Feliz aniversário

1150 Words
O relógio marcava quase três a horas da tarde, e o calor dentro da oficina era denso, misturado ao cheiro de óleo e metal aquecido. Heitor estava curvado sobre o capô de um carro antigo, as mãos firmes, o olhar concentrado. O rádio tocava baixo, uma música sertaneja dos anos noventa, meio fora de sintonia. Tinha dormido pouco outra vez — passara a noite anterior terminando o alinhamento do chassi, tentando cumprir o prazo apertado que ele mesmo prometera. O cliente ligara três vezes naquela semana, ansioso, e Heitor se cobrava mais do que deveria. Já era quase metade de novembro a oficina estava cheia, mas o carro — o maldito carro do prazo — finalmente ronronava com o som perfeito de motor bem ajustado. Heitor limpou as mãos, olhou o relógio e sorriu. Ainda faltava quase quatro horas para odia de trabalho acabar, e, pela primeira vez em semanas, ele sentiu que podia respirar. O corpo pedia descanso, mas a mente insistia em pensar nela. Clara. Já fazia 63 dias que não a via pessoalmente. As mensagens trocadas nas madrugadas eram o único respiro no meio da correria. As vozes nos áudios — dele rouca, cansada, e a dela leve, rindo entre as palavras — pareciam manter o mundo em equilíbrio. Mas hoje, nem o celular tinha vibrado ainda. Ela devia estar em aula, pensou. Talvez com prova, talvez exausta também. Pegou o pano, limpou o suor da testa e respirou fundo. Mais um dia comum, igual a tantos. Do outro lado da estrada, o ônibus já se aproximava da entrada da cidade. Clara acordou com o anúncio do motorista e olhou pela janela. O coração deu um salto quando reconheceu os telhados baixos e as árvores que cercavam o bairro industrial. Estava de volta Pegou o celular e enviou uma mensagem Clara: “Hoje o céu está perfeito. Só falta você comigo” Ele respondeu com uma foto do carro pronto, as luzes refletindo o brilho da pintura. Heitor: “Terminei, o motor, finalmente e agora posso ir te ver. " Clara desceu do ônibus, ajeitou o casaco e chamou um carro por aplicativo. Durante o trajeto, observava as ruas familiares passando depressa, o sol escorrendo pelas calçadas, as lojas conhecidas. Tudo parecia igual, mas dentro dela havia uma vibração nova, como se fosse a primeira vez que o via. Quando o carro dobrou a esquina e a fachada azul da oficina apareceu, o coração dela quase saiu pela boca. Lá estava ele — de costas, concentrado, o corpo firme, o macacão manchado de graxa. Mesmo à distância, ela reconhecia cada gesto: o jeito de coçar o queixo quando pensava, de inclinar a cabeça quando algo dava errado. Pediu pro motorista parar um pouco antes e desceu devagar, andando até o portão aberto. A luz batia sobre o chão de cimento e o cheiro de motor se misturava ao vento quente. Heitor nem percebeu a presença dela de imediato. Clara encostou na grade, observando-o em silêncio por alguns segundos. Era um momento simples, mas ela sentiu vontade de guardar para sempre, a imagem dele ali, inteiro, real, o motivo de cada saudade. — Então é esse o carro que me roubou de você? — ela disse, rindo, com a voz leve. Ele virou-se rápido, surpreso. Por um instante, o mundo pareceu parar. — Clara? — perguntou, sem acreditar. Ela assentiu, abrindo um sorriso largo. — Feliz aniversário, seu esquecido. Ele piscou, confuso. — Meu... aniversário? Como você... — Eu tenho meus segredos — respondeu, rindo. — Achei que precisava ver o aniversariante com meus próprios olhos. Heitor largou a chave de boca sobre a bancada e caminhou até ela, ainda atordoado. Quando chegou perto, o cheiro familiar de lavanda e o calor da presença dela o atingiram como um golpe doce. — Você veio sozinha? — perguntou, ainda sem processar. — Claro. Achei que você não ia dar uma pausa pra me ver, então vim eu mesma. Ele riu, passando a mão pelos cabelos, meio nervoso, meio encantado. — Eu iria no fim de semana juro. — E eu teria que te dar parabéns por mensagem? — ela provocou. — Ainda bem que eu não esperei. Antes que ele respondesse, ela o abraçou. Um abraço firme, cheio de tudo o que faltou nas semanas de distância. O corpo dele relaxou na hora, como se encontrasse repouso depois de uma longa espera. — Eu devia brigar com você por dirigir seis horas num dia de semana — murmurou ele, a voz abafada contra o cabelo dela. — Não dirigi, vim de ônibus. Eu precisava estudar, tenho prova na quinta — Ela ergueu o olhar e sorriu. — Viagem produtiva. Ele riu baixo, um som que misturava amor e incredulidade. — Você é doida, Clara. — Eu sou apaixonada . — Ela apertou a aliança no dedo. — É nossa promessa lembra? Heitor se afastou só o suficiente para olhar pra ela. O rosto dela estava corado pelo calor e pela emoção. Era uma cena que ele não queria esquecer. — Eu não comemoro aniversário desde minha época de adolescente. Impossível eu ter te falado a data — ele olhou para ela com um olhar de interrogação — Achei sua habilitação na gaveta do escritório uns meses atrás . — Ela deu de ombros. — Não resisti. Ele balançou a cabeça, rindo. — Você é uma garota muito curiosa — Eu sou garota que veio minar voce no dia do seu aniversário. E vou começar tirando você dessa oficina pelo menos por hoje. — Ela apontou para o relógio na parede. — Tá proibido de trabalhar no próprio aniversário. — Tenho prazo... — Você já o cumpriu, o carro está pronto. — Ela interrompeu, firme. — E eu não vou dividir você com nada e nem ninguém hoje. O silêncio que se seguiu era carregado de ternura. Heitor suspirou e tirou as luvas, rendido. — Tá bem. Me dá quinze minutos pra fechar aqui. — Não me enrola, eu sei que o Luiz pode fechar a oficina sem problemas. — Ela cruzou os braços, fingindo seriedade. Ele riu, pegou o pano e começou a limpar as mãos. O olhar trocado entre eles era puro entendimento, aquele tipo de amor que se reconhece sem precisar de explicação. O mesmo homem que um dia parecia inalcançável agora era só o Heitor dela, simples, suado, de sorriso provocador e coração enorme. — Então, pra onde vai me levar dona Clara? Ela entrelaçou os dedos nos dele e respondeu: — No momento para um banho. Ele a olhou com olhar provocador e malicioso. - Para um banho? - Não se anima não grandão, você já tem idade suficiente para tomar banho sozinho. Eles subiram juntos as escadas que dava para o apartamento superior, o sol de novembro entrando pelas janelas como se o tempo tivesse esperado exatamente aquele momento pra se mover outra vez.
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