta, sentindo cada passo ecoar mais do que devia naquele espaço amplo, consciente demais da própria respiração, da forma como o vestido roçava nas pernas, de como o corpo ainda não tinha recuperado totalmente do beijo. Antes de sair, parei por um segundo. Não olhei para trás. Abri a porta e fechei-a com cuidado excessivo. Do lado de fora, o corredor parecia mais estreito, mais silencioso, e enquanto caminhava de volta para o quarto, uma única certeza se impunha com clareza desconfortável. Às 22h, não seria apenas ele que viria buscar-me. Alguma coisa em mim já estava a ir ao encontro dele.
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