Capítulo 4

1063 Words
Viviane Narrando O silêncio que ficou depois da porta batendo foi ensurdecedor. Eu ainda ouvia o eco da voz de Gavião queimando na minha cabeça: “Se ela não for minha, não vai ser de ninguém.” As pernas tremiam, o coração batia tão forte que parecia que ia explodir no meu peito. Segurei o braço, onde os dedos dele tinham marcado, e senti a pele arder. Não era só a dor física, era a lembrança de cada vez que ele fez a mesma coisa, de cada vez que me quebrou por dentro, mesmo que por fora eu continuasse fingindo ser a esposa perfeita, a mulher sorridente do morro. Só que agora não dava mais pra fingir. O fim tinha chegado. Eu mesma decidi. Eu mesma disse: acabou. E mesmo com medo, mesmo sabendo quem era Gavião, eu não ia voltar atrás. Quando olhei pra frente, Leopardo ainda estava lá. Firme, parado, como se fosse um muro entre mim e o inferno. Ele não precisou me tocar pra eu sentir a força dele. O olhar dizia tudo: proteção, raiva, e um peso que eu não sabia se vinha do passado ou do que ele carregava agora. — Você tá bem? — a voz dele veio grave, mas controlada, como se estivesse segurando uma fera dentro de si. Assenti devagar, mas não consegui responder de imediato. Minha garganta estava seca, como se cada palavra tivesse ficado presa junto com o medo. Respirei fundo, tentei organizar a confusão na cabeça. Só depois consegui soltar: — Eu… eu precisava fazer isso. — A voz saiu mais baixa do que eu queria. — Não dava mais. Ele assentiu, os olhos duros, mas ao mesmo tempo havia algo ali que Gavião nunca teve: cuidado. O tipo de cuidado que não precisa de palavras doces, só de presença. Fui até o sofá e sentei as pernas finalmente cedendo. O corpo inteiro parecia cansado, como se tivesse corrido quilômetros. Leopardo se aproximou devagar, mas não se sentou. Ficou de pé, de braços cruzados, como um guardião. — Ele não vai aceitar. — Murmurei, olhando pro chão. — Você sabe disso melhor do que eu. — Eu sei. — Ele respondeu sem hesitar. — Mas também sei que aqui dentro quem manda sou eu. E eu disse que você tem a minha proteção. Aquelas palavras ecoaram diferente. Não era promessa vazia, não eram palavras disfarçadas de gentileza, como as do Gavião. Era firmeza. Leopardo era o tipo de homem que cumpria o que dizia, para o bem ou para o m*l. Levantei o olhar e encontrei o dele. Um arrepio percorreu minha pele, não deixe medo, mas de algo que eu não queria admitir. Porque, no fundo, eu sabia: havia algo entre nós dois que nunca deveria existir. E mesmo assim existia. Fechei os olhos por um instante, tentando afastar o pensamento. O morro todo veria como pecado, como traição, como algo imperdoável. Ele era o filho do homem com quem eu dividi anos da minha vida. Mas, ao mesmo tempo, era o único que realmente me enxergava. — Eu não devia ter acreditado nele. — Soltei, quase num sussurro. — Minha mãe me avisou… ela sempre soube. Mas eu achei que ele ia mudar, que no fundo tinha amor em algum canto daquele coração de pedra. Leopardo respirou fundo, a mandíbula travada. — Meu pai não sabe amar, Viviane. Nunca soube. — Ele falou baixo, mas as palavras carregavam rancor. — Ele acha que amor é fraqueza. Passei a vida inteira ouvindo isso. Abri os olhos, encarando-o. — E você? Você acredita nisso também? Por um instante, ele ficou em silêncio. Os olhos se desviaram, como se a resposta fosse perigosa demais pra ser dita. Depois voltou a me olhar e disse: — Eu… já acreditei. A sala ficou pesada, como se cada respiração fosse um segredo sendo revelado. Eu sabia que não podia perguntar mais, mas parte de mim queria. Queria entender aquela muralha de homem que agora era a minha única proteção. Leopardo se aproximou e se inclinou um pouco, ficando mais perto. — O importante agora é que você não está sozinha. — A firmeza na voz dele era quase uma ordem. — Enquanto eu estiver de pé, ninguém toca em você. Senti as lágrimas arderem nos olhos, mas não queria chorar na frente dele. Já chorei demais sozinha, já derramei lágrimas que ninguém viu. Mas aquelas palavras me quebraram por dentro, porque eu nunca tinha escutado nada parecido do Gavião. Passei a mão pelo rosto e respirei fundo, tentando me recompor. — Ele não vai parar, Leopardo. — Disse, a voz trêmula. — Você conhece ele. Se disse aquilo, vai tentar cumprir. Ele se levantou mais ereto, os ombros largos parecendo ainda maiores. — Então que tente. — Respondeu, seco. — E vai descobrir que eu não sou mais o moleque que ele mandava calar. A força daquelas palavras me deu um pouco de paz, mas também medo. Porque eu sabia: quando dois homens como eles se enfrentam, não sobra nada além de destruição. O relógio da parede marcava quase dez da noite. O silêncio da casa só era quebrado pelo barulho distante da favela viva, os sons do morro que nunca dorme. Olhei para a porta, ainda sentindo o peso da ameaça do Gavião. — Você devia ir. — Murmurei, mesmo sem querer que ele fosse. — Se ele voltar e te encontrar aqui… Leopardo negou com a cabeça, firme. — Eu não vou deixar você sozinha hoje. Quis discutir, mas a verdade é que o coração aliviou ao ouvir isso. Não queria admitir, mas precisava dele ali. Não só como proteção, mas como presença. Deitei no sofá, abraçando uma almofada, tentando enganar o corpo cansado. Leopardo ficou sentado na poltrona, com o olhar atento, como um vigia. E ali, no meio do silêncio pesado, percebi: talvez a maior guerra não fosse a que o Gavião prometeu, mas a que estava começando dentro de mim. Porque, mesmo marcada pelo medo, eu não conseguia ignorar o que sentia toda vez que os olhos de Leopardo cruzavam os meus. Virei pro lado, encarando o teto. A mente não parava: E se Gavião cumprir a ameaça? E se ele tentar me tirar de qualquer jeito? Conhecia ele melhor do que ninguém. Quando dizia que algo era dele, não recuava. E, mesmo cansada, minha mente não me deixava descansar.
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