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QUANDO O CORAÇÃO NÃO ESQUECE

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Blurb

Clara sempre acreditou que alguns encontros acontecem por acaso.Heitor sempre achou que nada na vida é coincidência.Ela, uma garota de olhos curiosos, riso fácil e sonhos grandes demais para o tamanho da cidade onde cresceu.Ele, um homem de poucas palavras, dono de uma oficina e de um passado que aprendeu a esconder sob o barulho dos motores.O destino colocou os dois frente a frente — e, desde o primeiro “aí, pesadelo”, nada mais foi igual.Mas o tempo, implacável, separou o que parecia inevitável: ela partiu em busca do futuro, enquanto ele ficou, preso às lembranças e a um Fusca azul que restaurou com o mesmo cuidado de quem tenta consertar um coração partido.Meses depois, quando a vida decide cruzar seus caminhos outra vez, Clara não é mais a menina que ele conheceu.E Heitor descobre que o amor, quando é verdadeiro, não se apaga — apenas muda de forma, de lugar e de tempo.Entre o cheiro de óleo e maresia, cartas não enviadas e um anel gravado com as palavras “meu maior pesadelo”, nasce uma história sobre reencontro, perdão e destino.Porque, às vezes, o que parece um pesadelo é, na verdade, o sonho que a vida escolheu pra você.

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Primeiro olhar
O céu estava tingido de tons pálidos de azul e cinza, como se a manhã tivesse acordado com preguiça, e o sol mau conseguia atravessar as nuvens dispersas. O cheiro da chuva da noite anterior ainda pairava no ar, misturado ao perfume doce e amargo das flores dos canteiros da calçada. Clara sentiu o aroma da terra molhada subir pelo seu nariz, despertando uma sensação de nostalgia que ela não conseguia explicar — como se cada gota ainda estivesse guardando histórias que ela não vivera. Caminhava jeitando a mochila nas costas pequenas, o uniforme um pouco largo sobre seus ombros finos, e sentindo o coração bater mais rápido do que o normal. Tinha um metro e meio, mas carregava uma presença delicada, quase etérea, com seus cabelos lisos loiros escuros caindo suaves pelo ombro. Seus olhos cor de mel brilhavam à luz tênue da manhã, refletindo curiosidade e um toque de timidez, enquanto suas mãos escondiam um livro que ela segurava como um escudo, ao mesmo tempo em que cheirava levemente a essência de baunilha que sempre usava. A chuva chegou sem aviso, uma chuva fina que caia sobre o asfalto, tornando o trânsito lento. Cada poça refletia os prédios e postes, transformando o chão em um espelho molhado que captava o céu nublado e os reflexos dos carros que passavam. Clara correu pela calçada, mochila jogada para trás, cabelos lisos e molhados grudando no rosto. O uniforme da escola começando a colar à pele, revelando sua figura magra e pequena, mas cheia de energia e determinação. Cada passo levantava pequenas gotas que se misturavam à chuva - d***a… esse trânsito devia vir com manual de sobrevivência — resmungou, desviando das poças. Do outro lado da rua, um carro preto cortava a chuva como uma lâmina. O ronco do motor se destacava no ar molhado. O carro parou e esperou o sinal abrir, atrás do volante o motorista estava impaciente, dias de chuva o deixava de mau humor. O sinal abriu e ele acelerou, no mesmo instante que Clara atravessou a sua frente. O som do freio rasgou o silêncio da chuva. Os pneus deslizaram na água e o carro parou a centímetros do corpo dela. Clara tropeçou, cambaleou, sentiu o coração colidir contra o peito — e se segurou no poste mais próximo. Por um segundo, o mundo pareceu parar. Só havia o barulho da chuva batendo no capô, e o cheiro de borracha quente e susto. — Nossa! Você está tentando me atropelar? — o coração acelerado, respirando rápido. Ele desceu do carro, ombros largos, braços fortes que se destacavam mesmo sob macacão escuro. Seus cabelos loiros claros começando a ficar molhados e os óculos escuros escondiam o mistério do olhar, mas não o suficiente para que Clara não sentisse a arrogância que ele exalava só de estar ali. O sorriso dele era enigmático, quase desafiador, como se ele conhecesse segredos do mundo que ninguém mais sabia, mandíbulas fortes e marcadas pela barba por fazer. Ele parecia a própria definição de controle: acostumado a consertar motores e resolver problemas que ninguém mais conseguiria. — Você está bem? — disse, tentando manter a calma, embora o susto ainda apertasse o peito. — Estou bem… milagrosamente! — respondeu Clara, jogando o cabelo molhado para trás, os olhos ainda brilhando pelo susto e pela adrenalina. - Mas você quase me transformou em um borrão no asfalto. Ele suspirou fundo, tentando disfarçar o próprio nervosismo. - Você tem costume de jogar o carro em cima das pessoas? - perguntou ela, respirando fundo, olhos castanhos brilhando de ironia enquanto juntava os livros do chão. Ele se aproximou, o cheiro de sua colônia levemente amadeirada chegou primeiro, Clara percebeu cada detalhe — a postura firme, os passos silenciosos, a confiança que parecia dominar cada gestos. — Não… só com as que têm coragem suficiente para atravessar na minha frente. — disse ele, se abaixou para ajudar ela pegar os livros. — Não sei se é coragem ou burrice — Ela resmungou pra si mesma Ele riu, baixo, fascinando-se com a audácia dela. — Você quase virou estatística hoje, mocinha. Clara riu, um riso nervoso, meio debochado: — E você quase virou meu pior pesadelo. Ele arqueou a sobrancelha, divertido, a água pingando do cabelo e do macacão. Por um instante, os dois se encararam. O som da chuva ficou mais distante, como se o mundo tivesse reduzido o volume só para eles. Heitor piscou devagar, observando-a: o rosto delicado, as sobrancelhas finas e arqueadas, o nariz pequeno e teimoso, o olhar firme de quem não se deixa intimidar. — Maior pesadelo? Eu? — Sim! — respondeu ela, levantando com os livros da mão — Não é no sonho de nenhuma garota acordar de manhã para ser atropelada por um cara de macacão, dirigindo uma máquina desgovernada. Ele inclinou a cabeça, um sorriso nascendo no canto da boca — não o sorriso fácil, mas aquele que vem junto de uma provocação. — Então sou o seu maior pesadelo? — perguntou, a voz baixa, intensa, carregada de curiosidade. Clara deu um meio sorriso, sarcástico, quase cúmplice: — Quase — rebateu Clara, mordendo o lábio inferior, o olhar firme desafiando cada gesto dele. — Foi esperto o suficiente para frear. O silêncio que se seguiu tinha a densidade da chuva e o cheiro de terra molhada. Havia algo estranho no jeito que ela o olhava — curiosidade misturada com desafio — e algo em Heitor que dizia que ele queria conhecer aquela garota que não tinha medo de provocar. — Heitor — disse ele, estendendo a mão encharcada. Ela hesitou por um instante, depois apertou a mão dele. A palma quente contrastava com o frio que os cercava. — Clara Ele manteve o olhar fixo por um segundo a mais do que deveria. Notou o brilho nos olhos dela, o jeito que os lábios tremiam não só de frio, mas de uma insolência viva. — Posso te dar uma carona? — perguntou, com uma calma ensaiada, como se não se importasse com a resposta. — Não precisa — respondeu ela, ajeitando a mochila. — É logo ali. E, sinceramente, já cometi a burrice de passar na frente do seu carro, não vou cometer outra burrice aceitando carona de estranho - arqueou a sobrancelha. — Eu não sou tão inconsequente assim. Mas ele não conseguiu simplesmente ir embora. — Então deixa eu pelo menos te acompanhar até lá. Quero garantir que chegue viva. Clara hesitou, mas acabou aceitando. — Você me parece inofensivo longe das suas quatro rodas. Ele soltou um riso breve, de canto. - Eu já fui chamado de muita coisa - A voz dele era firme, provocativa, quase um convite disfarçado.- mas inofensivo é novidade pra mim. Foram caminhando lado a lado, sob a garoa que agora parecia mais leve. Os passos ecoavam nas poças, e a respiração dos dois se misturava ao vapor frio que saía de suas bocas. O cheiro do café de uma padaria próxima se misturava ao da chuva, criando um ar de pausa, como se o mundo os observasse com curiosidade. Ele olhou para ela de soslaio. Ela fingiu não perceber. Nos poucos minutos de caminhada, entre olhares demorados, sorrisos nervosos e provocações ácidas, a chuva fina caía como cortina sobre eles. Cada passo, cada risada, cada toque quase acidental carregava uma tensão elétrica que ele não conseguiu explicar, uma faísca incômoda, quente, que o destino parecia ter acendido de propósito

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