Primeiro olhar
O céu estava tingido de tons pálidos de azul e cinza, como se a manhã tivesse acordado com preguiça, e o sol mau conseguia atravessar as nuvens dispersas. O cheiro da chuva da noite anterior ainda pairava no ar, misturado ao perfume doce e amargo das flores dos canteiros da calçada. Clara sentiu o aroma da terra molhada subir pelo seu nariz, despertando uma sensação de nostalgia que ela não conseguia explicar — como se cada gota ainda estivesse guardando histórias que ela não vivera.
Caminhava jeitando a mochila nas costas pequenas, o uniforme um pouco largo sobre seus ombros finos, e sentindo o coração bater mais rápido do que o normal. Tinha um metro e meio, mas carregava uma presença delicada, quase etérea, com seus cabelos lisos loiros escuros caindo suaves pelo ombro. Seus olhos cor de mel brilhavam à luz tênue da manhã, refletindo curiosidade e um toque de timidez, enquanto suas mãos escondiam um livro que ela segurava como um escudo, ao mesmo tempo em que cheirava levemente a essência de baunilha que sempre usava. A chuva chegou sem aviso, uma chuva fina que caia sobre o asfalto, tornando o trânsito lento. Cada poça refletia os prédios e postes, transformando o chão em um espelho molhado que captava o céu nublado e os reflexos dos carros que passavam.
Clara correu pela calçada, mochila jogada para trás, cabelos lisos e molhados grudando no rosto. O uniforme da escola começando a colar à pele, revelando sua figura magra e pequena, mas cheia de energia e determinação. Cada passo levantava pequenas gotas que se misturavam à chuva
- d***a… esse trânsito devia vir com manual de sobrevivência — resmungou, desviando das poças.
Do outro lado da rua, um carro preto cortava a chuva como uma lâmina. O ronco do motor se destacava no ar molhado. O carro parou e esperou o sinal abrir, atrás do volante o motorista estava impaciente, dias de chuva o deixava de mau humor.
O sinal abriu e ele acelerou, no mesmo instante que Clara atravessou a sua frente.
O som do freio rasgou o silêncio da chuva. Os pneus deslizaram na água e o carro parou a centímetros do corpo dela. Clara tropeçou, cambaleou, sentiu o coração colidir contra o peito — e se segurou no poste mais próximo.
Por um segundo, o mundo pareceu parar. Só havia o barulho da chuva batendo no capô, e o cheiro de borracha quente e susto.
— Nossa! Você está tentando me atropelar? — o coração acelerado, respirando rápido.
Ele desceu do carro, ombros largos, braços fortes que se destacavam mesmo sob macacão escuro. Seus cabelos loiros claros começando a ficar molhados e os óculos escuros escondiam o mistério do olhar, mas não o suficiente para que Clara não sentisse a arrogância que ele exalava só de estar ali. O sorriso dele era enigmático, quase desafiador, como se ele conhecesse segredos do mundo que ninguém mais sabia, mandíbulas fortes e marcadas pela barba por fazer. Ele parecia a própria definição de controle: acostumado a consertar motores e resolver problemas que ninguém mais conseguiria.
— Você está bem? — disse, tentando manter a calma, embora o susto ainda apertasse o peito.
— Estou bem… milagrosamente! — respondeu Clara, jogando o cabelo molhado para trás, os olhos ainda brilhando pelo susto e pela adrenalina. - Mas você quase me transformou em um borrão no asfalto.
Ele suspirou fundo, tentando disfarçar o próprio nervosismo.
- Você tem costume de jogar o carro em cima das pessoas? - perguntou ela, respirando fundo, olhos castanhos brilhando de ironia enquanto juntava os livros do chão.
Ele se aproximou, o cheiro de sua colônia levemente amadeirada chegou primeiro, Clara percebeu cada detalhe — a postura firme, os passos silenciosos, a confiança que parecia dominar cada gestos.
— Não… só com as que têm coragem suficiente para atravessar na minha frente. — disse ele, se abaixou para ajudar ela pegar os livros.
— Não sei se é coragem ou burrice — Ela resmungou pra si mesma
Ele riu, baixo, fascinando-se com a audácia dela.
— Você quase virou estatística hoje, mocinha.
Clara riu, um riso nervoso, meio debochado:
— E você quase virou meu pior pesadelo.
Ele arqueou a sobrancelha, divertido, a água pingando do cabelo e do macacão. Por um instante, os dois se encararam. O som da chuva ficou mais distante, como se o mundo tivesse reduzido o volume só para eles. Heitor piscou devagar, observando-a: o rosto delicado, as sobrancelhas finas e arqueadas, o nariz pequeno e teimoso, o olhar firme de quem não se deixa intimidar.
— Maior pesadelo? Eu?
— Sim! — respondeu ela, levantando com os livros da mão — Não é no sonho de nenhuma garota acordar de manhã para ser atropelada por um cara de macacão, dirigindo uma máquina desgovernada.
Ele inclinou a cabeça, um sorriso nascendo no canto da boca — não o sorriso fácil, mas aquele que vem junto de uma provocação.
— Então sou o seu maior pesadelo? — perguntou, a voz baixa, intensa, carregada de curiosidade.
Clara deu um meio sorriso, sarcástico, quase cúmplice:
— Quase — rebateu Clara, mordendo o lábio inferior, o olhar firme desafiando cada gesto dele. — Foi esperto o suficiente para frear.
O silêncio que se seguiu tinha a densidade da chuva e o cheiro de terra molhada. Havia algo estranho no jeito que ela o olhava — curiosidade misturada com desafio — e algo em Heitor que dizia que ele queria conhecer aquela garota que não tinha medo de provocar.
— Heitor — disse ele, estendendo a mão encharcada.
Ela hesitou por um instante, depois apertou a mão dele. A palma quente contrastava com o frio que os cercava.
— Clara
Ele manteve o olhar fixo por um segundo a mais do que deveria. Notou o brilho nos olhos dela, o jeito que os lábios tremiam não só de frio, mas de uma insolência viva.
— Posso te dar uma carona? — perguntou, com uma calma ensaiada, como se não se importasse com a resposta.
— Não precisa — respondeu ela, ajeitando a mochila. — É logo ali. E, sinceramente, já cometi a burrice de passar na frente do seu carro, não vou cometer outra burrice aceitando carona de estranho - arqueou a sobrancelha. — Eu não sou tão inconsequente assim.
Mas ele não conseguiu simplesmente ir embora.
— Então deixa eu pelo menos te acompanhar até lá. Quero garantir que chegue viva.
Clara hesitou, mas acabou aceitando.
— Você me parece inofensivo longe das suas quatro rodas.
Ele soltou um riso breve, de canto.
- Eu já fui chamado de muita coisa - A voz dele era firme, provocativa, quase um convite disfarçado.- mas inofensivo é novidade pra mim.
Foram caminhando lado a lado, sob a garoa que agora parecia mais leve. Os passos ecoavam nas poças, e a respiração dos dois se misturava ao vapor frio que saía de suas bocas. O cheiro do café de uma padaria próxima se misturava ao da chuva, criando um ar de pausa, como se o mundo os observasse com curiosidade.
Ele olhou para ela de soslaio.
Ela fingiu não perceber.
Nos poucos minutos de caminhada, entre olhares demorados, sorrisos nervosos e provocações ácidas, a chuva fina caía como cortina sobre eles. Cada passo, cada risada, cada toque quase acidental carregava uma tensão elétrica que ele não conseguiu explicar, uma faísca incômoda, quente, que o destino parecia ter acendido de propósito