A festa não se prolongou.
Matteo decidiu a hora de sair sem anunciar, sem justificar, e ninguém ousou questionar. Bastou um aceno curto, uma mão firme na minha cintura, e fomos conduzidos de volta ao carro como se aquele tivesse sido sempre o único desfecho possível.
Até esse momento, enquanto estive ao lado dele, tudo tinha sido educado. Demasiado educado. Sorrisos contidos, elogios vazios, mulheres que me olhavam de alto a baixo e depois desviavam o olhar com falsa cordialidade, como se a presença dele funcionasse como um aviso silencioso. Ao lado do Don, eu era intocável. Um território marcado.
Mas houve instantes, breves demais para chamarem atenção, em que ele se afastou para cumprimentar alguém, em que fiquei sozinha por segundos que pareceram longos. E nesses segundos, as máscaras caíram. Ouvi murmúrios cortados, risadinhas abafadas, palavras sussurradas com veneno suficiente para ferir sem escândalo. v***a. Aproveitadora. Comprada. Não ditas para mim, mas sobre mim, como se eu fosse um objeto em exposição. Nenhuma ousou repetir quando Matteo regressava ao meu lado. Voltavam a sorrir. Voltavam a ser civilizadas.
O trajeto até casa foi silencioso.
Não constrangedor.
Denso.
O motorista manteve os olhos fixos na estrada. Matteo sentou-se ao meu lado sem me tocar, mas a proximidade era suficiente para me manter consciente de cada respiração dele, de cada movimento contido, da forma como a presença dele preenchia o espaço sem precisar de gestos.
Foi aí que percebi. Matteo estava quieto demais. Não relaxado. Contido. Os ombros rígidos, a mandíbula cerrada, a mão apoiada na perna sem nunca fechar completamente os dedos, como se estivesse a conter algo que não devia libertar ali. A energia ao lado dele não era calma. Era tensa. Controlada à força.
Em determinado momento, o joelho dele tocou de leve no meu, um contacto breve, involuntário, e senti o corpo dele reagir num ajuste quase imperceptível, como se estivesse a recalibrar a própria postura. Não olhou para mim. Não disse nada. Mas havia ali qualquer coisa acumulada, nervosa, à espera do momento certo.
Quando chegámos à mansão, tudo voltou a assumir o ritmo dele.
Assim que entrámos, Matteo seguiu direto para o escritório, retirando o casaco pelo caminho, deixando-o sobre a cadeira sem sequer olhar para trás. Um gesto seco, funcional, como quem fecha uma porta mental antes de abrir outra.
— Vá descansar — disse apenas, sem se virar.
Subi as escadas em silêncio.
O quarto que me tinha sido destinado estava impecável, impessoal demais para ser confortável. Fechei a porta atrás de mim e apoiei as mãos no batente por um instante, sentindo o corpo finalmente reagir à tensão acumulada da noite inteira.
Só então as vozes voltaram. As palavras sussurradas. A sensação de ser observada, avaliada, julgada. Ao lado dele, eu era protegida. Sozinha, eu era alvo. E essa diferença pesava mais do que qualquer insulto direto.
Descalcei os sapatos.
Endireitei o vestido por reflexo.
O colar continuava ali, frio contra a pele, pesado demais para ser ignorado.
Passei os dedos por ele uma vez, devagar, sentindo o metal gelado, lembrando-me do gesto dele ao colocá-lo, da forma como tinha dito que me faltava alguma coisa. Não era um adorno. Era um símbolo. E eu sentia isso agora com clareza desconfortável.
Ainda não tinha decidido o que fazer com aquilo quando ouvi a porta abrir.
Não bateu.
Matteo entrou como se aquele espaço também lhe pertencesse.
Os nossos olhares cruzaram-se de imediato. Não foi casual. Não foi suave. Foi um impacto silencioso, direto, como se ambos soubéssemos exatamente o que o outro estava a pensar e nenhum estivesse disposto a ceder primeiro. Ele não desviou os olhos. Eu também não.
O olhar percorreu-me sem pressa, avaliador, atento a detalhes que eu não conseguia controlar. O cabelo caía solto sobre os ombros, ondulado, o corpo ainda preso à rigidez da noite, à postura que eu tinha mantido durante horas.
O maxilar dele estava cerrado. Não de raiva aberta, mas de contenção. Um músculo saltava junto à mandíbula sempre que o olhar dele demorava mais tempo do que devia sobre a renda da lingerie, sobre a curva dos meus quadris, sobre a forma como o meu corpo reagia apesar de eu estar imóvel. Aquilo não era desinteresse. Era esforço.
Havia nele a mesma tensão do carro. Não diminuíra. Apenas mudara de forma. Menos contida agora, mais focada. Como se tudo o que tinha sido reprimido durante a festa tivesse finalmente encontrado o lugar certo para existir.
Fechou a porta atrás de si e aproximou-se com passos lentos, controlados, sem urgência. Cada passo parecia calculado para não tocar, para não avançar rápido demais, e ainda assim o ar entre nós tornava-se mais denso a cada metro encurtado. Eu sentia isso no estômago, baixo, quente, uma tensão que não vinha do medo, mas da consciência plena de que ele estava ali e de que me via por inteiro.
— Venha — disse apenas.
Não era um convite.
Aproximei-me.
Ele parou à minha frente e, por um segundo suspenso, nenhum dos dois falou. O olhar dele desceu por um instante breve demais para ser educado, longo demais para ser ignorado, e voltou a subir lentamente até ao meu rosto, fixando-se nos meus olhos com uma intensidade que me fez prender a respiração. Ele não tocava, mas era como se o corpo dele já estivesse a fazê-lo.
Sem dizer mais nada, levou as mãos às minhas costas, encontrando o fecho do vestido com precisão. O toque foi firme, seguro, e o som do zíper a descer pareceu demasiado alto naquele silêncio carregado.
O vestido deslizou devagar pelos meus ombros, pelos braços, pelo corpo, até cair aos meus pés.
Fiquei ali, apenas de lingerie de renda, consciente demais da própria pele, da exposição, da forma como o corpo reagia à presença dele sem pedir permissão.
Matteo afastou ligeiramente as mãos, observando-me por um segundo longo, o olhar escuro, atento, sem pressa, como se estivesse a gravar aquela imagem.
Depois falou.
— Você é linda.
Nada mais.
Não foi elogio exagerado.
Não foi provocação.
Foi constatação.
E, pela primeira vez desde que tinha entrado naquele jogo, senti o impacto daquelas palavras atravessar-me com mais força do que qualquer ordem.