Fabrício
Já revirei essa p***a umas quatro vezes e nada desse telefone.
- Então tá bom... Eu subi aqui achando que tu mandava em alguma coisa aqui dentro. Mas pelo jeito tu tá valendo o mesmo tanto que eu aqui. Nada.
Levanto o olhar segurando o riso porque foi engraçada essa p***a.
Olho pra mina e depois pro Roxo que vira a cadeira rindo pra mim.
Roxo: O que eu faço com essa p***a, Gigante? Fala tu. - me pergunta, e eu rio negando, jogando a visão de novo na mina.
Abaixo o olhar e volto a desenrolar o bagulho.
Meu celular vibra no bolso. Pego, vejo que é mensagem da Rayssa. Fecho a tela, taco o f**a-se e volto pro foco.
Eles continuam trocando ideia e eu finalmente acho a p***a do número.
Anoto no celular e enfio o papel de volta na gaveta.
Roxo: Deixa essas duas lá na entrada do morro.
Farinha: Tô ocupado com outros bagulhos, pede pra um dos vapor aí. - falo já metendo o pé da sala e ele me chama de volta.
Roxo: Farinha! - me viro pra ele no reflexo já do lado de fora da sala.
Roxo: Pega cem mil aí e manda o Clebinho deixar com o Taveira. - fala de braços cruzados. - Tem que dar a ração pros rato, se não vão vir brotar aqui pra fazer inferno. E tu, D2, pede pro Tico levar as mina de volta. - ele passa o papo pro D2 que assente e já mete marcha, mas volta ligeiro.
D2: Ele tá vindo, patrão. Mas vai ver se desenrola mais alguém. Porque ele tá sozinho. - fala guardando o rádio o rádio.
Roxo: p**a que pariu!
- Não precisa me levar não. Eu vou andando. Perguntando pras pessoas na rua.
Farinha: Tu já veio aqui antes? - pergunto e ela se cala - Vai ir andando como? Tá doidona? - mando na tora.
- Com as pernas! - a doidinha diz estreitando os olhos cheia de ironia.
Olho pro Roxo que leva a mão na boca segurando o riso e roda a cadeira devagar.
- Cecília! - a outra sussurra apertando o braço dela, tentando conter a doida.
Estreito os olhos pra ela e desço o olhar até a tatuagem no braço dela.
Farinha: Bora lá. Eu deixo a mina lá embaixo. Mas tô de moto. - aviso ajeitando a aba do boné.
Roxo: O Tetéu leva a Índia. - solta e eu vejo a mina ficar toda coradinha.
Esses caras é f**a. Rio negando e vou saindo.
Roxo: Agradece não?
Cecília: Te agradecer por ter feito nada? - a mina rebate de voadora.
Tem noção do perigo não.
Nem sei como o Roxo deixou passar essa p***a. Geralmente ele não dá moral pra esse tipo de caôzada não.
A mina brincou mais que a brincadeira.
Saio do portão da boca e fecho os olhos meio que no reflexo, claridade fodida batendo de frente.
O celular vibra de novo. Pego, confiro a mensagem e guardo.
Farinha: Esses cuzão acha que eu tô com tempo pra esses bagulho. - reclamo estressado, me ajeitando no banco da moto.
- Devem tá com muito tempo mesmo, pra ficarem roubando carro de trabalhador - fala soltando a indireta.
Olho pra ela enquanto ajeito o boné na cabeça e vejo a outra já subindo na garupa do Tetéu.
E eles saem acelerando morro abaixo.
Farinha: Olha aqui, eu não sei quem foi o maluco que roubou teu bagulho. Mas pode ter certeza que não foi eu. Até porque minha fita é assalto a banco, sequestro, homicídio... Tá ligada? - falo no veneno - Não tenho tempo pra ficar roubando carro de patricinha não.
Vejo ela engolir seco e abaixar a bolinha dela.
- Eu só queria meu carro - diz passando a mão no cabelo, olhando pro lado e parece que tá segurando o choro.
Fico na minha, sentado no banco da moto, de braços cruzados e olhando o movimento da rua.
Volto o olhar pra ela que continua em pé ao lado da moto.
Farinha: Que dia foi essa p***a? - pergunto sério.
Cecília: Ontem. - diz me encarando enquanto seca as lágrimas que ainda molham a pele dela. - Eu tinha certeza que ia conseguir meu carro de volta quando eu conversasse com ele. - funga o nariz e abaixa a cabeça, os fios de cabelo preto caindo na frente do rosto.
Coço a barba devagar e volto o olhar pra rua.
Farinha: Tu teve sorte de tá saindo daqui limpa. - falo direto, vendo ela levantar a cabeça e me encarar. - Volta pra tua casa mina e esquece essa p***a.
Ela solta uma risada fraca, tipo de deboche amargo, e balança o cabelo pra trás negando.
Cecília: É fácil falar... Você não tá na minha pele. Mas tá bom! Não vou ficar aqui me humilhando pra nenhum de vocês. - fala firme, se aproximando da moto, e mete a mão no meu ombro pra ganhar impulso e subir no banco traseiro da moto.
No mesmo instante o cheiro do perfume dela invade meu nariz igual cocaína.
Só que o cheiro dela é bom pra c*****o.
Fico uns segundos parado, esperando ela se ajeitar.
Quando vejo que se acomodou, ligo a moto, dando partida e meto fuga nas vielas da comunidade.
No embalo da descida, sinto o aperto dela na minha cintura. Dou uma olhada rápida pra baixo e vejo as unhas vermelhas e grandes cravadas em mim.
Seu corpo quente grudado nas minhas costas, e seu cabelo batendo no meu rosto com o vento, espalhando ainda mais aquele cheiro bom que ta me deixando embriagado.
Solto o ar pelo nariz, focado na pista, mas com a mente onde nem devia estar.
Paro a moto um pouco distante do carro delas, vendo que a outra já tá lá dentro, esperando.
Cecília: Valeu! - agradece meio seca, segurando a mão que estendi pra ajudar ela a descer da moto, que é alta pra c*****o.
Farinha: Meu vulgo é Farinha. Se tu precisar de algum bagulho é só pedir pra falar comigo. - solto na moral, ajeitando o boné.
Cecília: Obrigada! Mas o que eu preciso você não pode me ajudar. - manda toda marrenta e da uns dois passos de costas e depois se vira, caminhando até o carro delas.
Rio pelo nariz, balançando a cabeça. A menor é marrenta até no aperto.
Vejo ela entrando no carro e batendo a porta.
Manobro a moto e meto o pé de volta pra lá pra cima.
Cabeça a milhão, mas rindo de leve.