Capítulo 3

1389 Words
Gavião Narrando Nunca quis ser pai. Nunca quis família. Essas coisas são correntes que prendem o homem, e eu nunca aceitei corrente nenhuma na minha vida. Amar? Fraqueza. A pior delas. A mãe do Leopardo… não passou de mais uma. Uma put.a que achei numa dessas noites de farra, um corpo quente na cama e nada além disso. Ela jurou fidelidade, disse que estava grávida, tentou me segurar pelo moleque. Pensei que fosse mais um golpe barato, mas o teste de DNA provou o contrário: era meu sangue. Eu podia ter virado as costas, podia ter deixado ela se virar sozinha, mas não. Um filho meu não cresce como resto de ninguém. Assume. Não por amor, mas porque um herdeiro é necessário. Um homem como eu precisa deixar alguém no trono quando a hora chega. Ela morreu cedo, de câncer no útero, quando o moleque tinha oito anos. Chorou feito criança, e eu deixei. Não abracei, não consolei. Pra quê? Choro não muda nada. A vida não para porque você sofre. Ali eu decidi que iria criar o Leopardo do meu jeito: duro, frio, sem espaço pra sentimento. Ele seria meu sucessor, meu herdeiro, o homem que herdaria o morro da Rocinha. Ensinava todos os dias: “Amor é fraqueza. Mulher é distração. O poder é o que mantém você vivo.” Eu repetia até entrar na cabeça dele. Não tinha história de carinho, não tinha beijo de boa noite, não tinha nada dessas frescuras que pais comuns dão pros filhos. O que eu dei foi disciplina, foi respeito, foi medo. E funcionou. O menino cresceu com o olhar firme, com a mão pesada, com a mente afiada. Aprendeu a mandar, aprendeu a calar a boca dos outros, aprendeu que no morro quem fala mais alto é quem tem mais coragem. Mas às vezes, eu enxergava nele uma coisa que me irritava. Um fogo diferente, uma fraqueza escondida nos olhos. Algo que eu reconheço de longe: sentimento. E sentimento é veneno. Eu avisei. Sempre avisei: — Mulher não leva homem a lugar nenhum, só arrasta pra baixo. Se quiser ser dono do morro, esquece o coração. Leopardo é meu sangue, meu herdeiro. Mas se algum dia ele esquecer o que eu ensinei, vai provar comigo que até o sangue pode virar inimigo. Quando ele era adolescente eu notei os olhares dele pra Viviane, eu não dei trégua pra ele, ficava em cima dizendo a mesma coisa: mulher e distração, sentimento e fraqueza. Ele deixou isso de lado, todo dia tava com um put.a diferente. Mas aí não durou muito quando eu tava perto de se aposentar, eu notei ele mudar, não ir mais pra farra, não pegava mais as puta.s, e voltou a frequentar a padaria dos pais da Viviane todos os dias, foi aí que eu percebi ele estava fraquejando se deixando levar pelo os sentimentos, e eu não iria permitir isso. Comecei a observar a Viviane, procurando o jeito de fazer o Leopardo acabar com esse sentimento de uma vez. Ela trabalhava num escritório de contabilidade no asfalto, toda certinha, cheia de papelada e números. Mas nos fins de semana eu a via no morro, ajudando os pais na padaria. Sempre de sorriso pronto, cumprimentando todo mundo, parecia feita de luz. Uma menina limpa demais pra esse lugar. E foi isso que me chamou atenção. Eu, um predador, cheio de sangue no nome, bati o olho nela e soube: presa fácil. Ingênua, sonhadora. O tipo de mulher que acredita em promessas. Ia matar dois coelhos com uma cajadada só, o Leopardo esquecer ela e ter gostinho de ter aquela mulher pra mim. Cheguei com palavras doces, aquele papo que elas gostam de ouvir. Falei de futuro, de cuidado, de amor. Amor… palavra que eu nunca senti, mas sabia usar. Ela acreditou. Caiu feito passarinho na minha mão. Prometeu amor eterno, prometeu estar comigo pro que viesse. E eu deixei ela acreditar que comigo teria vida de rainha. O morro inteiro viu nascer um casal exemplar: o Gavião e a Viviane. Todo mundo comentava, como ela parecia feliz de braço dado comigo. Na frente dos outros, eu era o marido perfeito. Atenção, presentes, sorrisos. Mas porta fechada… era como eu mandava. Ela não trabalhava mais, largou o escritório. Mulher minha não precisa de emprego, precisa estar onde deve: dentro de casa, sob minhas ordens. Viviane chorava às vezes, reclamava, dizia que sentia falta da liberdade. Eu cortava pela raiz: — Mulher minha não discute. Mulher minha obedece. O morro aplaudia nossa união. Achavam que éramos exemplo de força e amor. m*l sabiam que entre quatro paredes eu não dava espaço pra frescura. Ela era minha. Só minha. E na minha cabeça, não existe essa história de fim. Quando um Gavião botar as garras, ele não solta. Cheguei em casa já com o sangue quente. O morro tava no corre, fornecedor atrasado, polícia rondando mais do que devia, e eu precisava de silêncio, descanso, de alguém que me lembrasse que eu ainda mandava em tudo. Mas o que encontrei foi o contrário. Viviane estava de pé, no meio da sala, celular na mão, olhos vermelhos de raiva. Eu m*l botei o pé dentro e ela já jogou o aparelho em mim. Pegou no ombro, pesado. — Cansei, Gavião. — a voz dela tremeu, mas não de medo. — Eu vi! Mais uma das suas traições, suas mentiras. E eu cansei. Acabou. Fiquei parado por uns segundos, olhando pra cara dela. O peito subiu e desceu devagar, controlando a fúria. Não era a primeira vez que ela ameaçava ir embora, mas sempre voltava. Sempre. Porque comigo era assim: ninguém larga de mim. Ninguém me deixa. Dei um passo à frente, o olhar cravado no dela. — Tu acha que pode decidir, Viviane? — falei baixo, firme. — Tu acha mesmo que tem escolha? Ela recuou, mas manteve a postura. Coragem. Só que coragem no morro não vale nada quando se enfrenta o homem errado. — Eu não sou tua posse. — Ela cuspiu as palavras como se fossem veneno. — Não sou um objeto. A fúria queimou dentro de mim. O peito latejou. Avancei, segurei seu braço com força, sentindo ela se debater. A raiva tomou conta, e junto dela aquela sensação de posse que sempre me guiou: se não for minha, não vai ser de ninguém. Levantei a mão, pronto pra mostrar a ela quem era que mandava naquela casa, quando ouvi a porta bater com força atrás de mim. — CHEGA!. A voz cortou o ar. Grave. Firme. Eu não precisei olhar pra saber quem era. Leopardo. Virei o rosto devagar, ele me tirou de cima da Viviane. O moleque me encarava como se tivesse esquecido quem o criou, quem o botou no mundo do jeito que ele é. O sangue dele é meu. A força dele vem de mim. Mas ali, nos olhos dele, eu não vi respeito. Vi desafio. — O que está acontecendo Viviane?. — ele pergunta olhando no fundo dos meus olhos. — Eu terminei com ele, Leopardo. — ela disse firme. — Eu não quero mais isso. Eu quero sair desse inferno. E eu… eu quero proteção — Isso aqui não é problema teu, Leopardo. — Rosnei. — Sai da frente. Ele deu um passo à frente, as veias do pescoço pulsando, o peito arfando como um animal pronto pra briga. — Ela disse que acabou, e você não entendeu. — Ele gritou. — Eu sou o dono do morro agora. E a partir de hoje, ela tá debaixo da minha proteção. — Você enlouqueceu? — eu disse desacreditado. — Vai trair seu próprio pai por causa dessa mulher? Ele se aproximou, o rosto a poucos centímetros do meu. — Se for preciso ficar contra você para protegê-la… eu fico sem pensar duas vezes. — falou baixo, firme, cada palavra carregada de uma verdade. Olhei pros dois, o coração batendo como um tambor dentro do peito. A raiva se misturou com algo que eu nunca senti antes: traição dentro da minha própria casa. Apontei o dedo na cara dele. — Tu vai se arrepender, Leopardo. — Minha voz saiu baixa, mas cortante como faca. — Se ela não for minha, não vai ser de ninguém. Saí batendo a porta, a fúria me queimando por dentro. E jurei: essa guerra ainda não tinha acabado.
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