O semestre m*l havia começado, e Clara já sentia o peso da rotina.
Acordava cedo, tomava café olhando pela janela do pequeno apartamento e caminhava até a faculdade com o frio de agosto cortando o rosto.
As aulas eram longas, as leituras intermináveis, mas o que mais doía era o silêncio entre uma mensagem e outra de Heitor.
Desde as férias de junho, o mundo dela tinha mudado.
O reencontro inesperado, o jantar que ele preparara antes dela voltar — mesa posta, vinho barato, e aquele brilho calmo nos olhos dele quando tirou do bolso uma pequena caixa.
Dentro, duas alianças simples, de prata, com um brilho discreto e eterno.
— É um compromisso— dissera ele, sorrindo, com a voz rouca de emoção.
Ela riu, o coração leve, e respondeu com um beijo que dizia tudo o que as palavras não conseguiam.
No dia seguinte, Clara partiu de volta para a faculdade, levando a aliança no dedo e a lembrança da noite anterior gravada na pele.
Mas, com o passar das semanas, a distância começou a pesar.
O apartamento cheirava a lavanda e livros novos.
As paredes claras e os quadros tortos davam um ar acolhedor, e o Fusca azul, estacionado na rua, era sua companhia fiel — o som do motor era o eco de casa.
Nos fins de tarde, Clara colocava uma música baixa, sentava-se na varanda com uma xícara de chá e deixava o vento brincar com o cabelo.
As amigas da faculdade viviam aparecendo com histórias novas, convites, risadas altas nos corredores.
Ela sorria, participava, mas no fundo carregava uma saudade que não sabia disfarçar.
À noite, o celular sobre o travesseiro piscava com o nome dele — Heitor.
“Tá frio aí?”
“Pensei em você o dia todo.”
“Faltam quantos dias pra eu te ver?”
Cada mensagem era um alívio e uma tortura.
Ela lia e relia, imaginando o tom da voz dele, o jeito como ele apertava o volante quando falava sério.
Naquela sexta-feira, o entardecer veio cheio de espectativas tingindo o céu de tons rosados.
A estrada parecia longa demais.
Heitor ajustou o som do carro, mas nenhuma música parecia certa.
Seis horas de viagem e um coração acelerado — era assim que se sentia ao ir ao encontro dela.
Ela morava em uma cidade universitária pequena, onde tudo cheirava a começo.
Casas simples, ruas arborizadas e jovens correndo com livros debaixo do braço.
Era o cenário perfeito para ela — e o mais distante possível da vida controlada e previsível que ele levava.
Clara estava na varanda, com um cobertor sobre as pernas, tentando revisar um texto da aula de anatomia, mas os olhos fugiam das páginas.
O som distante de carros passando na avenida vinha misturado ao cheiro de chuva.
Então, ouviu o ronco de um motor grave, diferente dos carros comuns.
Olhou distraída — e o coração falhou uma batida.
Na calçada em frente ao prédio, um esportivo preto acabava de estacionar.
Os faróis apagaram devagar, e ela reconheceu o homem que desceu do carro: jaqueta escura, barba por fazer, aquele sorriso que ela conhecia melhor do que a própria voz.
Heitor.
O tempo pareceu parar.
Ele ergueu o olhar para a varanda, e quando os olhos se encontraram, foi como se as semanas de distância evaporassem.
— Não acredito... — murmurou Clara, levantando-se num salto.
Correu pela sala, desceu as escadas com o coração disparado.
Quando abriu o portão do prédio ele já estava ali, esperando, com o olhar cheio de saudade.
— Eu tentei esperar mais um pouco... — disse ele, rindo nervoso. — Mas eu não consegui.
Clara sorriu, pulou em seus braços, suas pernas envolvendo a cintura dele.
— Você veio — ela disse, com os olhos brilhando.
— Achei que precisava me lembrar como é te ver de perto, — ele respondeu, sem disfarçar a saudade.
Heitor a abraçou mais forte ainda, não queria largar ela nunca mais.
O frio desapareceu.
O tempo, outra vez, se curvou ao amor que insistia em desafiar a distância.
O céu agora estava tingido de dourado e azul-escuro, e o mundo inteiro parecia caber naquele abraço.
O esportivo preto ficou ali, reluzindo sob a luz dos postes, enquanto o Fusca azul de Clara, do outro lado da rua, parecia assistir em silêncio — cúmplice e testemunha de uma história que, mais uma vez, recomeça a apesar da distância.
Os dois passaram o fim de semana juntos. Sem pressão, e sem imposição, apenas um amor puro. Ela fazia questão de guiá-lo pela cidade — os cafés pequenos, a praça onde sentava com as com as amigas após as aulas, a faculdade.
Heitor observava tudo com um certo encantamento silencioso.
Clara estava crescendo, e ele via isso nos detalhes: o jeito mais confiante de falar, o brilho de quem começava a realizar um sonho.
— Você está diferente, — ele comentou enquanto caminhavam de mãos dadas.
— É porque eu estou apaixonada - disse ela sorrindo
Ele segurou o rosto dela entre as mãos e a beijou.
Um beijo calmo, maduro, cheio de saudade e promessas.
O tipo de beijo que parece carregar um lar inteiro.
— Promete que vai continuar acreditando na gente? — ele sussurrou.
— Você sempre será meu maior pesadelo. - ela provocou ele.
Na última noite, Clara se aconchegou em seu abraço apertado.
— Não quero que você vá amanhã, — ela disse, de repente.
— Nem eu quero ir, — respondeu ele. — Mas um dia, vou levar você comigo pra sempre.
Clara sorriu triste.
— Então promete voltar logo.
— Antes que perceba, eu tô aqui de novo.
Clara adormeceu dentro do abraço, ele observando, sua respiração lenta, o bater calmo do seu coração, pensando que não havia lugar no mundo onde ele gostaria de estar além do que ali.
Na manhã seguinte, o sol ainda nem havia nascido quando ele partiu.
Clara ficou na varanda, o coração apertado, vendo o carro desaparecer na estrada.
Ele olhou pelo retrovisor e viu o vulto dela acenando.
Foi um fim de semana simples, mas cheio de significado.