Aceitei.
A palavra saiu baixa, firme, sem enfeite, sem defesa, e o silêncio que se instalou depois não foi de surpresa, mas de confirmação, como se Matteo estivesse apenas a dar tempo ao meu corpo para compreender o que a minha boca já tinha decidido.
— Aceito.
Ele não respondeu de imediato.
Manteve-se imóvel por um segundo longo demais, o olhar fixo em mim, pesado, avaliador, como se estivesse a medir não a minha coragem, mas a minha rendição. Senti o peso desse olhar percorrer-me sem pudor, da forma como eu estava em pé à maneira como respirava, consciente demais de cada centímetro de pele coberta, de cada reação que eu não conseguia controlar.
Então, o canto da boca dele ergueu-se num sorriso lento e satisfeito, de quem nunca duvidou do resultado.
— Boa escolha — disse, por fim, num tom calmo demais para ser gentil.
Avançou.
Sem pedir.
Sem avisar.
A mão dele fechou-se na minha cintura com força suficiente para me puxar contra o corpo dele num único gesto seco, fazendo-me perder o equilíbrio por um instante curto, humilhante, porque o meu corpo respondeu antes que eu pudesse resistir. Senti o impacto da proximidade, o calor firme do corpo dele, a diferença clara de força, e algo em mim cedeu de forma imediata, visceral.
A outra mão subiu para a minha nuca.
Os dedos enterraram-se no meu cabelo, puxando levemente para trás, obrigando-me a erguer o rosto, a expor a boca, o pescoço, a postura inteira, e o gesto foi tão natural para ele que me senti ainda mais pequena por perceber que aquilo não exigia esforço algum da parte dele.
— Olhe para mim — disse, baixo.
Obedeci.
E foi nesse instante, com o olhar dele preso ao meu, que a boca dele desceu sobre a minha.
O beijo não foi suave.
Nem exploratório.
Foi profundo, invasivo, decidido, como se ele estivesse a tomar algo que já considerava seu. Os lábios pressionaram os meus com firmeza, exigindo a******a, e quando tentei resistir por reflexo, o aperto na minha nuca aumentou, não como punição, mas como correção precisa.
Abri a boca.
O beijo aprofundou-se imediatamente.
Senti a língua dele dominar o ritmo, lenta no início, depois mais intensa, como se estivesse a testar a minha resposta, a medir a forma como eu reagia, e o corpo traiu-me sem piedade. Um arrepio atravessou-me inteira, os joelhos enfraqueceram, e a respiração falhou num som baixo que não consegui conter.
Ele percebeu.
Sempre percebe.
A mão na minha cintura apertou-se ainda mais, puxando-me contra ele sem qualquer delicadeza, deixando claro o contraste de corpos, a diferença de presença, e senti o estômago contrair-se de forma violenta, uma resposta física clara, inegável, que me encheu de vergonha e desejo ao mesmo tempo.
Nunca tinha sentido aquilo.
Nem quando fui esposa.
Nem quando fui tocada por obrigação.
O beijo tornou-se mais lento, mais pesado, como se ele estivesse a saborear a minha reação, a minha perda de controle, a forma como o meu corpo se ajustava ao dele sem que eu pedisse. O gosto de uísque misturou-se ao dele, quente, forte, masculino, e senti o calor espalhar-se de forma humilhante pelo meu corpo, uma resposta que não devia existir, mas existia.
As minhas mãos ergueram-se, hesitantes, e pousaram no peito dele por instinto, não para afastar, mas para me segurar, e isso foi suficiente para ele aprofundar ainda mais o beijo, como se aquela mínima rendição fosse tudo o que precisava.
Quando ele finalmente se afastou, não me soltou.
Manteve-me presa a ele, a testa quase encostada à minha, a respiração controlada, enquanto a minha estava irregular, traidora, o corpo inteiro consciente da proximidade.
— Veja-se — murmurou, baixo, a boca perto demais da minha. — Humilhada… e ainda assim a reagir.
O calor subiu-me ao rosto num impulso cego, mais rápido do que qualquer pensamento, e a mão ergueu-se por instinto, aberta, pronta para o estalo que nunca chegou a acontecer.
Ele apanhou-me o pulso no ar.
Os dedos fecharam-se à volta da minha mão com firmeza absoluta, sem violência desnecessária, apenas força suficiente para me lembrar, de forma inequívoca, da diferença entre nós. O pulso latejou sob a pressão, uma dor breve, controlada, que fez o meu corpo ficar ainda mais alerta.
Aproximou-se mais.
— Não abuse, Ivy — disse, num tom calmo demais para ser indulgente.
A mão dele manteve a minha presa entre nós por um instante longo, deliberado, como se quisesse que eu sentisse o erro antes de me soltar. Quando o fez, foi lento, preciso, retirando-se como quem decide encerrar uma lição.
Dei um passo atrás. Levei a mão ao pulso sem perceber, os dedos fechando-se ali por reflexo, o coração acelerado, o corpo ainda quente, dividido entre a raiva e algo muito mais perigoso que eu não queria nomear.
Matteo endireitou-se, ajustou o colete com um gesto breve e voltou a assumir a postura imperturbável de quem nunca perde o eixo.
— Esteja pronta às 22h — disse, sem olhar para mim. — Sem atrasos.
Ergueu finalmente o olhar, direto, firme.
— Vou buscá-la.
Não perguntou se eu concordava.
Não explicou mais nada.
A conversa tinha terminado.
Fiquei ali, imóvel, com o pulso ainda sensível sob os meus dedos, o corpo inteiro em alerta, consciente demais do que tinha acabado de acontecer e do que estava prestes a acontecer, sabendo, com uma clareza desconfortável, que aquilo não tinha sido uma ameaça.
Tinha sido um aviso.
E às 22h, eu teria de estar pronta.
O silêncio no escritório não se dissipou quando ele deixou de falar.
Ficou.
Pesado. Controlado. Como se ainda estivesse ali mesmo depois de Matteo se afastar alguns passos, retomando o lugar atrás da secretária, organizando papéis com a calma de quem já tinha encerrado o assunto.
Eu continuei parada onde estava.
Não por respeito.
Por inércia.
O pulso ainda sensível lembrava-me do aperto, da correção precisa, e a simples memória fez-me endireitar a postura, como se o corpo estivesse a aprender regras novas sem que ninguém precisasse repeti-las em voz alta.
— Pode ir — disse ele, finalmente, sem erguer o olhar.
Não houve despedida.
Virei-me e caminhei até à porta, sentindo cada passo ecoar mais do que devia naquele espaço amplo, consciente demais da própria respiração, da forma como o vestido roçava nas pernas, de como o corpo ainda não tinha recuperado totalmente do beijo.
Antes de sair, parei por um segundo.
Não olhei para trás.
Abri a porta e fechei-a com cuidado excessivo.
Do lado de fora, o corredor parecia mais estreito, mais silencioso, e enquanto caminhava de volta para o quarto, uma única certeza se impunha com clareza desconfortável.
Às 22h, não seria apenas ele que viria buscar-me.
Alguma coisa em mim já estava a ir ao encontro dele.