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01 -- Leticia Narrando
Eu sempre tive uma obsessão quase poética por entender como as coisas se reestruturam depois de quebradas.
Enquanto a maioria das pessoas olha para um osso fora do lugar, um músculo rasgado ou uma dor crônica e enxerga limitação, eu enxergo o caminho de volta. Escolhi a fisioterapia não por acaso, mas porque cresci vendo o impacto que a perda da mobilidade causa na vida de alguém. Quando eu era adolescente, minha mãe passou por uma reabilitação longa e dolorosa após um acidente feio. Acompanhar cada pequeno avanço dela, o primeiro passo sem apoio, a primeira vez que conseguiu levantar um copo sem a mão tremer me mostrou que devolver o movimento a alguém é, em essência, devolver a dignidade e a liberdade.
Se tem uma coisa que a fisioterapia me ensinou, é que a reabilitação exige tempo, paciência e uma tolerância absurda à dor. O que eu não sabia é que essa regra valeria tanto para os meus pacientes quanto para a minha própria vida.
Eu me formei em 2018. Foram cinco longos anos de faculdade, noites em claro decorando a origem e a inserção de cada músculo do corpo humano, seguidos por uma pós-graduação em Traumatologia e Ortopedia. Na época, eu achava que o diploma na mão era o passaporte para uma vida estabilizada. Que ilusão.
O início foi um verdadeiro teste de sobrevivência. Comecei no degrau mais baixo que existe: atendendo home care para convênios médicos. Eu atravessava a cidade de ônibus, debaixo de sol ou chuva, carregando uma maca dobrável pesada nas costas para ganhar minguados trinta reais por atendimento. Trinta reais. Para avaliar, tratar, dar atenção e dedicar uma hora do meu dia a cada paciente. Teve dias em que o valor do transporte quase engolia metade do que eu tinha ganho.
Mas eu não baixei a cabeça. Cada centavo que entrava era contado, dividido e economizado. Gradativamente, fui conquistando a confiança das pessoas, o boca a boca começou a funcionar e consegui migrar para os atendimentos particulares. Aumentei o valor da minha sessão, melhorei meus equipamentos e passei a sonhar mais alto.
Hoje, nove anos depois de ter colocado o pé na faculdade, olhar para trás parece ver uma história vivida por outra pessoa. Porque, contra todas as estatísticas, eu consegui erguer o meu próprio espaço: o Espaço Reabilitar — Fisioterapia & Pilates.
Mas não pense que teve investidor, herança ou facilidade no meio do caminho. Cada centímetro daquele lugar tem o meu sangue, o meu suor e as minhas noites de sono.
Quando finalmente achei a sala comercial com um valor de aluguel que parecia caber no meu orçamento, ela era só um galpão frio com paredes descascadas e chão encardido. Não sobrou dinheiro para contratar empreiteira ou arquiteto de renome. O projeto inteiro foi desenhado no papel de pão por mim e colocado de pé pelas minhas próprias mãos, com a ajuda incansável da minha mãe.
Foram fins de semana inteiros com tinta nas mãos, cabelos presos num coque bagunçado e cheiro de verniz na pele. Nós duas lixamos massa corrida, aplicamos fita crepe e pintamos as paredes em tons de verde-menta e bege suave — cores que eu estudei que transmitiam cura, paz e acolhimento.
A decoração? Garimpadíssima. Passei madrugadas acordada procurando cupons e promoções na Shopee. Comprei cada quadrinho motivacional, as plantas artificiais para trazer vida ao ambiente, os difusores de aroma de lavanda e até as luminárias pendentes de palha que davam um toque aconchegante à recepção. Cada caixa que os Correios entregavam parecia um presente de Natal que eu mesma tinha me dado.
A parte pesada, porém, veio na hora dos aparelhos. Um reformer de Pilates e um turbilhão para hidroterapia não se compram em promoção de aplicativo. Para conseguir o equipamento de eletroterapia de última geração e a mesa de tração, precisei dar uma entrada que zerou a minha poupança e parcelar o restante em vinte e uma vezes no boleto. Vinte e uma parcelas de um valor que me tirava o sono todo dia dez.
Mesmo assim, no dia em que pendurei a placa de acrílico com a logomarca do Espaço Reabilitar na fachada, eu chorei feito criança. Cheirava a óleo essencial, a tinta nova e a vitória. Era o meu refúgio. O lugar onde eu não era mais a menina da maca dobrável no ônibus, mas a Dra. Letícia, dona do seu próprio destino.
O problema é que o mercado não se importa com o quanto você se esforçou para erguer o seu sonho. E manter as portas abertas de um negócio no asfalto exige um tipo de força que a faculdade não ensina.
A construção de uma reputação na fisioterapia é um processo silencioso, doloroso e lento. Nos primeiros meses, o silêncio daquela sala recém-pintada parecia gritar no meu ouvido.
Teve dias em que abri o estúdio às sete da manhã, deixei a recepção impecável, o difusor de lavanda ligado, as luzes acesas, e passei o dia inteiro olhando para a porta sem ver uma alma entrar. O pior não era o vazio; era a expectativa frustrada. O telefone tocava, o paciente agendava para a tarde, eu preparava a ficha de avaliação, separava o material... e a pessoa simplesmente não aparecia. Nem avisava. Quantas vezes me peguei chorando escondida no banheiro, olhando para o espelho com o peito apertado, perguntando para Deus se eu tinha cometido o maior erro da minha vida ao me endividar tanto.
Mas o tempo e a insistência mudam o jogo. Aos 32 anos, a gente entende que o trabalho duro não aceita desaforo.
Pequenas vitórias começaram a somar. Primeiro foi a dona de casa do bairro vizinho que chegou travada da coluna e saiu andando sem dor; depois o senhorzinho pós-operatório de quadril que voltou a caminhar sozinho. O boca a boca, enfim, virou uma avalanche. No segundo ano, o Espaço Reabilitar tomou uma proporção que eu nem ousava projetar nos meus melhores sonhos. As turmas de Pilates lotaram. Para dar conta da demanda e manter o caixa girando com fluxo constante, passei a aceitar credenciamentos de programas corporativos e plataformas de benefícios, como o TotalPass e convênios parceiros de Pilates.
Minha rotina virou uma maratona insana. Eu atendia até três ou quatro alunos por horário no Pilates. Era uma dança calculada: enquanto um estava no Reformer fazendo fortalecimento de glúteo, o outro estava no Cadillac trabalhando estabilização de tronco, e um terceiro na Chair fazendo extensão de coluna. Eu não parava um segundo. Corria de um aparelho para o outro, corrigindo a respiração, alinhando a postura, ajustando as molas e garantindo que ninguém se machucasse.
E a fisioterapia ortopédica pura não ficava atrás. Investi cada sobra de caixa em capacitação. Fiz cursos intensivos de Liberação Miofascial Instrumental, Agulhamento a Seco (Dry Needling), Terapia Manual, e me especializei no manuseio de eletroterapia avançada. Comprei o aparelho de TENS e FES, o ultrassom terapêutico de alta frequência, o laser de baixa potência para cicatrização e analgésico, além do turbilhão e das faixas elásticas de todas as intensidades possíveis. Cada certificado na parede representava noites e fins de semana sacrificados, sem vida social, sem passeios, sem descanso.
A verdade é que eu vivia para o meu estúdio. Entrava quando ainda estava escuro e saía de lá à noite, com as pernas destruídas, os dedos doendo de tanto fazer massagem profunda e a voz rouca de tanto instruir comandos de respiração.
Mesmo morta de cansaço, no intervalo do almoço ou no fim do expediente, eu ainda pegava minha maleta recheada de fita cinesiológica (kinesio tape), ventosas e óleos de massagem para fazer atendimentos domiciliares particulares pelo bairro. Eram idosos acamados, pessoas recuperando de AVC ou pacientes pós-cirúrgicos recentes que não podiam se deslocar até o estúdio. Eu não tinha coragem de dizer não. No fundo, aquela garota sonhadora de 2018 que andava de ônibus carregando maca pesada ainda morava dentro de mim, lembrando de onde eu vim e do quanto eu lutei para conquistar o respeito que tenho hoje.
Eu me tornei uma referência local. O estúdio vivia cheio, o barulho do ar-condicionado misturado ao som das molas do Pilates virou a trilha sonora da minha vida. Eu achava que tinha finalmente alcançado a estabilidade perfeita.
O que eu não imaginava é que manter uma estrutura daquelas girando no asfalto cobrava um preço alto demais, e que uma reviravolta financeira inesperada estava prestes a colocar todo esse império de dedicação em risco.