CLARA NARRANDO
Hoje é sexta-feira, e só de pensar nisso já sinto um alívio bom no corpo, como se cada músculo relaxasse um pouquinho. Eu e a Maju já tínhamos combinado: nada de ir pra casa direto depois da faculdade, nada de cair na rotina de sempre. A gente ia dar um jeito de aproveitar o dia — começar com um passeio no shopping e terminar tomando aquele açaí maravilhoso da parada 116, o nosso cantinho favorito, bem ali do lado da faculdade.
Levantei cedo, ainda meio preguiçosa, mas animada. Tomei meu banho, coloquei uma roupa leve — calça jeans clara, cropped branco e um tênis que já tinha rodado tanto comigo que parecia até extensão do meu pé. No espelho, dei aquele sorriso que mistura expectativa e curiosidade, ajeitei o cabelo e fui tomar café. Minha avó ainda estava dormindo, então fiz silêncio, preparei um café preto forte e comi uma fatia de bolo de cenoura que sobrou de ontem.
Antes de sair, peguei minha mochila e mandei mensagem pra Maju:
“Tô saindo! Bora se ver lá?”
Ela visualizou, mas não respondeu. Normal, às vezes ela se enrolava pra se arrumar. Coloquei o fone, botei uma playlist animada e fui esperar o Uber na frente de casa. O dia estava ensolarado, daquele jeito que a gente só vê em sexta-feira mesmo, quando parece que até o céu sabe que o fim de semana está chegando.
Cheguei na faculdade e fui direto pro pátio, onde a gente sempre se encontrava antes das aulas. Olhei em volta e nada da Maju. Estranhei um pouco, porque ela era sempre a primeira a chegar — gostava de pegar o melhor lugar na sala e de ficar fofocando comigo antes do professor aparecer. Esperei uns dez minutos, e nada. Mandei mensagem de novo:
“Tá vindo?”
Nada. Só o “entregue”.
Senti uma pontadinha de preocupação. A gente tinha combinado tudo certinho, e era raro ela furar. Esperei mais um pouco, tentando me distrair com o movimento da galera chegando. O barulho das vozes misturadas, o som de mochilas batendo nas carteiras, o cheiro de café vindo da cantina.
Quando o professor entrou, respirei fundo e pensei: “deve ter se atrasado, acontece”.
Mas o tempo foi passando, e ela não apareceu.
No intervalo, tentei ligar. Chamada indo direto pra caixa postal. Mandei mensagem pra tia Dara, mãe dela, e pra irmã, a Lara, só pra ver se sabiam de alguma coisa. Nenhuma resposta. A ansiedade começou a dar as caras, aquele aperto chato no estômago.
Mas tentei me convencer de que era só coisa da minha cabeça. “Deve estar dormindo”, pensei. “Ou esqueceu o celular em casa.”
Mesmo assim, passei o resto da aula meio distraída, o olhar indo e voltando pro celular.
Quando terminou, fiquei parada uns minutos na porta da sala, meio sem saber o que fazer. A gente tinha planejado o dia todo — shopping, compras, risadas, talvez até cinema. Tudo parecia meio sem graça sem ela.
Até que recebi uma mensagem. Meu coração deu um pulo.
Era da Raíssa.
Raíssa: “Oi, tu viu a Maju hoje? Ela me deixou no vácuo desde ontem à noite.”
Respirei fundo e respondi rápido:
“Nada ainda, tô até preocupada. Ela não veio pra aula e não respondeu ninguém.”
Raíssa: “Será que aconteceu alguma coisa?”
Eu: “Acho que não… mas tá estranho.”
Decidimos esperar mais um pouco e seguir o plano mesmo assim. Vai que ela aparece no meio do caminho, né?
Saí da faculdade e fui em direção ao shopping com a Raíssa. O sol já batia mais forte, e o calor da calçada fazia o ar vibrar. Entrar no shopping foi um alívio — aquele ar-condicionado geladinho, o cheiro de pipoca misturado com perfume de loja e o som de música ambiente.
A gente resolveu começar pela praça de alimentação.
— Bora comer antes de rodar? — perguntei.
— Óbvio — ela respondeu, rindo. — Sexta é dia de gastar e comer sem culpa.
Pegamos batata frita, refrigerante e um combo que juramos dividir, mas que claramente ninguém queria dividir de verdade. Ficamos conversando sobre tudo: professores chatos, crushes novos, os planos pra prova do fim de semana (que a gente sabia que ia empurrar com a barriga até o domingo à noite).
Mas no fundo, eu ainda olhava o celular de tempos em tempos. Nenhuma resposta da Maju.
Depois do almoço, fomos andar pelas lojas. Entramos numa de roupas e começamos a brincar de experimentar tudo o que parecia absurdo: calças coloridas, óculos gigantes, jaquetas cheias de brilho. Rimos tanto que até o segurança da loja ficou observando, disfarçando o sorriso.
— A Maju ia amar isso aqui — falei, pegando um vestido laranja cheio de babado.
— Ia mesmo. Ela com certeza ia te obrigar a comprar — respondeu a Raíssa.
E era verdade. Maju sempre foi a mais empolgada do trio, aquela que animava todo mundo, mesmo quando as coisas pareciam meio sem graça.
Depois de um tempo, paramos numa cafeteria pra descansar. Pedi um cappuccino gelado e a Raíssa pegou um brownie com sorvete. Conversamos sobre a vida, sobre os planos depois da faculdade, sobre viagens que a gente queria fazer.
Já era mais de quatro horas da tarde e nada da Maju me responder. Falei com a Raíssa, meio desanimada:
— Acho que nem vou mais tomar o açaí. Vai que aconteceu alguma coisa e a gente tá lá de boas tomando açaí, né?
A Raíssa suspirou.
— É… melhor cada uma ir pra casa então.
Ela pegou o ônibus e foi.
Eu tava desde manhã sem tomar banho, ainda com a roupa da faculdade — blusa amassada, cabelo preso num coque que já tava pedindo socorro, mas ainda assim, dava pro gasto.
Pedi um Uber pra casa, botei o fone de ouvido e fiquei olhando o movimento pela janela, pensando que o dia tinha sido meio estranho sem ela. Quando o carro já tava subindo a avenida, o celular começou a vibrar. Era ela.
Atendi sem nem pensar.
— Amiga! Amiga! — a voz dela veio eufórica, quase gritando. — Onde você tá? Mulher, desculpa ter sumido! Vem pra minha casa agora!
— O quê? — perguntei rindo, meio perdida. — Que foi que aconteceu?
— Relaxa, amiga! É notícia boa! — ela respondeu, rindo alto. — Vem logo pra minha casa, tá tendo churrasco!
— Churrasco? — repeti, sem entender nada.
— Sim! Depois te explico tudo, só vem!
Ela desligou antes que eu pudesse fazer qualquer pergunta. Fiquei ali parada uns segundos, olhando o celular e rindo sozinha. Era tão a cara da Maju fazer isso — sumir o dia inteiro e, do nada, me chamar pra um churrasco como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Pedi pro motorista mudar o destino.
— Pode subir até o Morro do Heliópolis? — perguntei.
Ele olhou pelo retrovisor, meio desconfiado, e assentiu.
— Até onde der, moça.