Capítulo 5

917 Words
Viviane Narrando Continuação Deitada no sofá, com a almofada apertada contra o peito, fechei os olhos tentando encontrar um pouco de paz. Mas o silêncio da casa parecia gritar comigo. Cada canto carregava lembranças de tudo que passei ao lado de Gavião. Cada parede tinha a marca de uma discussão, cada móvel parecia testemunha de uma ferida. Lembrei do dia em que ele chegou na padaria dos meus pais. O Gavião tinha aquele jeito seguro, olhar que parecia prometer o mundo inteiro. Eu tinha vinte anos, cheia de sonhos, trabalhando no asfalto, acreditando que amor era igual aos livros que eu lia escondida atrás do balcão. Ele me encheu de flores, de palavras bonitas, de juras de amor eterno. E eu, tola, achei que finalmente tinha encontrado alguém que ia me proteger, que ia cuidar de mim. Minha mãe no começo não falava nada, mas quando viu que estava ficando sério. Tentou me alertar. — Esse homem não é pra você, filha. Não tem nada de família nele, é um homem oco, não é capaz de amar ninguém. Mas eu não queria ouvir. Meus olhos só viam as flores, os presentes, o sorriso largo que fazia todo mundo acreditar que ele era o homem perfeito. As flores viraram espinhos rápido. Primeiro os ciúmes, depois o controle. Quando percebi, não podia mais sair com minhas amigas, não podia mais visitar meus pais sem pedir. O emprego no escritório de contabilidade virou um fardo porque ele não suportava a ideia de outro homem olhar pra mim. Um dia cheguei em casa e encontrei minhas roupas de trabalho rasgadas na sala. Ele disse que não precisava mais daquilo. “Agora você é minha mulher. Quem cuida de você sou eu.” Na frente dos outros, éramos o casal de invejar. A mulher sempre com um sorriso no rosto, o homem poderoso. Mas só eu sabia o que acontecia entre quatro paredes. As palavras viravam socos, os carinhos viravam agressão, e os “eu te amo” eram correntes pesadas que me prendiam a ele. As lágrimas ameaçaram cair de novo, mas respirei fundo. Olhei de canto para Leopardo, ainda sentado na poltrona, firme, sem dar sinais de cansaço. O contraste entre pai e filho era tão grande que doía. O Gavião me deu joias, roupas, status. Leopardo, sem me dar nada, me ofereceu a única coisa que eu sempre precisei: cuidado verdadeiro. E era isso que me confundia. Porque eu não podia negar que sempre houve algo nele. Quando éramos adolescentes, sempre que cruzava com Leopardo no morro, sentia um frio estranho na barriga. Ele não falava muito, mas tinha um olhar que me atravessava. Eu afastava o pensamento, afinal ele seria o dono do poderia ter a mulher que quisesse, nunca olharia pra mim, afastei esses pensamentos e segui a minha vida. E depois ele era o filho do homem com quem eu estava. Mas agora, ali, com ele como meu guardião, aquele frio voltava mais forte. Virei pro lado, encarando o teto. A mente não parava os pensamentos rondando. — Você devia descansar. — A voz de Leopardo cortou meus pensamentos. Grave, baixa, mas firme. — Como é que eu vou descansar sabendo o que ele disse? — Respondi, a voz embargada. — Você sabe como ele é. Não é uma ameaça vazia. Ele descruzou os braços e se inclinou para frente. — Por isso eu tô aqui. Suspirei, fechando os olhos. Parte de mim queria acreditar que bastava ele estar ali pra tudo ficar bem. Mais uma parte de mim sabia que a guerra estava só começando. As horas passavam devagar. Lá fora, o morro seguia vivo: risadas ao longe, o barulho de moto subindo a ladeira, uma música estourando numa caixa de som. Mas aqui dentro, o tempo parecia parado. Por volta das quatro da manhã, o sono finalmente me venceu. Dormi no sofá mesmo, sentindo a presença de Leopardo como um escudo. Não lembro dos sonhos, só lembro da sensação estranha de estar protegida de verdade pela primeira vez em anos. Quando abri os olhos, já era manhã. A luz entrava pelas frestas da cortina, e o primeiro som que ouvi foi a voz dele, baixa, falando no celular. Não entendi as palavras, mas pelo tom sabia que era negócio do morro. Ele sempre parecia estar no controle, mesmo quando o mundo estava prestes a desabar. Me levantei devagar, ainda com o corpo pesado. Leopardo desligou o celular e me olhou. — Dormiu? Assenti. — Um pouco. Ele se aproximou. — Precisa pensar no que vai fazer agora. Não pode ficar nessa casa. Engoli em seco. Sabia que Gavião não desistiria fácil. Sabia também que Leopardo estava se colocando no meio de uma guerra que não era dele. Mas, ao mesmo tempo, havia algo na forma como ele falava que me dava força. — Por enquanto eu vou voltar pra casa dos meus pais, depois eu vejo o que fazer. — Já é, vou deixar um vapor fazendo a sua segurança tá, evita sair do morro. — ele diz e já puxa o rádio chamado o manteiga. Assenti. Me aproximei um pouco mais. Olhei nos olhos dele. — Obrigada. — Disse, simples. Ele sustentou o olhar, e por um segundo o silêncio entre nós foi tão denso que quase dava pra tocar. Não havia toque, não havia gesto. Só aquele fio invisível que nos ligava, proibido, mas real. E eu soube: por mais que tentasse negar, meu coração já tinha escolhido seu lado nessa guerra.
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