Capítulo 12

909 Words
A sala estava cheia demais. Não de pessoas. De olhares. Assim que Matteo entrou comigo, o burburinho mudou de tom, como se alguém tivesse baixado a música invisível do ambiente para que todos pudessem observar melhor. Senti-o antes de ouvir. O peso da atenção, a curiosidade afiada, a avaliação silenciosa que começava nos sapatos e subia devagar demais. Matteo avançou sem hesitar. Não me puxou. Não me empurrou. Limitou-se a caminhar com a segurança de quem sabe que o espaço lhe pertence, e eu acompanhei, o braço ainda ligado ao dele, consciente do colar frio contra a pele, do vestido a moldar-se ao corpo com precisão calculada demais para ser coincidência. — Respire — disse ele, baixo, sem me olhar. Obedeci. As conversas recomeçaram aos poucos, mas mais baixas, mais contidas. Pessoas cumprimentavam Matteo com sorrisos respeitosos, alguns inclinando ligeiramente a cabeça, outros tentando disfarçar a curiosidade sobre mim. Quem é ela. Por que está aqui. O que faz ao lado dele. Matteo decidiu então o próximo movimento. — Vamos cumprimentar os noivos — disse, num tom neutro, como se anunciasse algo inevitável. O meu corpo reagiu antes da mente. Senti o sangue fugir-me do rosto, o estômago apertar-se, mas não disse nada. Matteo não perguntou se eu estava pronta. Já sabia que não estava. Isso não alterava o plano. Caminhámos em direção ao centro da sala. E então ele estava ali. Ricardo virou-se ao notar a aproximação, o sorriso treinado pronto nos lábios, até que os olhos dele pousaram em mim. O efeito foi imediato. O sorriso perdeu firmeza, os músculos do rosto ficaram tensos, como se o cérebro demorasse um segundo a aceitar o que via. A noiva ao lado dele continuou a sorrir, alheia por um instante, até seguir o olhar dele e encontrar o meu. O silêncio entre nós foi absoluto. Cinco anos. Cinco anos resumidos naquele segundo. Ricardo foi o primeiro a recuperar-se. — Don DeLuca — disse, forçando cordialidade. — Que honra. Matteo respondeu com um aperto de mão firme, controlado, sem calor. — Parabéns pelo noivado — disse, com educação suficiente para ser cortante. O olhar de Ricardo voltou-se para mim, rápido, confuso, carregado de algo entre raiva e incredulidade. Matteo percebeu. A mão dele pressionou-se levemente na minha lombar. — Ivy — disse, sem elevar a voz. — Cumprimente-os. A ordem foi simples. Olhei para a rapariga ao lado de Ricardo. Tão nova. Tão claramente fora de qualquer compreensão real daquele mundo. O sorriso dela vacilou quando percebeu que eu não era uma convidada qualquer. — Parabéns — consegui dizer, com a voz firme o suficiente para não me trair. Ela respondeu com um aceno rápido, desconfortável, os olhos fugindo para Ricardo como se procurasse orientação. Ricardo não disse nada. O silêncio dele era mais barulhento do que qualquer insulto. Matteo sustentou o momento apenas o suficiente para que fosse sentido. Depois inclinou ligeiramente a cabeça. — Aproveitem a noite — disse. Virou-se comigo antes que Ricardo pudesse reagir. Só quando nos afastámos alguns passos é que senti o ar voltar aos pulmões. — Preciso de ir à casa de banho — murmurei. Matteo assentiu. — Não demore. Não era um cuidado. Era vigilância. A casa de banho estava vazia, fria, excessivamente iluminada. Apoiei as mãos na bancada de mármore, encarei o meu reflexo. O vestido estava intacto. O colar no lugar. Eu parecia… composta. Mas os olhos denunciavam tudo. Lavei as mãos, respirei fundo, endireitei os ombros como ele tinha mandado. Quando saí, não esperava encontrá-lo ali. Ricardo encostava-se à parede do corredor, um copo na mão, o olhar duro, amargo, sem qualquer máscara social. — Nunca pensei vê-la aqui — disse, com desprezo. — Ainda menos assim. Tentei passar por ele. Ele bloqueou-me o caminho. — O que foi, Ivy? — continuou, a voz baixa, venenosa. — Cansou-se de ser a esposa estéril e resolveu virar a p**a do Don? O golpe foi direto. — Afaste-se — disse, controlando a voz. Ele riu-se. — Sempre fria. Sempre inútil. Nem sei como ele a quer na cama. Aposto que continua sem saber o que fazer com um homem de verdade. Antes que eu respondesse, a presença mudou. Matteo surgiu atrás de mim como uma sombra sólida. — Chega — disse. A voz não foi alta. Não precisou. Ricardo virou-se, surpreso, e empalideceu ao reconhecer o tom. — Don, eu só estava… — Não estava — interrompeu Matteo. — Estava a ultrapassar um limite. Colocou-se ao meu lado, não à frente. A mão pousou na minha cintura, firme, possessiva, pública. — Você fala demais para alguém que deve tudo o que tem ao meu silêncio — continuou. Ricardo engoliu em seco. — Não volte a dirigir-se a ela — disse Matteo. — Nem hoje. Nem nunca. O olhar dele endureceu. — Se o fizer, perde muito mais do que um casamento. O corredor parecia pequeno demais para conter aquele confronto. Ricardo baixou os olhos primeiro. — Claro, Don — murmurou. Matteo não respondeu. Virou-se comigo e começou a caminhar de volta para a sala, a mão ainda firme na minha cintura. Só quando já estávamos longe o suficiente é que ele falou novamente. — Não saia do meu campo de visão outra vez. Não foi um pedido. E, pela primeira vez naquela noite, eu não me senti pequena. Senti-me protegida. E perigosamente ligada ao homem que acabara de mostrar, sem esforço algum, que naquele mundo ninguém tocava no que lhe pertencia.
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