Sentei-me na cama num pulo tão violento que quase atravessei a cabeceira.
O cobertor voou para um lado.
Meu travesseiro foi para o outro.
E o abajur?
O abajur morreu.
Ou pelo menos foi o que pareceu quando minha mão acertou a coitada da luminária durante o surto e ela despencou da mesa de cabeceira com um estrondo assustador.
— AI, MEU DEUS!
CRASH!
A lâmpada continuou acesa no chão.
Torta.
Piscando.
Criando uma iluminação digna de interrogatório policial.
Parecia que eu tinha acabado de ser presa pela Polícia Federal por crimes contra a monogamia.
Mas eu não tinha tempo para lamentar a morte do abajur.
Porque os dois celulares continuavam tocando.
Ao mesmo tempo.
Sem piedade.
Sem respeito.
Sem amor ao próximo.
Com a agilidade de uma mulher que estava prestes a perder tudo, peguei o celular preto da esquerda com uma mão.
O vermelho da direita com a outra.
Meu coração batia tão rápido que parecia um tambor de escola de samba.
Juro que consegui ouvir.
TUM.
TUM.
TUM.
TUM.
Eu estava a dois segundos de sofrer um infarto romântico.
Respirei fundo.
Uma vez.
Duas.
Três.
Não adiantou.
Continuei surtada.
Então apertei o botão verde do Lorenzo.
No mesmo segundo coloquei o celular do Rocco no mudo.
Era uma operação militar.
Uma missão impossível.
Tom Cruise deveria estar assistindo aquilo e tomando notas.
Levei o celular do Lorenzo ao ouvido.
— Bom dia, amor...
Minha voz saiu doce.
Mansa.
Carinhosa.
Parecia até que eu era uma mulher equilibrada emocionalmente.
A maior mentira daquela conversa.
— Bom dia, minha rainha.
Pronto.
Aí estava ele.
Lorenzo Ferraz.
O homem que falava como se tivesse saído de um comercial de relógios suíços.
Eu tinha certeza absoluta de que aquele homem acordava bonito.
Nem olheira ele tinha.
Era ofensivo.
Profundamente ofensivo.
— Espero não ter interrompido seu descanso.
— Imagina...
Mentira.
Interrompeu sim.
Eu estava milionária numa ilha paradisíaca no meu sonho.
Agora estava à beira de uma parada cardíaca.
— Sei que você trabalhou até tarde ontem.
— Trabalhei.
Outra mentira.
Passei duas horas assistindo vídeos de gatos dançando.
— Você se dedica tanto.
Meu Deus.
Ele acreditava em mim.
Isso tornava tudo pior.
Muito pior.
Porque Lorenzo era bom.
Bom demais.
E eu estava ali.
Administrando uma fraude emocional em tempo integral.
— Você é um amor.
— E você é extraordinária.
Meu coração apertou.
Um pouquinho.
Só um pouquinho.
Mas apertou.
Foi exatamente nesse momento que o celular do Rocco começou a vibrar loucamente na minha outra mão.
Mesmo no silencioso parecia um terremoto.
A foto dele aparecia na tela.
Sem camisa.
Encostado na moto.
Sorrindo.
Aquele sorriso de homem que acorda e escolhe causar problemas.
— Excelente — continuou Lorenzo. — Liguei para avisar que seu café chegará em trinta minutos.
Pronto.
Lá vinha.
O Lorenzo sempre fazia essas coisas.
— Café?
— Daquela padaria francesa que você gosta.
Meu estômago roncou.
Alto.
Muito alto.
Tão alto que até eu me assustei.
— Croissants quentinhos.
Meu estômago:
GRRRRRRR.
— Geleia artesanal.
GRRRRRRR.
— Suco natural.
GRRRRRRR.
— E aquele pão recheado que você ama.
Meu estômago praticamente latiu.
Eu estava prestes a chorar.
Mas não por emoção.
Por fome.
Enquanto isso o celular do Rocco vibrava feito um possuído.
A caixa postal estava chegando.
Eu precisava agir.
Rápido.
Muito rápido.
— Meu Deus, amor, você é maravilhoso!
— Faço questão.
— Mas preciso correr ao banheiro!
— Agora?
— Emergência nacional.
— Está tudo bem?
— Não sei.
— Quer que eu chame um médico?
Claro que queria.
Porque Lorenzo resolvia tudo com médicos.
Se eu dissesse que estava triste ele provavelmente marcaria consulta com três psicólogos e um coach.
— Não precisa!
— Tem certeza?
— Absoluta.
— Certo.
— Você se importa se eu colocar no viva-voz?
— Claro que não.
— Já volto.
— Estarei esperando.
E esse foi o momento exato em que minha vida entrou em modo sobrevivência.
Mutei Lorenzo.
Joguei o celular dele nos travesseiros.
Quase derrubei no chão.
Quase morri.
Peguei o celular do Rocco.
Tirei do mudo.
— ALÔ?!
— p***a, TATIANA!
Meu ouvido quase explodiu.
— Achei que você tinha morrido!
— Que exagero!
— Estou ligando há dez anos!
— Foram dois minutos!
— Pareceram dez anos!
Revirei os olhos.
Porque aquele era o Rocco.
Drama.
Caos.
Energia.
Problemas.
Tudo junto.
— Você está pilotando?
— Claro.
— Então presta atenção na estrada!
— Estou prestando.
— Você pode morrer.
— Você fala isso toda semana.
— Porque você me dá trabalho toda semana.
— Você me ama.
— Cala a boca.
— Me ama.
— O que você quer?
— Estou na estrada.
Meu coração afundou.
— Tá.
— O dia está lindo.
— Tá.
— O céu está azul.
— Tá.
— O vento está perfeito.
— Tá.
— Então desce.
Silêncio.
— O quê?
— Desce.
— Descer para onde?
— Para a rua.
— Por quê?
— Porque vou te buscar.
Meu cérebro travou.
— Você vai o quê?
— Te buscar.
— Agora?
— Sim.
— São seis e meia da manhã!
— Exatamente.
— Pessoas normais estão dormindo!
— Pessoas normais não são você.
O pior?
Ele tinha razão.
Eu odiava quando ele tinha razão.
— Rocco...
— Sim?
— Não.
— Sim.
— Não.
— Sim.
— Eu tenho compromisso.
— Com quem?
Pronto.
Lá vinha.
A pergunta.
A pergunta proibida.
A pergunta assassina.
A pergunta que podia destruir meu império de mentiras.
— Com ninguém.
— Então pode vir.
— Comigo mesma.
— Você vai sair com você mesma?
— Talvez.
— Você está mentindo.
— Não estou.
— Está.
— Não.
— Está.
— Não.
— Está.
Meu Deus.
Eu namorava dois investigadores.
Era isso.
Era a única explicação.
— Eu estou doente!
Disparei.
Sem pensar.
Sem planejamento.
Sem vergonha.
— O quê?
— Muito doente.
— Quanto?
— Muito.
— Isso não responde.
— Estou morrendo.
— Dramática.
— Estou com febre.
— Quanto?
— Quarenta graus.
Silêncio.
— Tatiana.
— O quê?
— Com quarenta graus você estaria no hospital.
— Trinta e nove.
— Melhorou rápido.
Maldito.
Completamente maldito.
Comecei a andar pelo quarto.
Descalça.
Nervosa.
Suando.
Até que pisei em alguma coisa.
— AI!
— O que foi?
— Nada.
— Você gritou.
— Não gritei.
— Eu ouvi.
Olhei para baixo.
Era o abajur.
O abajur que eu mesma tinha assassinado cinco minutos antes.
— Você está escondendo alguma coisa.
— Não estou.
— Está.
— Não.
— Está.
— ROCCO!
— TATIANA!
Meu Deus.
Eu não ia sobreviver àquele dia.
Nem eram sete da manhã.
E eu já estava mentindo para dois homens, discutindo com um motoqueiro e investigando a cena do crime do meu próprio abajur.
O recorde pessoal de caos tinha acabado de ser quebrado.
E o pior?
O dia estava só começando.