O sol de novembro ardia preguiçoso, refletindo no asfalto e fazendo o ar vibrar em ondas quentes. As árvores da avenida lançavam sombras magras, quase inúteis, e o cheiro de pão fresco se misturava ao de gasolina — um perfume agridoce e familiar das manhãs apressadas perto do colégio.
Clara caminhava depressa, os passos curtos e decididos, a mochila pesada balançando em seus ombros. O cabelo estava preso às pressas, o uniforme amarrotado denunciava a correria, e a mente fervilhava de fórmulas, datas e nervosismo. As provas finais se aproximavam, e o estresse já a acompanhava como uma sombra.
Ela precisava de açúcar. Urgentemente.
Um doce, um pequeno consolo antes da tortura.
Empurrou a porta da padaria com um suspiro cansado. O sino tilintou, e o cheiro doce de açúcar e café a envolveu como um abraço inesperado. O ar-condicionado soprou um alívio frio que arrepiou sua pele, e por um instante, ela quase esqueceu o calor, o cansaço e as provas que viriam.
A padaria era pequena, aconchegante, com luz amarelada e prateleiras cheias. O rádio tocava baixinho uma música antiga, e o som dos talheres se misturava ao das conversas abafadas das mesas. Clara se aproximou do balcão e observou a vitrine iluminada: tortinhas de morango perfeitamente montadas, brigadeirões reluzentes, pudins dourados com calda de caramelo que brilhava sob a luz.
Sem pensar muito, apontou para o doce mais exagerado da vitrine — um pedaço de pavê coberto com raspas de chocolate e chantilly.
Era o tipo de sobremesa que ela escolheria em qualquer dia r**m.
— Um pedaço desse, por favor — pediu à atendente. — Pra viagem.
Enquanto esperava, tamborilou os dedos no balcão, impaciente. O som do rádio, o tilintar das xícaras e o cheiro de café fresco criavam uma música leve, quase hipnótica. Por um instante, ela pensou em nada — o que, para ela, era um luxo raro.
Até que o sino da porta tocou novamente.
Heitor entrou.
E o mundo pareceu desacelerar.
O macacão azul escuro, as mangas dobradas revelando antebraços fortes, o cabelo ainda úmido do banho. Ele parou na entrada, os olhos percorrendo o ambiente como quem procurava algo — ou alguém — e, quando encontrou, o ar pareceu mudar.
Clara estava ali.
Exatamente como ele lembrava do dia anterior: viva, apressada, e com aquele olhar que oscilava entre impaciência e curiosidade.
Um sorriso discreto escapou de seus lábios antes que pudesse evitar.
Ela só percebeu sua presença quando se virou para pegar o dinheiro na mochila. O olhar dos dois se cruzou.
Um instante.
Silêncio.
O tempo pareceu se curvar ao redor deles, como se o som das conversas e o tilintar das xícaras tivessem sido engolidos por algo invisível.
Clara piscou, surpresa, mas logo disfarçou com um sorriso rápido, quase zombeteiro.
— Você tá me seguindo? — perguntou, arqueando uma sobrancelha.
Heitor sorriu de canto, debochado.
— Coincidência. Juro.
Ela riu, incrédula.
— Jura m*l. — Pegou o pacote com o doce e o encarou. — Cuidado pra não atropelar ninguém aqui dentro — disse, baixinho, sarcástica.
Heitor soltou um riso breve, aquele meio sorriso que não chegava totalmente aos olhos, mas que tinha algo perigoso.
— Não costumo dirigir em padarias — respondeu, apoiando o cotovelo no balcão. — Mas você tem talento pra aparecer no caminho.
— Que sorte a minha — respondeu ela, apoiando o queixo na mão, provocadora. — Encontrar meu pior pesadelo duas manhãs seguidas.
Ele inclinou-se levemente, os olhos presos nos dela.
— Ainda com isso? Achei que já tinha superado o trauma.
— Difícil esquecer quem quase me atropelou e ainda acha graça — rebateu, cruzando os braços. Tentava parecer firme, mas o olhar curioso a traía.
— Olha… se eu fosse mesmo seu pior pesadelo, você já teria acordado. — A voz dele era baixa, quente, com um tom que misturava ironia e charme.
Clara mordeu o lábio, tentando disfarçar o riso.
— Ou talvez eu esteja presa nele.
Heitor riu. Um som rouco, breve, que pareceu atravessar o ar entre eles.
— Nesse caso, que sorte a minha.
A atendente devolveu o troco, quebrando o clima que se formava. Clara pegou o doce, ajeitou a mochila no ombro e respirou fundo. O ar agora tinha cheiro de café, açúcar… e algo mais. Algo que ela ainda não queria nomear.
Por alguns segundos, ficaram em silêncio. O barulho da máquina de espresso e o murmúrio das conversas pareciam distantes demais, como se o resto do mundo tivesse perdido o foco.
— Eu preciso ir — disse ela, sem muita convicção, mais para si mesma do que pra ele.
— Último ano? — perguntou ele, casual, mas tentando disfarçar o interesse real. Queria decifrar o quanto ela ainda era “menina” e o quanto já era mulher.
— Uhum. Finalmente — respondeu com um sorriso de alívio.
Heitor desviou o olhar por um instante, como se aquela resposta tivesse um peso que ele não queria admitir.
A diferença de idade entre eles começava a se insinuar na conversa, silenciosa, perigosa.
— Boa sorte, então — disse ele, a voz mais baixa. — Essa parte da vida é barulhenta… mas passa rápido demais.
Clara arqueou a sobrancelha, divertida.
— Profundo demais pra essa hora da manhã.
Ele deu um leve sorriso.
— Culpa sua. Você tem cara de quem faz as pessoas pensarem sem querer.
Ela riu, desviando os olhos.
— Não sei se isso é elogio ou aviso.
— Os dois — respondeu, dando o último gole no café antes de deixar a xícara no balcão. — E, por via das dúvidas, vou sair antes que o destino resolva me colocar de novo no seu caminho.
Clara o encarou, desafiando-o.
— Tarde demais — murmurou.
Heitor parou, surpreso com a resposta. Depois, sorriu — um sorriso lento, que parecia dizer mais do que as palavras.
— Eu sei.
Olhou o relógio, hesitou por um segundo, e então perguntou:
— Posso te acompanhar até a esquina?
Clara respirou fundo. Parte dela queria rir e recusar. Outra parte — a mais curiosa, a que já sentia o coração bater mais rápido — queria aceitar.
— Até a esquina — respondeu, firme, como quem impõe um limite que ela mesma não acreditava.
Saíram juntos. O sol do início da manhã os envolveu num calor úmido, e o som dos carros preencheu o ar. Caminharam lado a lado, o silêncio entre eles mais confortável do que deveria ser.
— Você sempre vem aqui? — perguntou ele, casual, tentando prolongar aquele encontro.
— Só quando o mundo está insuportável — respondeu ela. — Ou quando preciso de açúcar pra não cometer um crime durante as provas.
Heitor riu.
— Ainda bem que o doce veio antes do crime, então.
Ela o olhou de lado, divertida.
— É, e olha só, ainda tive que lidar com o culpado do quase atropelamento. Meu dia tá completo.
— Espero que não seja tão r**m quanto parece — disse ele, o olhar firme. — Quem sabe, da próxima vez, a coincidência seja menos… trágica.
Clara ergueu o queixo, desafiadora.
— Pesadelos às vezes se repetem.
Heitor sorriu de leve.
— E às vezes eles são exatamente o que a gente precisa pra acordar pra vida.
Por um instante, ficaram apenas se olhando, parados na calçada. O vento morno levantou uma mecha do cabelo dela, que ele acompanhou com os olhos, sem disfarçar o interesse.
Ela sentiu o rosto corar e desviou o olhar, fingindo arrumar a alça da mochila.
O sinal abriu, e eles atravessaram a rua juntos. O tempo parecia se alongar, cada passo deixando no ar um rastro de algo que nenhum dos dois sabia explicar — um começo disfarçado de acaso.
Quando chegaram à esquina, Clara parou.
— É daqui que eu sigo sozinha.
Heitor assentiu, mas demorou um segundo a mais pra dar o passo pra trás.
— Então… boa sorte nas provas, Clara.
Ela piscou, surpresa por ele lembrar o nome que m*l havia dito.
— Obrigada… Heitor.
E então, pela primeira vez, o nome dele saiu dos lábios dela — suave, quase um segredo.
Ele sorriu.
— Espero te encontrar de novo.
— Pesadelos às vezes se repetem — respondeu, provocando.
Ele deu um passo para trás, os olhos ainda presos nos dela.
— Tomara que esse nunca acabe — disse, antes de se virar e seguir seu caminho.
Clara ficou parada por alguns segundos, observando-o se afastar. O sol refletia nos fios escuros do cabelo dele, e ela percebeu — com um incômodo doce — que não queria que aquele “pesadelo” terminasse tão cedo.
Enquanto voltava a andar, sentiu o coração bater rápido, como se o mundo tivesse mudado um pouco de cor naquele dia.
E foi assim, sem perceber, que Clara começou a sonhar com o homem que chamaria de destino — e que, sem saber, já começava a mudar o dela.