Capítulo 10

1174 Words
Escolhi o vestido preto sem hesitar. Não porque fosse o mais bonito, nem o mais caro, mas porque era o que menos parecia pedir permissão. O tecido ajustava-se ao corpo de forma limpa, firme, marcando a cintura, alongando as pernas, deixando os ombros descobertos com uma sobriedade quase c***l. Não havia rendas, nem excesso, apenas linhas precisas e um contraste claro que chamava a atenção exatamente para onde devia. Diante do espelho, fiquei alguns segundos a mais do que o necessário. Reconhecia-me. E, ao mesmo tempo, não. Soltei o cabelo castanho escuro em ondas largas, deixando-o cair sobre os ombros, pesado, brilhante, enquadrando o rosto de uma forma que eu nunca tinha usado antes. Não era o cabelo da esposa obediente, nem o da mulher escondida no quarto da tia. Era outra coisa. Algo mais consciente. Mais exposto. O espelho devolveu-me um olhar que eu não sabia nomear. Não era confiança. Também não era medo. Era preparação. Desci as escadas devagar. Não por dramatismo, mas porque cada degrau parecia carregar um peso diferente agora, como se a casa inteira estivesse à espera daquele momento. O som dos meus passos ecoou no mármore, claro demais, e quando cheguei ao último degrau, vi-o. Matteo estava junto à entrada. Vestia um smoking escuro, impecável, a camisa branca aberta apenas o suficiente para sugerir controlo em vez de rigidez. Não usava o casaco. As mangas estavam dobradas até aos antebraços, revelando a pele marcada por tatuagens, linhas firmes que contrastavam com a elegância do fato. As mãos estavam cerradas ao lado do corpo, imóveis, como se contivessem algo que não precisava ser dito. Ele levantou o olhar quando me viu. Não disse nada. Mas as mãos fecharam-se um pouco mais. O silêncio entre nós esticou-se por um segundo denso, carregado, e eu senti o impacto antes mesmo de dar mais um passo. Quando avancei, ele veio ao meu encontro sem aviso, sem cerimónia, como se aquele fosse o lugar natural dele. A mão subiu para a minha cintura. A outra segurou-me o rosto. O beijo foi imediato. Não foi um toque cuidadoso, nem um teste. Foi a boca dele a fechar-se sobre a minha com firmeza, abrindo-me sem pressa, como se tivesse todo o tempo do mundo para sentir a forma como eu reagia. Os lábios pressionaram, exigentes, e quando o meu corpo hesitou por um segundo curto, ele aprofundou o beijo, não para convencer, mas para dominar. Senti o choque da invasão, o calor espalhar-se rápido demais, a respiração falhar quando a língua dele se moveu com segurança, lenta e profunda, arrancando-me um som baixo que escapou sem permissão. As pernas ficaram mais fracas, o ventre apertou-se num reflexo quente e inconfundível, e a humilhação de perceber aquilo só fez a sensação crescer. Ele afastou-se apenas o suficiente para me observar. Eu estava visivelmente afetada. Os lábios ainda entreabertos, a respiração irregular, o corpo demasiado desperto para fingir indiferença. Um calor insistente instalava-se baixo demais para ser ignorado, e a consciência disso fez-me engolir em seco, exposta de uma forma que eu nunca tinha estado. — Falta-lhe uma coisa — disse, por fim. Antes que eu pudesse perguntar, ele afastou-se apenas o suficiente para alcançar algo no bolso interno do casaco pousado ali perto. Quando voltou a aproximar-se, segurava um colar delicado, pesado demais para ser apenas adorno. Diamantes. A mão dele passou pelo meu cabelo, afastando-o do pescoço com um gesto lento, calculado, quase íntimo demais. Senti o frio da joia tocar a pele antes de ouvir o fecho a fechar-se atrás da minha nuca, um clique suave, definitivo. Ele ajustou o colar com dois dedos, demorando-se um segundo a mais do que o necessário, o polegar a roçar de leve a base do meu pescoço, como se quisesse sentir a reação. O peso frio dos diamantes contrastava com o calor que ainda pulsava em mim, marcando-me de uma forma que não era apenas visual. Quando ele pousou os dedos no meu queixo e me obrigou a erguer o rosto, o colar pesava de uma forma diferente. Não era luxo. Era marca. O olhar dele encontrou o meu, firme, satisfeito, como se tivesse acabado de completar algo que já estava decidido desde o início. Engoli em seco. O espelho no fundo do corredor devolveu-me a imagem completa, o vestido preto, o cabelo solto, o brilho frio dos diamantes contra a pele nua, a forma como o meu corpo ainda não tinha recuperado totalmente do beijo, e a certeza instalou-se com uma clareza desconfortável, impossível de negar. Aquilo não era apenas uma joia. Era uma coleira. E eu tinha acabado de aceitar usá-la. O carro avançou em silêncio. O motorista mantinha o olhar fixo à frente, postura impecável, como se nada naquele banco traseiro lhe dissesse respeito. A divisória não estava levantada. Não havia privacidade. E isso tornava tudo pior. Matteo sentou-se ao meu lado sem dizer uma palavra. O espaço era curto demais para evitar a proximidade, e eu sentia o calor do corpo dele a poucos centímetros do meu, o cheiro discreto do perfume misturado ao couro dos bancos. Mantinha o olhar à frente, a postura relaxada, como se eu fosse apenas mais um detalhe naquela noite. Foi então que senti a mão dele mover-se. Devagar. Os dedos pousaram na minha coxa com naturalidade calculada, firmes, seguros, como se aquele gesto fosse tão legítimo quanto ajustar o relógio no pulso. Prendi a respiração no mesmo instante, o corpo reagindo antes que eu pudesse impedir. O tecido do vestido foi empurrado para cima lentamente. Centímetro por centímetro. A mão subiu até a parte alta da minha perna, muito mais do que seria aceitável naquela situação, e o polegar começou a traçar movimentos lentos, quase distraídos, pressionando o suficiente para me fazer estremecer. Não olhei para ele. Não me atrevi. O motorista estava ali. E ainda assim, o meu corpo aquecia de forma inegável, a excitação acumulando-se num ponto desconfortável, pulsante, que me fez apertar os dedos contra o banco para não reagir de forma visível. Matteo não se mexeu. Não falou. O rosto continuava impassível, os olhos à frente, enquanto a mão mantinha aquele contacto deliberado, c***l, próximo demais do limite, longe demais de qualquer alívio. O toque subia, descia, voltava a subir, sempre a parar antes do que eu precisava, sempre a deixar claro que ele sabia exatamente o efeito que estava a provocar. A minha respiração traiu-me. Um som curto. Baixo demais para chamar atenção, alto demais para passar despercebido a ele. A mão dele permaneceu ali por mais alguns segundos longos, calculados, antes de se afastar lentamente, regressando ao lugar original como se nada tivesse acontecido. Como se não tivesse acabado de me desmontar inteira no banco traseiro de um carro em movimento. Engoli em seco, o corpo tenso, o desejo sem saída, e mantive os olhos fixos à frente, sentindo o colar pesar contra a pele, frio e presente, lembrando-me de que aquilo fazia parte do jogo. Ele não precisava de privacidade. Precisava apenas de controlo. E eu sentia cada segundo disso.
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