Capítulo 07

1633 Words
O motor da lixadeira chiava, misturando-se ao som ritmado dos martelos. O cheiro de tinta, ferrugem e óleo queimado se espalhava pela oficina, grudando na pele, nas roupas, em tudo. Heitor limpava as mãos no pano, o rosto marcado pelo calor e pela luz amarelada do galpão. Mais um dia começava, igual a tantos outros — ou quase. Nas últimas semanas a rotina era o que o mantinha de pé. O trabalho começava cedo, antes do sol nascer, e só terminava quando o corpo pedia descanso. Era mais fácil lidar com a dor quando as mãos estavam ocupadas. Difícil era quando o silêncio chegava — quando a lembrança dela, Clara, vinha sem pedir licença. Ele ainda não sabia explicar por que pensava nela todos os dias. Era como uma canção antiga que não se esquece, mesmo que o nome escape. Uma sensação viva e incômoda, como se algo dentro dele ainda esperasse por um reencontro que nunca veio. A manhã estava clara, o sol nascendo preguiçoso por trás dos prédios quando o som grave de um motor antigo queixou-se na entrada da oficina. Heitor levantou os olhos das ferramentas e viu o Fusca azul-claro, 1974, estacionando devagar diante da porta aberta. Um homem de meia-idade, desceu do carro expressão serena, mas olhar firme, o tipo de pessoa que fala pouco e pensa muito antes de dizer qualquer coisa. Tinha o cabelo grisalho bem aparado, o relógio caro no pulso, e um jeito educado, mas impositivo, de quem estava acostumado a ser ouvido. A camisa social dobrada nos cotovelos, e um olhar calmo, mas havia ali um tipo de cansaço que não vinha do corpo — vinha da saudade. — Você é o Heitor, certo? — perguntou, estendendo a mão. — Eu sou Marcelo, me disseram que você é bom com restaurações. Heitor assentiu, limpando as mãos na flanela. — Depende do que o senhor quer restaurar — respondeu, lançando um olhar para o Fusca. — Esse aí parece ter história. O homem soltou um riso leve, quase nostálgico. — Tem, e muita. Esse carro é mais do que um carro pra mim. É… — ele hesitou, olhando o painel como quem encara uma lembrança. — É parte da minha vida. E da vida da minha filha também. Heitor se aproximou, passou a mão pela lataria riscada, sentindo o ** e o tempo acumulados. — Fusca 74. Clássico. Ainda com o motor original. — É — o homem confirmou, orgulhoso. — Era meu desde que me entendo por gente. Era do meu pai, passou para mim quando fiz dezoito anos. Foi com ele que levei minha esposa no primeiro passeio, e… — ele parou por um segundo — foi o carro em que trouxe minha filha da maternidade. Um silêncio breve se instalou entre os dois, o tipo de silêncio que diz mais do que qualquer palavra. O homem continuou, tentando disfarçar a emoção: — Ela tem um apego especial por esse carro. Cresceu nele. Dormia no banco de trás nas viagens, aprendeu a dirigir aqui dentro. Diz que o som do motor é igual ao som da infância dela. Heitor sorriu de leve, tocando o capô com cuidado. — Então quer deixá-lo novo pra ela? — É. — Ele assentiu. — Ela acabou de entrar para a faculdade, foi difícil deixar ela crescer, enfrentar o mundo sozinha longe de nós, mas ele é forte, decidida… sempre soube o que queria. — Ele deu um meio sorriso triste. — Desculpe, eu estou um pouco emotivo, só Deus sabe a falta que sinto daquela garota. Heitor sabia exatamente o que ele estava dizendo, uma garota também não saia dos eu pensamento deixando o peito apertado de angústia e saudade. - Quero dar o carro de presente em comemoração ao seus dezoito anos. Heitor arqueou as sobrancelhas. — É um belo gesto. E Quando ela volta? O homem pensou um instante antes de responder, com a voz baixa e firme: — Fim de junho. - disse ele - Vai ser bom ter ela em casa novamente mesmo por pouco tempo, a casa parece vazia sem ela. Heitor apenas assentiu, compreendendo o peso daquilo. — Pode deixar comigo, eu vou cuidar bem dele. O homem abriu um leve sorriso e, ao entregar as chaves, disse com uma calma quase solene: — Cuide bem mesmo, rapaz. Esse carro vai levar dentro dele o meu bem mais precioso. Heitor segurou as chaves por um momento, sentindo o peso simbólico daquelas palavras. Observou o homem se afastar a passos lentos, até desaparecer na rua. Ficou sozinho diante do Fusca, o sol refletindo nas curvas enferrujadas e o vento soprando poeira pela porta da oficina. Naquele instante, ele não sabia por quê, mas sentiu que aquele carro trazia algo diferente — uma história que ainda estava por ser contada. Nos dias seguintes, o Fusca azul tomou o centro da oficina. Heitor desmontou cada peça com paciência. O motor, enferrujado, parecia suspirar sob suas mãos, como se acordasse depois de um sono longo demais. O cheiro de graxa enchia o ar, e o som das ferramentas era o único diálogo. Enquanto lixava a lataria, ele sentia algo diferente. Era mais que um trabalho — era quase pessoal. Havia algo naquele carro que o fazia lembrar de coisas que não sabia de onde vinham: o vento batendo no rosto, o som de uma risada leve, a sensação de dirigir ao entardecer com o coração leve. Certa tarde, Marcelo voltou. Trazia nas mãos uma garrafa de café e dois pães embrulhados num guardanapo. — Trouxe reforço. Muita poeira pra um homem só — disse ele, sorrindo. Heitor riu, aceitando o copo de café. — Tem dias que o motor parece uma fera teimosa. Mas ele tá reagindo. Marcelo se aproximou do Fusca, passou a mão sobre o capô e respirou fundo. — Sabe o que é curioso? — continuou Marcelo. — minha filha ama esse motor barulhento, diz que o barulho do motor parecia uma canção de ninar antiga, que esse barulho é... reconfortante. Heitor sorriu, mexendo na ferramenta. — Tem gente que se apega a sons, cheiros... pequenas coisas que o resto do mundo ignora. — É. E às vezes são essas coisas que fazem a gente voltar pra casa — respondeu Marcelo, olhando o carro com carinho e lembrando da filha que estava longe. - Você parece sentir muita falta dela - Heitor comentou mais pra si mesmo do que para Marcelo. - Você não imagina o quanto. O silêncio se instalou, pesado e bonito ao mesmo tempo. O outono chegou sem pedir licença. O calor intenso deu lugar a um vento frio que entrava pelas frestas das janelas, e as árvores começaram a despir-se devagar, como se o tempo também sentisse o cansaço que vivia dentro dela. Clara já contava quase três meses desde a mudança. As aulas, antes um refúgio de novidade, agora eram apenas parte de uma rotina que começava cedo e terminava tarde. Acordava com o despertador insistente, tomava café apressada e caminhava até o ponto de ônibus com os fones nos ouvidos, tentando abafar o barulho do mundo. Mas nada calava o som do próprio coração — aquele compasso lento e doído de quem ainda espera por algo que não sabe se volta. Na faculdade, os rostos familiares começavam a surgir. Colegas de turma, sorrisos apressados, conversas sobre provas e trabalhos. Clara participava, mas com a mente distante. Enquanto os outros planejavam festas, ela planejava sobreviver ao fim de mais um dia sem lembrar dele. Ou, pelo menos, tentava. Nos intervalos, sentava-se sozinha no jardim da universidade, um pequeno espaço cercado por bancos de pedra e árvores baixas. O sol passava pelas folhas e desenhava sombras no chão, e ela gostava de observar o movimento das pessoas. Ali, ninguém a conhecia de verdade. Podia ser apenas mais uma estudante distraída, sem que ninguém percebesse o turbilhão que ela carregava por dentro. Às vezes, abria o caderno e desenhava sem pensar: um carro antigo, uma estrada, ou o contorno de um rosto que o tempo tentava apagar, mas ela insistia em relembrar. Outras vezes, escrevia frases soltas — pedaços de lembranças que não se encaixavam em lugar nenhum. No fim da tarde, voltava para o apartamento. As luzes da cidade acendiam-se devagar, e as janelas dos prédios vizinhos exibiam fragmentos de vidas que pareciam seguir naturalmente. Casais jantando, crianças rindo, gente voltando do trabalho. Ela observava por alguns minutos antes de fechar as cortinas e se recolher. O silêncio era o pior de todos. Nas primeiras semanas, deixava a televisão ligada só para não ouvir o eco da própria respiração. Mas depois, o barulho começou a incomodar. Então, desligou tudo. Agora, havia apenas o som dos próprios passos no chão frio e o tic-tac insistente do relógio da cozinha. Às vezes, o celular vibrava. E o coração disparava, mesmo sabendo que não seria ele. Nunca era. Do outro lado, a vida de Heitor seguia o mesmo compasso silencioso. As manhãs começavam antes do sol nascer. O barulho do portão de ferro subindo, o cheiro de graxa misturado ao de café forte, e o rádio velho sempre ligado em alguma estação qualquer. Era assim que ele espantava a solidão — com trabalho. Mãos ocupadas, mente cansada, coração preso num tempo que não voltava. Os outros mecânicos brincavam, falavam sobre futebol, sobre as mulheres que conheciam nos bares, e ele apenas ouvia. Às vezes sorria, por educação. Mas dentro, nada se movia. Aos poucos, até o sorriso se tornava um gesto automático. Quando terminava o expediente, não voltava direto pra casa. Pegava o carro e dirigia sem destino. Passava por ruas conhecidas, pelas praças onde costumava encontrá-la, pelas padarias que guardavam lembranças demais. Sempre na esperança tola de que, por acaso, ela estivesse ali. Mas o acaso parecia tê-los esquecido.
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