Um café

1376 Words
A oficina estava silenciosa, apenas o som distante do motor de um carro na rua. Clara entrou com passos leves, ecoando suavemente no chão de concreto. — Temos um problema — disse, com um sorriso quase inocente — Quando eu voltar pra faculdade, vou levar o Fusca comigo e... Eu percebi que não tenho o contato do meu mecânico de confiança. Ele ergueu os olhos, um sorriso lento se formou nos lábios dele, e ele percebeu imediatamente. Podia se acostumar com a presença dela na oficina, provocando e brincando com ele. — Então temos dois problemas— disse ele, olhando a profundamente nos olhos, e diminuindo a distância entre os dois — Eu só atendo números conhecidos. Ela pegou uma caneta jogada em cima da bancada olhou diretamente para ele, sem nenhum disfarce. O olhar dela tinha aquele brilho divertido, quase desafiador, puxou o braço esquerdo dele e anotou o número dela no pulso dele - Já temos um problema resolvido então - disse ala baixinho, deixando as palavras se arrastarem entre eles. Ele se aproximou mais um passo, ela não recuou. Pelo contrário, inclinou-se levemente, como se convidasse o toque. O ar entre os dois se tornou pesado, carregado de tensão. Cada gesto, cada respiração, dizia mais do que qualquer palavra. — Clara… — murmurou ele, a voz rouca — você sabe que não veio aqui por um número de telefone, não é? Ela sorriu, quase arqueando a sobrancelha, sem precisar responder. O silêncio disse tudo. O primeiro beijo veio rápido, roubado, um gesto ousado que deixou os dois sem ar. Ela apoiou as mãos nos ombros dele, puxando-o levemente para mais perto, e ele correspondeu com a mesma pressa contida, os braços envolvendo-a com urgência. Eles riram baixinho, quase sufocados, entre beijos furtivos e toques rápidos. Cada instante era roubado do tempo, como se o mundo lá fora não existisse. O toque deles era urgente, cada gesto carregado de meses de espera e desejo acumulado. — Acabei de lembrar de algo serio — murmurou ele, entre um beijo e outro. - O cadastro de cliente precisa do endereço atual completo. — Serio? — respondeu ela, inclinando a cabeça, o rosto tão próximo que era impossível não sentir o calor dela. — Ou será que você só quer saber onde me encontrar? O sorriso dele foi lento, tenso. Ele tocou a cintura dela, segurando-a por um segundo a mais, como quem quer provar que também sabe jogar. Ela se apoiou levemente na bancada, puxando-o para mais perto, cada gesto provocativo, cada toque medido para aumentar a pressa e a tensão. Os beijos se tornaram mais insistentes, rápidos e furtivos, escondidos atrás de gestos casuais — mãos nos ombros, roçando acidentalmente, respirações que se misturavam, dedos que se encontravam sem permissão. O mundo lá fora não existia. Só eles, o calor, o toque e a urgência de aproveitar cada segundo antes que a despedida chegasse. Quando finalmente se afastaram, respirando fundo, os olhos ainda se buscavam. — Fica comigo — disse ele, a voz baixa, firme, mas carregada de desejo. — Fico— respondeu ela, sorrindo, provocativa, cheia de promessa. O frio de junho se infiltrava por debaixo das cobertas e fazia o quarto parecer maior e mais silencioso. Clara despertou devagar, enrolada no edredom, tentando se manter no calor que ainda restava — o calor que vinha não só do corpo, mas da lembrança. Os beijos Os toques das mãos dele, o som do motor do Fusca, o cheiro de metal e vento. Fechou os olhos por um instante, e tudo voltou: o entardecer dourado, o olhar dele, o “graças a Deus” sussurrado entre o riso e a respiração. Abriu os olhos devagar. O dia lá fora ainda era cinza, e uma neblina fina cobria a rua. Sobre a cadeira, o casaco usado na véspera continuava ali — e ao vesti-lo com o olhar, Clara quase podia sentir o perfume dele outra vez. Pegou o celular no criado-mudo, sem esperar nada. Mas o coração disparou quando viu a notificação: Heitor “Bom, Tá frio aí também? A padaria da esquina está aberta, aquela… onde a gente se encontrou depois do quase desastre. Café quente me parece um bom motivo pra te ver de novo.” Clara sentiu o corpo inteiro reagir — um arrepio que não vinha do frio. O passado se misturava ao presente, como se aquela mensagem tivesse atravessado o tempo e o silêncio. Ela se lembrou perfeitamente: o dia do quase atropelamento, o susto, as provocações, os risos nervosos e olhares longos demais para serem apenas gentis. Ficou olhando para a tela por longos segundos antes de responder. Os dedos tremiam levemente, mas o sorriso era inevitável. “Bom dia Gosto da ideia de te ver de novo, se tem um café quente eu não vou conseguir dizer não.” A resposta dele veio quase imediata: “Então não diz. Só vem.” Clara sentou-se na beira da cama, respirando fundo. O coração batia acelerado demais para o horário. Olhou pela janela: o céu ainda encoberto, os carros passando lentos pela rua úmida, o vapor saindo das bocas dos que se apressavam para o trabalho. Junho era frio — mas dentro dela, algo insistia em permanecer aceso. Vestiu o casaco, prendeu o cabelo num coque simples e passou um batom claro — só o suficiente para disfarçar o nervosismo. Enquanto calçava as botas, percebeu que sorria sozinha. Não era euforia — era esperança. Aquela esperança silenciosa que só existe quando o amor volta a ser possível. O vento gelado a recebeu na calçada, cortando o rosto como uma lembrança viva do inverno. Caminhou devagar, as mãos dentro dos bolsos, observando a cidade ainda meio sonolenta. As vitrines acesas, o cheiro de pão quente se espalhando pelas esquinas, o barulho distante de um ônibus subindo a ladeira. Quando dobrou a esquina da padaria, o coração deu um salto. Lá estava ele — encostado no carro, as mãos nos bolsos, o casaco escuro contrastando com o vapor que saía de sua respiração. O mesmo sorriso tímido, o mesmo olhar que dizia tudo sem precisar de uma palavra. — Achei que você fosse desistir por causa do frio — disse ele, ao vê-la se aproximar. — O frio só é r**m quando a gente enfrenta sozinha — respondeu, com um sorriso leve. O barulho da chuva contra o vidro se misturava ao chiado da máquina de café. A padaria tinha o mesmo aroma de antes — pão de queijo recém-saído do forno, canela e aquele leve perfume de nostalgia que se instala nos lugares onde já fomos felizes. Clara observava o vapor subir da xícara. As mãos seguravam a porcelana quente, mas o que aquecia de verdade era o olhar dele. Heitor estava mais calado do que lembrava. — Você vem aqui sempre? — ela perguntou, tentando quebrar o silêncio. — Às vezes. — Ele deu um leve sorriso. — Acho que é mais pra ver se encontrava alguem de novo quando nao sabia mais onde encontrar. Ela abaixou os olhos, sorrindo sem conseguir evitar. A sinceridade dele era simples, quase desarmante. O tipo de verdade que não se ouve muito depois que o mundo vira adulto demais. — E conseguiu encontrar? — provocou ela, mexendo o açúcar. — Hoje sim — respondeu ele, sem hesitar. Ela o observou por um instante. Heitor parecia o mesmo — o cabelo um pouco mais curto, a barba por fazer, o olhar que alternava entre firme e doce. Mas havia algo nele que o tempo tinha moldado: uma serenidade nova, talvez saudade acumulada demais. — Eu pensei em você tantas vezes — ela disse, sem olhar diretamente pra ele. A frase escapou, simples e inteira, como quem finalmente solta o ar depois de muito tempo prendendo. Heitor encostou as mãos na mesa, respirou fundo e a encarou. — Eu nunca parei. — De pensar em mim? — ela perguntou, tentando esconder a emoção. — De te procurar, mas eu só te encontrava aqui — respondeu ele, batendo de leve no peito. Clara desviou o olhar, sentindo o coração pulsar em um ritmo que o frio não conseguia diminuir. Do lado de fora, a chuva engrossava, lavando as ruas como se quisesse começar tudo de novo também.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD