Rocco era impulsivo.
Perigosamente impulsivo.
Irritantemente impulsivo.
Mas o problema nunca foi a impulsividade.
O problema era que, escondido atrás daquela jaqueta de couro, daquela barba sempre por fazer e daquele sorriso de quem claramente nasceu para dar trabalho, existia um coração mole.
Mole demais.
Era o tipo de homem que brigava na rua se visse alguém maltratando um cachorro.
O tipo que atravessava a cidade às três da manhã porque você disse que estava triste.
O tipo que fingia ser durão, mas que guardava bilhetes, lembrava datas e fazia cara de i****a apaixonado quando achava que ninguém estava olhando.
E isso era injusto.
Porque se ele fosse apenas bonito, eu conseguiria resistir.
Se fosse apenas divertido, eu conseguiria resistir.
Se fosse apenas um motoqueiro inconsequente, eu conseguiria resistir.
Mas ele precisava ser tudo ao mesmo tempo.
O universo claramente tinha alguma coisa contra mim.
— Quer que eu passe na farmácia? — perguntou imediatamente.
Fechei os olhos.
Não.
Não.
Não.
Pelo amor de Deus.
Não.
— Posso comprar remédio.
— Não precisa.
— Posso comprar sopa.
— Não precisa.
— Posso fazer sopa.
— Você não sabe fazer sopa.
— Eu aprendo.
— Não.
— Eu invado seu apartamento.
— Isso é crime.
— Pequeno crime.
— Continua sendo crime.
— Vale a pena.
Meu Deus.
Aquele homem era impossível.
— Eu cuido de você.
— Não precisa.
— Fico aí.
— Não.
— Faço companhia.
— Não.
— A gente assiste filme.
— Não.
— Faço carinho.
— NÃO!
Gritei alto demais.
Muito alto.
Tão alto que até eu me assustei.
Meu coração simplesmente parou.
Porque imediatamente olhei para o celular do Lorenzo.
Ainda jogado entre os travesseiros.
Ainda no viva-voz.
Ainda conectado.
Ainda capaz de destruir minha vida.
O suor escorreu pela minha testa.
— Quer dizer...
Limpei a garganta.
— Não precisa, Rocco.
— Tem certeza?
— Absoluta.
— Você parece nervosa.
— Febre.
— Hummm.
— Muita febre.
— Estranho.
— O quê?
— Sua febre parece seletiva.
— Como assim?
— Quando eu falei em fazer carinho você gritou.
— Porque estou sofrendo.
— Você grita quando sofre?
— Muito.
— Interessante.
— Sou uma pessoa expressiva.
— Você é uma mentirosa horrível.
Meu coração tropeçou.
Só por um segundo.
Mas tropeçou.
Porque tecnicamente ele estava certo.
Muito certo.
Assustadoramente certo.
— Eu só preciso dormir.
— Posso dormir aí.
— NÃO!
— Tá vendo?
— Porque é contagioso!
— Não ligo.
— É uma virose muito forte.
— Sou resistente.
— Essa não.
— Essa não?
— Essa mata.
— Mata?
— Quase.
— Dramática.
— Estou à beira da morte.
— Você está exagerando.
— Estou escrevendo meu testamento.
— Mentira.
— Estou escolhendo quem vai ficar com minhas canecas.
— Tatiana.
— O quê?
— Você está sorrindo.
— Como você sabe?
— Eu sempre sei.
Meu Deus.
Eu odiava quando eles faziam isso.
Os dois.
Os dois tinham essa habilidade irritante de me conhecer.
Era inconveniente.
Muito inconveniente.
— Eu vou sobreviver.
— Então me deixa passar aí.
— Não.
— Cinco minutos.
— Não.
— Dois.
— Não.
— Trinta segundos.
— NÃO!
Silêncio.
Um silêncio enorme.
Perigoso.
Eu conhecia aquele silêncio.
Era o silêncio de quem estava pensando.
E homem pensando nunca era uma boa notícia.
— Você está escondendo alguma coisa.
Pronto.
Lá vinha.
A acusação oficial.
O início do interrogatório.
A queda do império romano.
— Não estou.
— Está.
— Não.
— Está.
— Não.
— Então por que não quer me ver?
— Porque estou doente!
— Você nunca recusou me ver antes.
Merda.
Merda.
Merda.
Essa foi boa.
Muito boa.
Boa demais.
— Eu...
— Viu?
— Estou cansada.
— Hummm.
— Muito cansada.
— Hummm.
— Exausta.
— Hummm.
— Você está me irritando.
— Agora parece você.
Idiota.
Completamente i****a.
Mas um i****a inteligente.
O que era pior.
Muito pior.
— Eu te ligo depois.
— Promete?
Meu coração apertou.
Porque a voz dele mudou.
Ficou mais baixa.
Mais suave.
Mais sincera.
E isso sempre me atingia.
— Prometo.
— Hoje?
— Hoje.
— Não vai sumir?
— Não.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Porque eu gosto de ouvir sua voz.
Pronto.
Lá estava.
O golpe.
O ataque emocional.
A facada sentimental.
Suspirei.
Fechei os olhos.
Por um segundo esqueci completamente do caos.
Dos celulares.
Das mentiras.
De tudo.
Porque aquele era o problema.
Os dois me faziam sentir especial.
De formas diferentes.
Mas faziam.
E talvez fosse exatamente por isso que eu estava tão ferrada.
— Eu também gosto da sua.
A verdade escapou.
Pequena.
Sincera.
Perigosa.
Do outro lado da linha ouvi a risada dele.
Aquela risada baixa.
Rouca.
Que sempre bagunçava meus pensamentos.
— Descansa então, gatinha.
— Vou descansar.
— E bebe água.
— Vou beber.
— E toma remédio.
— Vou tomar.
— E não esquece de mim.
Meu coração fez outra pirueta.
Idiota.
Meu coração era um completo i****a.
— Tchau, Rocco.
— Tchau, problema.
— Eu não sou um problema.
— Você é o maior problema da minha vida.
E então ele desligou.
Fiquei olhando para o celular durante alguns segundos.
Em silêncio.
Processando.
Respirando.
Tentando me recompor.
Tentando lembrar que ainda existia outro namorado na linha.
— MERDA!
Quase pulei da cama.
Corri para pegar o celular do Lorenzo.
Tirei do mudo tão rápido que quase joguei o aparelho pela janela.
Me joguei no colchão.
Ofegante.
Suando.
Parecendo alguém que tinha acabado de fugir de um assalto.
— Voltei, amor!
Minha voz saiu estranhamente alegre.
Muito alegre.
Alegre demais.
Suspeita.
— Tudo bem?
A voz calma de Lorenzo atravessou a linha.
Como sempre.
Controlada.
Elegante.
Perfeita.
— Claro!
— Você parece cansada.
— Cansada?
— Sim.
— Não.
— Sua respiração está acelerada.
Meu Deus.
Claro que ele percebeu.
Lorenzo percebia tudo.
Tudo.
Uma vez ele descobriu que eu estava estressada porque eu usei um ponto final numa mensagem.
UM PONTO FINAL.
Quem nota isso?
Psicopatas.
E Lorenzo.
— Eu tropecei.
A mentira saiu antes que eu pudesse pensar.
— Tropeçou?
— No tapete.
— Outra vez?
Pisquei.
— Outra vez?
— É a terceira vez este mês.
Merda.
Ele lembrava.
Claro que lembrava.
— O tapete me odeia.
Ouvi uma risada baixa.
Aquela risada elegante.
Controlada.
Refinada.
A risada de quem nunca derrubou um abajur tentando administrar dois namorados ao mesmo tempo.
— Você é adorável.
Mentira.
Eu era um desastre.
Mas deixei passar.
Porque ele claramente não estava preparado para essa conversa.
— Hoje à noite meu motorista passará às oito.
— Certo.
— Reservei uma mesa naquele restaurante italiano.
Meu coração deu um pulinho.
— O novo?
— Sim.
— Aquele impossível de conseguir reserva?
— Eu conheço o dono.
Claro que conhecia.
Lorenzo provavelmente conhecia metade da cidade.
E a outra metade devia dinheiro para ele.
— Use o vestido vermelho.
Fechei os olhos.
Porque ele sempre lembrava do vestido vermelho.
Sempre.
— Estarei pronta.
— Ótimo.
— Obrigada pelo café.
— Qualquer coisa por você.
Ai.
Que homem.
Que homem complicado.
Porque ele não fazia nada errado.
Nada.
E isso tornava tudo mais difícil.
Muito mais difícil.
Quando finalmente desligou, deixei o celular cair sobre o colchão.
Fiquei olhando para o teto.
Imóvel.
Exausta.
Derrotada.
Eram apenas seis e quarenta da manhã.
SEIS E QUARENTA.
E eu já tinha sobrevivido a duas ligações.
Uma virose falsa.
Um quase infarto.
Trinta mentiras.
Uma crise nervosa.
E um interrogatório digno do FBI.
Se aquilo era o começo do dia...
Eu nem queria imaginar como seria o resto.
Porque uma coisa era certa.
Mais cedo ou mais tarde.
Esse castelo de cartas ia desmoronar.
E quando acontecesse...
Provavelmente cairia bem em cima da minha cabeça.