A sala estava cheia demais.
Não de pessoas.
De olhares.
Assim que Matteo entrou comigo, o burburinho mudou de tom, como se alguém tivesse baixado a música invisível do ambiente para que todos pudessem observar melhor. Senti-o antes de ouvir. O peso da atenção, a curiosidade afiada, a avaliação silenciosa que começava nos sapatos e subia devagar demais.
Matteo avançou sem hesitar.
Não me puxou.
Não me empurrou.
Limitou-se a caminhar com a segurança de quem sabe que o espaço lhe pertence, e eu acompanhei, o braço ainda ligado ao dele, consciente do colar frio contra a pele, do vestido a moldar-se ao corpo com precisão calculada demais para ser coincidência.
— Respire — disse ele, baixo, sem me olhar.
Obedeci.
As conversas recomeçaram aos poucos, mas mais baixas, mais contidas. Pessoas cumprimentavam Matteo com sorrisos respeitosos, alguns inclinando ligeiramente a cabeça, outros tentando disfarçar a curiosidade sobre mim.
Quem é ela.
Por que está aqui.
O que faz ao lado dele.
Matteo decidiu então o próximo movimento.
— Vamos cumprimentar os noivos — disse, num tom neutro, como se anunciasse algo inevitável.
O meu corpo reagiu antes da mente.
Senti o sangue fugir-me do rosto, o estômago apertar-se, mas não disse nada. Matteo não perguntou se eu estava pronta. Já sabia que não estava. Isso não alterava o plano.
Caminhámos em direção ao centro da sala.
E então ele estava ali.
Ricardo virou-se ao notar a aproximação, o sorriso treinado pronto nos lábios, até que os olhos dele pousaram em mim. O efeito foi imediato. O sorriso perdeu firmeza, os músculos do rosto ficaram tensos, como se o cérebro demorasse um segundo a aceitar o que via.
A noiva ao lado dele continuou a sorrir, alheia por um instante, até seguir o olhar dele e encontrar o meu.
O silêncio entre nós foi absoluto.
Cinco anos.
Cinco anos resumidos naquele segundo.
Ricardo foi o primeiro a recuperar-se.
— Don DeLuca — disse, forçando cordialidade. — Que honra.
Matteo respondeu com um aperto de mão firme, controlado, sem calor.
— Parabéns pelo noivado — disse, com educação suficiente para ser cortante.
O olhar de Ricardo voltou-se para mim, rápido, confuso, carregado de algo entre raiva e incredulidade.
Matteo percebeu.
A mão dele pressionou-se levemente na minha lombar.
— Ivy — disse, sem elevar a voz. — Cumprimente-os.
A ordem foi simples.
Olhei para a rapariga ao lado de Ricardo. Tão nova. Tão claramente fora de qualquer compreensão real daquele mundo. O sorriso dela vacilou quando percebeu que eu não era uma convidada qualquer.
— Parabéns — consegui dizer, com a voz firme o suficiente para não me trair.
Ela respondeu com um aceno rápido, desconfortável, os olhos fugindo para Ricardo como se procurasse orientação.
Ricardo não disse nada.
O silêncio dele era mais barulhento do que qualquer insulto.
Matteo sustentou o momento apenas o suficiente para que fosse sentido. Depois inclinou ligeiramente a cabeça.
— Aproveitem a noite — disse.
Virou-se comigo antes que Ricardo pudesse reagir.
Só quando nos afastámos alguns passos é que senti o ar voltar aos pulmões.
— Preciso de ir à casa de banho — murmurei.
Matteo assentiu.
— Não demore.
Não era um cuidado.
Era vigilância.
A casa de banho estava vazia, fria, excessivamente iluminada. Apoiei as mãos na bancada de mármore, encarei o meu reflexo. O vestido estava intacto. O colar no lugar. Eu parecia… composta.
Mas os olhos denunciavam tudo.
Lavei as mãos, respirei fundo, endireitei os ombros como ele tinha mandado.
Quando saí, não esperava encontrá-lo ali.
Ricardo encostava-se à parede do corredor, um copo na mão, o olhar duro, amargo, sem qualquer máscara social.
— Nunca pensei vê-la aqui — disse, com desprezo. — Ainda menos assim.
Tentei passar por ele.
Ele bloqueou-me o caminho.
— O que foi, Ivy? — continuou, a voz baixa, venenosa. — Cansou-se de ser a esposa estéril e resolveu virar a p**a do Don?
O golpe foi direto.
— Afaste-se — disse, controlando a voz.
Ele riu-se.
— Sempre fria. Sempre inútil. Nem sei como ele a quer na cama. Aposto que continua sem saber o que fazer com um homem de verdade.
Antes que eu respondesse, a presença mudou.
Matteo surgiu atrás de mim como uma sombra sólida.
— Chega — disse.
A voz não foi alta.
Não precisou.
Ricardo virou-se, surpreso, e empalideceu ao reconhecer o tom.
— Don, eu só estava…
— Não estava — interrompeu Matteo. — Estava a ultrapassar um limite.
Colocou-se ao meu lado, não à frente. A mão pousou na minha cintura, firme, possessiva, pública.
— Você fala demais para alguém que deve tudo o que tem ao meu silêncio — continuou.
Ricardo engoliu em seco.
— Não volte a dirigir-se a ela — disse Matteo. — Nem hoje. Nem nunca.
O olhar dele endureceu.
— Se o fizer, perde muito mais do que um casamento.
O corredor parecia pequeno demais para conter aquele confronto.
Ricardo baixou os olhos primeiro.
— Claro, Don — murmurou.
Matteo não respondeu.
Virou-se comigo e começou a caminhar de volta para a sala, a mão ainda firme na minha cintura.
Só quando já estávamos longe o suficiente é que ele falou novamente.
— Não saia do meu campo de visão outra vez.
Não foi um pedido.
E, pela primeira vez naquela noite, eu não me senti pequena.
Senti-me protegida.
E perigosamente ligada ao homem que acabara de mostrar, sem esforço algum, que naquele mundo ninguém tocava no que lhe pertencia.