Capítulo 11

1176 Words
O carro parou diante da entrada iluminada. Música suave escapava pelas portas abertas, misturada com o som de vozes, risos, taças a tilintar. Um evento grande. Importante. A fachada estava decorada com flores brancas e douradas, luzes quentes projetadas com cuidado para impressionar. Festa. Foi isso que pensei. O motorista desceu primeiro, abriu a porta, e Matteo saiu sem pressa, postura impecável, presença dominante. Estendeu-me a mão sem olhar, um gesto automático, como se já soubesse que eu a aceitaria. Aceitei. Só quando pisei o chão é que vi o letreiro. Parabéns aos noivos. O ar pareceu desaparecer dos meus pulmões. O sorriso congelou-me no rosto por reflexo, aprendido, automático, enquanto os olhos percorriam o espaço à frente, tentando compreender o que o corpo já tinha entendido antes da mente aceitar. Noivos. E então vi-o. Ricardo estava junto ao centro da sala, um copo numa mão, o braço pousado de forma possessiva sobre o ombro de uma rapariga demasiado nova para aquele ambiente. O vestido dela era claro, quase infantil, o sorriso aberto, orgulhoso, como quem tinha acabado de ganhar algo valioso. Ela não devia ter mais de dezoito anos. Senti o impacto como um murro seco no estômago. Não por ciúme. Mas pela violência simbólica daquilo. Cinco anos comigo, descartada por infertilidade. Meses depois, ali estava ele, exibindo uma noiva quase adolescente, fértil por definição, como um troféu silencioso. — Não! — disse, sem perceber que tinha parado de andar. Ele virou-se para mim de imediato. Observou-me por um segundo, atento demais à mudança no meu rosto, ao aperto da mandíbula, à forma como o meu corpo tinha endurecido. — O que foi? — perguntou baixo. — Isto é a festa dele. Não precisei dizer mais nada. O olhar dele deslizou pela sala, encontrou Ricardo, depois voltou para mim. Não houve surpresa. Nem desconforto. Apenas avaliação. — Sim — respondeu. A simplicidade da resposta fez algo estalar dentro de mim. — Você sabia — disse. Não como pergunta. Como constatação. Matteo manteve-se calmo. — Sabia. A minha mão apertou-se ao lado do corpo. — E achou aceitável trazer-me aqui? — perguntei, a voz controlada à força. — Fazer-me entrar neste circo como se fosse… como se fosse o quê, exatamente? Ele inclinou-se ligeiramente para mim, a mão firme no meu antebraço, guiando-me para um corredor lateral antes que alguém se aproximasse. O gesto foi rápido, discreto, eficiente. Assim que ficámos fora da vista direta da sala, puxei o braço. — Não toque em mim agora. Foi a primeira vez que o disse. Matteo parou. O corpo ficou imóvel por um segundo curto, o olhar preso ao meu como se estivesse a avaliar até onde aquela resistência iria. Não houve surpresa. Nem pedido de desculpas. Apenas uma mudança subtil no ar entre nós. Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, a mão dele subiu para o meu rosto e a boca encontrou a minha. O beijo foi rápido. Duro. Imposto. Não houve tempo para preparação nem espaço para consentimento emocional. Os lábios dele pressionaram os meus com firmeza suficiente para me silenciar, para me lembrar de onde estávamos e de quem tinha controlo ali. O choque foi imediato. Afastei-me com força. — Não me toque, Matteo. O nome saiu carregado. Foi a primeira vez que o disse em voz alta. Não como súplica. Como limite. Por um instante breve, algo passou pelo olhar dele. Depois desapareceu. As mãos fecharam-se nos meus braços num gesto rápido, possessivo, puxando-me de volta contra ele com facilidade desconcertante. — Você é minha — disse, baixo, junto ao meu rosto. O estômago revirou-se-me. — Eu não sou um objeto — respondi de imediato, a voz tensa, ferida, furiosa. Matteo soltou uma risada curta. Não foi divertida. Foi irónica. — É — disse. — Um objeto que eu comprei, Ivy. E não se esqueça disso. As palavras bateram-me como um murro seco no peito. Tentei libertar-me, mas o aperto nos meus braços aumentou apenas o suficiente para me manter ali, sem dor desnecessária, sem espetáculo. — Agora escute com atenção — continuou ele, o tom calmo demais para ser indulgente. — Você vai entrar naquela sala. Aproximou-se mais um pouco, a voz a descer. — E vai portar-se como uma mulher que acompanha o Don. O olhar desceu por um instante rápido, avaliador. — Não como uma mulher enxovalhada. O silêncio entre nós tornou-se denso. O som da música chegava abafado do salão, risos, celebração, tudo o que eu não sentia naquele momento. Engoli em seco, o corpo rígido, a raiva a pulsar-me nas veias. — Não pense que isto me quebra — disse, baixo. Matteo inclinou ligeiramente a cabeça, como quem considera algo irrelevante. — Não me interessa se quebra — respondeu. — Interessa-me que obedeça. Soltou-me de repente. O gesto foi brusco apenas pela ausência repentina do contacto. Dei um passo atrás para recuperar o equilíbrio, o coração a bater rápido demais. Ele estendeu o braço. — Agora — disse. — Vamos entrar. Olhei para ele por um segundo longo, sentindo o peso do colar contra a pele, frio, presente, marcando-me mais do que qualquer palavra. Depois aceitei o braço. O braço de Matteo manteve-se firme junto ao meu. Não apertava. Não precisava. A proximidade era suficiente para me manter consciente de cada movimento, de cada respiração dele ao meu lado, do calor que emanava do corpo dele mesmo através do tecido do fato. Caminhávamos entre os convidados como se o espaço se abrisse naturalmente à frente dele, e senti os olhares pousarem em nós, curiosos, avaliadores, atentos demais ao detalhe que brilhava no meu pescoço. O colar. Matteo inclinou-se ligeiramente para mim enquanto avançávamos, o gesto quase imperceptível para quem estivesse a observar, mas íntimo o suficiente para me arrepiar. — Endireite os ombros — murmurou, sem me olhar. Obedeci de imediato. O simples ato fez o colar assentar de forma diferente contra a pele, pesado, frio, e a consciência disso percorreu-me o corpo inteiro. O braço dele roçou de leve no meu flanco, um toque mínimo, calculado, que não podia ser interpretado como carícia, mas que fez a respiração falhar por um segundo curto demais para ser notado por outros. Matteo percebeu. O canto da boca dele curvou-se num sorriso quase invisível. Parou por um instante para cumprimentar alguém importante, mantendo-me ao lado, a mão pousada brevemente na base das minhas costas, baixa o suficiente para ser íntima, alta o suficiente para parecer respeitável. O contraste era c***l. O toque durou apenas alguns segundos, mas deixou o corpo inteiro em alerta, sensível demais. Quando voltou a mover-se, aproximou-se ainda mais. — Não olhe para ele — disse, baixo, junto ao meu ouvido. — Olhe para mim. A ordem deslizou-me pela pele como um arrepio. E, mesmo sem o encarar diretamente, senti com clareza desconfortável que Matteo estava atento a cada reação minha, a cada sinal de tensão, de desejo contido, como se aquela fosse apenas a primeira de muitas noites em que o controlo não passaria pela força, mas pela antecipação. E eu estava perigosamente consciente disso.
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