Visita surpresa

1017 Words
O semestre m*l havia começado, e Clara já sentia o peso da rotina. Acordava cedo, tomava café olhando pela janela do pequeno apartamento e caminhava até a faculdade com o frio de agosto cortando o rosto. As aulas eram longas, as leituras intermináveis, mas o que mais doía era o silêncio entre uma mensagem e outra de Heitor. Desde as férias de junho, o mundo dela tinha mudado. O reencontro inesperado, o jantar que ele preparara antes dela voltar — mesa posta, vinho barato, e aquele brilho calmo nos olhos dele quando tirou do bolso uma pequena caixa. Dentro, duas alianças simples, de prata, com um brilho discreto e eterno. — É um compromisso— dissera ele, sorrindo, com a voz rouca de emoção. Ela riu, o coração leve, e respondeu com um beijo que dizia tudo o que as palavras não conseguiam. No dia seguinte, Clara partiu de volta para a faculdade, levando a aliança no dedo e a lembrança da noite anterior gravada na pele. Mas, com o passar das semanas, a distância começou a pesar. O apartamento cheirava a lavanda e livros novos. As paredes claras e os quadros tortos davam um ar acolhedor, e o Fusca azul, estacionado na rua, era sua companhia fiel — o som do motor era o eco de casa. Nos fins de tarde, Clara colocava uma música baixa, sentava-se na varanda com uma xícara de chá e deixava o vento brincar com o cabelo. As amigas da faculdade viviam aparecendo com histórias novas, convites, risadas altas nos corredores. Ela sorria, participava, mas no fundo carregava uma saudade que não sabia disfarçar. À noite, o celular sobre o travesseiro piscava com o nome dele — Heitor. “Tá frio aí?” “Pensei em você o dia todo.” “Faltam quantos dias pra eu te ver?” Cada mensagem era um alívio e uma tortura. Ela lia e relia, imaginando o tom da voz dele, o jeito como ele apertava o volante quando falava sério. Naquela sexta-feira, o entardecer veio cheio de espectativas tingindo o céu de tons rosados. A estrada parecia longa demais. Heitor ajustou o som do carro, mas nenhuma música parecia certa. Seis horas de viagem e um coração acelerado — era assim que se sentia ao ir ao encontro dela. Ela morava em uma cidade universitária pequena, onde tudo cheirava a começo. Casas simples, ruas arborizadas e jovens correndo com livros debaixo do braço. Era o cenário perfeito para ela — e o mais distante possível da vida controlada e previsível que ele levava. Clara estava na varanda, com um cobertor sobre as pernas, tentando revisar um texto da aula de anatomia, mas os olhos fugiam das páginas. O som distante de carros passando na avenida vinha misturado ao cheiro de chuva. Então, ouviu o ronco de um motor grave, diferente dos carros comuns. Olhou distraída — e o coração falhou uma batida. Na calçada em frente ao prédio, um esportivo preto acabava de estacionar. Os faróis apagaram devagar, e ela reconheceu o homem que desceu do carro: jaqueta escura, barba por fazer, aquele sorriso que ela conhecia melhor do que a própria voz. Heitor. O tempo pareceu parar. Ele ergueu o olhar para a varanda, e quando os olhos se encontraram, foi como se as semanas de distância evaporassem. — Não acredito... — murmurou Clara, levantando-se num salto. Correu pela sala, desceu as escadas com o coração disparado. Quando abriu o portão do prédio ele já estava ali, esperando, com o olhar cheio de saudade. — Eu tentei esperar mais um pouco... — disse ele, rindo nervoso. — Mas eu não consegui. Clara sorriu, pulou em seus braços, suas pernas envolvendo a cintura dele. — Você veio — ela disse, com os olhos brilhando. — Achei que precisava me lembrar como é te ver de perto, — ele respondeu, sem disfarçar a saudade. Heitor a abraçou mais forte ainda, não queria largar ela nunca mais. O frio desapareceu. O tempo, outra vez, se curvou ao amor que insistia em desafiar a distância. O céu agora estava tingido de dourado e azul-escuro, e o mundo inteiro parecia caber naquele abraço. O esportivo preto ficou ali, reluzindo sob a luz dos postes, enquanto o Fusca azul de Clara, do outro lado da rua, parecia assistir em silêncio — cúmplice e testemunha de uma história que, mais uma vez, recomeça a apesar da distância. Os dois passaram o fim de semana juntos. Sem pressão, e sem imposição, apenas um amor puro. Ela fazia questão de guiá-lo pela cidade — os cafés pequenos, a praça onde sentava com as com as amigas após as aulas, a faculdade. Heitor observava tudo com um certo encantamento silencioso. Clara estava crescendo, e ele via isso nos detalhes: o jeito mais confiante de falar, o brilho de quem começava a realizar um sonho. — Você está diferente, — ele comentou enquanto caminhavam de mãos dadas. — É porque eu estou apaixonada - disse ela sorrindo Ele segurou o rosto dela entre as mãos e a beijou. Um beijo calmo, maduro, cheio de saudade e promessas. O tipo de beijo que parece carregar um lar inteiro. — Promete que vai continuar acreditando na gente? — ele sussurrou. — Você sempre será meu maior pesadelo. - ela provocou ele. Na última noite, Clara se aconchegou em seu abraço apertado. — Não quero que você vá amanhã, — ela disse, de repente. — Nem eu quero ir, — respondeu ele. — Mas um dia, vou levar você comigo pra sempre. Clara sorriu triste. — Então promete voltar logo. — Antes que perceba, eu tô aqui de novo. Clara adormeceu dentro do abraço, ele observando, sua respiração lenta, o bater calmo do seu coração, pensando que não havia lugar no mundo onde ele gostaria de estar além do que ali. Na manhã seguinte, o sol ainda nem havia nascido quando ele partiu. Clara ficou na varanda, o coração apertado, vendo o carro desaparecer na estrada. Ele olhou pelo retrovisor e viu o vulto dela acenando. Foi um fim de semana simples, mas cheio de significado.
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