Capítulo 1: O Pacto e o Invisível
Capítulo 1: O Pacto, o Invisível e a Transformação
Dizem que a adolescência é a melhor fase da vida, mas quem diz isso certamente não usava óculos de graus altíssimos, um aparelho ortodôntico que parecia uma cerca elétrica na boca e não lutava diariamente contra uma colônia de espinhas teimosas na zona T do rosto.
Eu era Ana Carolina. A CDF da sala. A garota invisível que passava os intervalos com a cara enfiada em livros de matemática avançada, torcendo para que o sinal batesse logo. Minha única âncora na realidade daquela escola era Victoria.
Vick era o meu oposto exato. Aos 17 anos, ela era uma rebelde sem causa assumida, dona de um cabelo azul elétrico cortado repicado, jaqueta de couro e uma atitude descolada que afastava os professores e atraía qualquer garoto a um raio de três quilômetros. Nós éramos uma dúvida improvável, mas funcionávamos. Havia apenas uma regra sagrada entre nós, um pacto silencioso esculpido em pedra: ex-namorado de amiga é intocável.
O problema era que o atual namorado dela fazia meu coração errar as batidas de um jeito perigoso.
Sérgio Alexandre. O "Xandy".
Ele não era apenas o garoto mais bonito do colégio; ele era uma força da natureza. Inteligente, revolucionário e com um magnetismo que parecia hipnotizar as pessoas. Quando Xandy passava pelo corredor, as garotas literalmente paravam de respirar. Bastava um "oi" murmurado com aquela voz rouca para que metade do time de vôlei feminino fingisse desmaio.
E eu? Eu apenas observava. De longe. Sempre mantendo minha postura firme, os livros apertados contra o peito como um escudo protetor.
O que eu não sabia — ou fingia não notar — era que Xandy sentia o meu olhar. Ele sabia que eu o observava. Às vezes, pelo canto do olho, eu o pegava me encarando de volta, com um meio sorriso enigmático que ele nunca deixava transparecer para mais ninguém. Xandy gostava de dificuldade. Quanto mais difícil e misteriosa a situação, mais interessado ele ficava. Para ele, o namoro com a Vick... bem, ambos sabiam que era apenas um lance. Algo passageiro, sem futuro, que terminaria assim que o ano letivo acabasse.
Com o tempo, por ironia do destino, acabamos nos tornando amigos. Ou quase isso. Toda vez que Vick e ele tinham uma discussão homérica — o que acontecia pelo menos duas vezes por semana —, eles vinham "alugar" os meus ouvidos. Eu era a conselheira, a mediadora neutra.
— Ana, diz para ele que ele está sendo um i****a! — Vick gritava, bufando.
— Eu só acho que você está exagerando, Victoria — Xandy respondia, calmo, antes de olhar para mim, buscando cumplicidade. — O que você acha, Carol?
Aquele apelido na voz dele me desarmava por completo. Enquanto eu passava horas ouvindo os desabafos de ambos, tudo o que eu realmente queria era o direito de estar no lugar da Vick. Queria poder sentar ao lado dele no banco da praça, passar a mão pelos seus cabelos, fazer um cafuné e dizer que tudo ficaria bem. A Vick tinha tudo isso à disposição... mas quase nunca valorizava.
— Carol, acorda! — A voz de Vick me puxou dos meus devaneios, estalando os dedos na frente dos meus óculos. Estávamos na última semana de aula antes das férias, e o ano seguinte seria o nosso último antes da formatura e da faculdade. — Você não ouviu nada do que eu disse, né?
— Desculpa, Vick. Estava pensando na matéria de economia. O que você disse?
Vick abriu um sorriso conspiratório, os olhos brilhando de excitação.
— Esquece os livros por cinco minutos. Sábado à noite. Seus pais vão viajar para aquele congresso, não vão?
Senti um frio na barriga.
— Vão... Por quê?
— Porque nós vamos dar a maior festa que essa escola já viu. E vai ser na sua casa. Está na hora de fazer a CDF virar popular, amiga! — Vick bateu palmas, animada. — Espera aí, preciso ir ao banheiro retocar esse batom antes do sinal bater. Não sai daí!
Vick jogou a mochila no banco e saiu saltitando pelo corredor em direção ao banheiro feminino, me deixando sozinha no pátio. Ou pelo menos, era o que eu achava.
Um segundo depois, uma sombra alta se projetou sobre os meus livros. Olhei para cima, ajeitando os óculos no nariz, e meu coração deu um solavanco. Era o Xandy. Ele estava com as mãos nos bolsos da calça jeans, me encarando com aquele olhar penetrante que parecia ler a minha alma.
— Uma festa na sua casa, Carol? — Ele perguntou, sentando-se no lugar que Vick tinha acabado de deixar vago. Ele se inclinou um pouco na minha direção, e o aroma do perfume dele me deixou zonza. — Não sabia que a garota mais certinha do colégio gostava de quebrar as regras.
Senti minhas bochechas arderem de vergonha, tentando disfarçar o nervosismo enquanto fechava o caderno.
— Não gosto. É ideia da Vick — respondi, com a voz um pouco trêmula, mas tentando manter minha postura firme de sempre. — Você sabe como ela é. Só aceitei porque... bem, no ano seguinte já é a formatura, e eu queria pelo menos uma vez tentar ser um pouco mais integrada. Ser um pouco... popular.
Xandy soltou uma risada baixa, um som rouco e charmoso que fez meu estômago revirar. Ele balançou a cabeça de leve, olhando nos meus olhos de um jeito que ninguém mais olhava.
— Popularidade é superestimada, Carol. Esse povo todo só se importa com aparências — ele disse, com a voz mais mansa, quase num sussurro. Ele esticou o braço e, com a ponta dos dedos, tocou de leve na armação dos meus óculos, ajeitando-os com cuidado. O toque dele na minha pele, mesmo que rápido, foi como um choque elétrico. — Você não precisa disso. Eu acho que você é interessante exatamente do jeito que é. Bem mais interessante do que quem tenta chamar atenção o tempo todo.
Prendi a respiração. O que ele queria dizer com aquilo? Ele sabia o efeito que causava em mim? Xandy adorava um desafio, e o fato de eu sempre tentar agir de forma fria perto dele parecia instigá-lo ainda mais.
Antes que eu pudesse formular qualquer resposta, o barulho de saltos ecoou pelo corredor. Vick estava voltando. Xandy se afastou milhas em um segundo, voltando à sua postura descompromissada de sempre, mas piscou discretamente para mim antes que a namorada se aproximasse.
— Voltei! — Vick anunciou, passando o braço pelo pescoço de Xandy, sem notar absolutamente nada do que havia acabado de acontecer. — E aí, amor, estava convencendo a Carol a não amarelar no sábado?
— Claro — Xandy sorriu, mas seus olhos ainda estavam fixos em mim. — Eu não perderia essa festa por nada, Carol.
A promessa daquela festa de sábado flutuava sobre a minha cabeça como uma nuvem de tempestade carregada, mas antes que o fim de semana se aproximasse para me dar a chance de tentar ser "popular", o destino resolveu colocar meu autocontrole à prova de um jeito c***l e refinado.
Na quarta-feira, o professor de Sociologia entrou na sala com aquela pilha de folhas grampeadas e anunciou um trabalho obrigatório com peso de prova bimestral. O tema era denso: "Revoluções Sociais do Século XX".
O pânico silencioso me dominou quando ele começou o sorteio dos grupos. Rezei mentalmente para cair com qualquer um dos nerds da primeira fileira, mas a roleta russa do colégio foi implacável. Meu nome foi lido ao lado de Victoria e Sérgio Alexandre.
Como eu era a CDF incontestável da turma, a divisão do trabalho não precisou de mais do que dois segundos para ser definida. Vick soltou um suspiro de alívio, jogando as mãos para o alto, e logo tratou de se esquivar de qualquer esforço intelectual.
Ela prometeu que cuidaria da "identidade visual" dos cartazes e da caligrafia dos títulos, o que significava que eu e Xandy ficaríamos completamente responsáveis pela pesquisa bibliográfica, pelo resumo das teorias políticas e pela redação final.
Naquela mesma tarde, cruzamos o pátio sob o sol escaldante e fomos direto para a casa da Vick.
A tarde que se seguiu foi uma tortura psicológica requintada. Sentados em círculo no chão de taco do quarto dela, cercados por enciclopédias pesadas, folhas de papel almaço e cartolinas brancas, a proximidade física de Xandy era quase magnética.
Toda vez que nossas mãos se esbarravam por acidente ao puxarmos o mesmo dicionário, ou quando ele se inclinava um pouco mais na minha direção para ler as anotações que eu rabiscava à caneta, meu estômago dava nós apertados.
Eu conseguia sentir o calor que emanava do corpo dele, o cheiro sutil de desodorante misturado com o perfume amadeirado marcante que parecia impregnar o ambiente.
O pior de tudo era notar os contrastes daquela dinâmica. Enquanto Vick passava metade do tempo deitada de bruços na cama, com os fones de ouvido no volume máximo e balançando as pernas calçadas com meias arrastão enquanto respondia mensagens no celular, Xandy debatia as teorias revolucionárias comigo.
Ele não estava apenas cumprindo tabela. Havia um brilho genuíno e afiado no olhar dele que me fascinava. Xandy era brilhante, questionador e, ao contrário do resto dos garotos populares que me tratavam como uma máquina de colar respostas, ele me ouvia. Ele me tratava com um respeito intelectual profundo, sustentando meus olhares de um jeito que me fazia flutuar e esquecer, por alguns segundos, o tamanho dos meus óculos ou o metal do meu aparelho.
Quando o relógio marcou quase seis da tarde, a cabeça de todos já estava fervendo.
— Gente, pelo amor de Deus, meu cérebro virou geleia — Vick reclamou, jogando o celular de lado e se esticando como um gato na cama. — Vou lá embaixo na cozinha ver se a empregada fez bolo e pegar um refrigerante com gelo para a gente. Carol, pelo amor de Deus, segura o seu namorado intelectual e não deixa o Xandy enfiar mais nenhum texto de Karl Marx nessa cartolina, senão eu vou entrar em greve!
Ela riu, levantou-se num salto e bateu a porta do quarto ao sair.
No segundo em que a fechadura deu o estalo, o silêncio no quarto mudou de cor e de densidade. Ficou pesado, quase sufocante. O som da respiração de Xandy parecia mais alto. Ele largou a caneta esferográfica sobre o tapete, esticou as pernas compridas e virou o rosto lentamente na minha direção, me encarando fixamente com aquele meio sorriso enigmático que sempre me desarmava.
— Você realmente leva tudo isso muito a sério, não é, Carol? — Ele murmurou, a voz mansa, descendo um tom, como se estivéssemos compartilhando um segredo proibido.
— Alguém tem que levar — brinquei, sentindo o suor frio brotar nas palmas das minhas mãos. Ajeitei os óculos no nariz com o dedo indicador, um tique nervoso que eu odiava. — Eu preciso manter minha média. Quero tirar nota máxima nesse bimestre.
— Você não precisa se esforçar tanto para ser notada, Carol. Eu já te disse isso no pátio — Xandy disse, e o tom de sua voz fez meu coração falhar uma batida.
Ele começou a se arrastar pelo tapete, diminuindo o espaço que nos separava até ficar a poucos centímetros de mim. Meus sentidos entraram em alerta máximo. Xandy esticou a mão direita e, com uma delicadeza inacreditável que parecia não combinar com sua postura de bad boy revolucionário, afastou uma mecha rebelde do meu cabelo castanho claro que tinha caído sobre os meus olhos. A ponta dos dedos dele deslizou de leve na pele da minha bochecha. Foi um toque rápido, mas que me causou um choque elétrico violento na espinha.
— Você brilha por conta própria, Carol. Sem precisar de nenhuma nota dez ou aprovação desse bando de idiotas da escola — ele sussurrou, os olhos escuros cravados diretamente nos meus, descendo por um segundo para a minha boca.
Meu coração martelou tão desesperadamente contra as minhas costelas que tive certeza de que ele conseguiria ouvir o som. Ficamos ali, congelados no tempo, nos encarando por segundos que pareceram uma eternidade inteira. Havia uma eletricidade perigosa, crua e proibida estalando entre nós dois. Eu queria tanto, com cada célula do meu corpo, que ele avançasse e me beijasse... mas o fantasma da Vick, do pacto de amizade e da regra de que ex ou atual de amiga é território intocável pairava no ar como uma barreira invisível.
Antes que a tensão se rompesse de vez, o barulho da maçaneta girando nos sobressaltou. Vick entrou de forma espalhafatosa no quarto, equilibrando uma bandeja de plástico com copos de vidro e uma garrafa de Coca-Cola, quebrando o feitiço instantaneamente. Xandy recuou num piscar de olhos, apoiando as costas na parede e voltando à sua pose descompromissada e entediada, como se nada tivesse acontecido.
Terminamos de colar as últimas gravuras no início da noite. Juntei minhas coisas apressada, me despedi deles com um aceno tenso e saí dali correndo, precisando urgentemente de ar fresco. No entanto, quando eu já estava a dois quarteirões de distância da casa dela, tateei o fundo da minha mochila e percebi o desastre absoluto: na minha pressa para fugir daquela tensão, eu tinha esquecido o meu estojo de canetas e, pior, o caderno principal com o rascunho final que o professor recolheria logo no primeiro tempo da manhã seguinte. Eu não tinha escolha. Tive que dar meia-volta.
Quando cheguei de volta à fachada da casa da Vick, percebi que o portão de ferro da frente estava apenas encostado, sem o trinco. O carro da mãe dela não estava na garagem. Não querendo incomodar ninguém ou parecer a nerd inconveniente tocando a campainha àquela hora, decidi entrar silenciosamente e dar a volta pelo corredor lateral externo de cimento. Aquele caminho passava direto pela janela baixa do quarto de hóspedes do térreo — um cômodo dos fundos onde a Vick e o Xandy costumavam passar os fins de tarde jogando videogame na TV antiga.
Foi exatamente ali, na metade do corredor escuro, que meus pés travaram no chão. Sons abafados começaram a ecoar pela fresta do basculante da janela. Gemidos sôfregos, uma respiração pesada e arfante, e o estalo ritmado, inconfundível e úmido de pele contra pele. Meu mundo inteiro desabou e congelou no mesmo instante. Uma curiosidade mórbida, dolorosa e completamente autodestrutiva tomou conta dos meus membros. Eu sabia que deveria dar meia-volta e ir embora, mas meus pés não obedeciam.
A janela estava posicionada acima da linha dos meus olhos por causa do desnível do terreno, mas logo ali ao lado, encostados no muro de chapisco, havia dois caixotes de madeira velhos, daqueles de feira, que o pai da Vick usava para guardar vasos e ferramentas de jardinagem.
Com o coração subindo até a garganta e a boca seca, arrastei os dois caixotes com o máximo de cuidado para não fazer barulho contra o cimento, empilhando um em cima do outro bem embaixo da janela. Subi devagar, sentindo as pernas tremerem como geleia e os joelhos estalando de puro nervosismo. Ajeitei meus óculos com a ponta dos dedos trêmulos e espiei através da fresta estreita da cortina de linho entreaberta.
O impacto visual do que vi quase me arrancou o oxigênio dos pulmões. O quarto estava na penumbra, iluminado apenas pela luz azulada da TV ligada no menu do jogo. Vick estava montada no colo de Xandy, de costas para a janela, com o cabelo azul completamente bagunçado caindo pelos ombros nus. Sua blusa de alça estava jogada no chão. Xandy estava sentado na beirada da cama, sem camisa, com as mãos grandes e firmes enterradas com força na cintura dela, ditando o ritmo. Os olhos dele estavam fechados, as sobrancelhas franzidas em uma expressão de puro prazer carnal, e os músculos bem definidos das suas costas travavam e relaxavam a cada movimento bruto. Era uma cena de sexo selvagem, urgente, despida de qualquer romantismo e cheia de posse.
Ver o garoto por quem eu chorava todas as noites em segredo, o mesmo que minutos atrás tinha acariciado meu rosto com tanta ternura, entregue daquela forma carnal à minha melhor amiga foi como receber uma facada certeira e giratória no meio do peito. O ciúme doentio, a humilhação e a rejeição se misturaram em uma queimação ácida e horrível que subiu pela minha garganta, ameaçando me fazer vomitar.
Mesmo sofrendo o pior tormento da minha vida, eu não conseguia desviar os olhos. Eu estava hipnotizada pelo meu próprio sofrimento, assistindo à destruição das minhas ilusões juvenis em tempo real.
De repente, no ápice do movimento, Xandy jogou a cabeça para trás e abriu os olhos. Por um milésimo de segundo terrível, a cabeça dele girou levemente na direção do vidro da janela. O pânico mais puro e primitivo me dominou por completo. No susto agonizante de achar que ele tinha me flagrado ali, espiando-os como uma voyeur patética, dei um passo brusco e desajeitado para trás.
Foi o meu erro. O caixote de cima derrapou na superfície instável do caixote de baixo.
CRACK! BAM!
A madeira velha estalou alto, partindo-se ao meio, e eu desabei de costas no chão de terra e brita do corredor lateral, derrubando um vaso de cerâmica vazio que estava por perto. O barulho ecoou pelas paredes do corredor como uma explosão.
— Que p***a foi essa?! — A voz de Xandy ecoou de dentro do quarto, interrompendo os gemidos da Vick, soando abrupta, alarmada e perigosamente próxima.
Entrando em estado de choque e com a adrenalina injetada direto nas veias, ignorei a dor aguda que subiu pelo meu tornozelo torcido e o ardido do joelho que tinha acabado de rasgar na brita. Juntei o caderno e o estojo que haviam caído ao meu lado num movimento desesperado e animal. Levantou-me tropeçando nas próprias pernas e saí correndo pelo corredor lateral em direção à rua antes que a porta dos fundos pudesse se abrir e revelar o meu rosto culpado.
Corri sem olhar para trás por cinco quarteirões inteiros, até minhas pernas vacilarem e meus pulmões queimarem por falta de ar. Parei embaixo de um poste de luz quebrado, apoiando as mãos nos joelhos ralados, enquanto as lágrimas pesadas finalmente transbordavam pelos meus olhos, borrando e embaçando completamente a minha visão por trás das lentes grossas dos óculos.
Eu era a Carol. A CDF invisível, esquisita e desajeitada. E agora, além de invisível, eu carregava um segredo imundo e o coração completamente despedaçado em mil pedaços no chão.
O sábado da festa chegou num piscar de olhos... mas os anos seguintes passaram ainda mais rápido, operando uma mudança drástica. O tempo seguiu seu curso e a dor daquela noite se transformou no combustível para a minha maior metamorfose.
Hoje, aquela garota desajeitada ficou no passado. Restou apenas a cor viva dos meus olhos verdes. Meu sorriso era perfeito, moldado por lentes de porcelana alinhadas, sem sinal de qualquer aparelho. Meus cabelos castanhos claros agora eram fios loiros encaracolados, volumosos e bem cuidados, que batiam na altura da minha cintura.
O meu corpo não era mais o de uma menina magrela e indefesa; eu havia me transformado em um monumento escultural. Eu malhava religiosamente todos os dias na academia, descontando cada gota de frustração no ferro. Fazia aulas de luta algumas vezes por semana para garantir que ninguém nunca mais me acuasse, e corria quilômetros na praia todo final de semana para manter o foco.
Eu tinha as ferramentas, tinha o dinheiro, tinha o cérebro e, agora, tinha a aparência de uma mulher fatal.
Olhei para o reflexo no espelho do meu novo apartamento, ajeitando a saia social justa antes de ir para a aula de economia daquela faculdade de elite. Eu estava pronta para o mundo. Mas a pergunta que ecoava na minha mente, enquanto eu olhava para o visor do celular com o feed da Vick aberto, era apenas uma:
Será que o mundo estava pronto para mim?