Capitulo 9

1617 Words
A mala estava pronta desde a noite anterior. Clara m*l conseguira dormir. Virava-se de um lado para o outro, observando o relógio na parede como se ele fizesse de propósito em demorar a passar. Lá fora, o vento batia nas janelas, e o som da chuva miúda parecia acompanhar o compasso da ansiedade que crescia dentro dela. O semestre terminara, e a rotina da faculdade agora parecia distante, como um sonho barulhento do qual ela finalmente despertava. Mas o que a mantinha desperta não era apenas o alívio das provas — era a expectativa silenciosa, quase infantil, de voltar. De rever as ruas conhecidas, o cheiro do café da esquina, o portão de casa, o toque suave da brisa da cidade que deixara meses antes. E, mais do que tudo, o medo e o desejo de cruzar novamente com ele. Durante o caminho de volta tentava ler, ouvir música, pensar em qualquer coisa que distraísse o coração — mas tudo parecia conduzi-la de volta a uma única imagem: o rosto dele. O olhar que ela guardava na memória com uma nitidez que chegava a doer. No fundo, sabia que talvez nada tivesse mudado. Talvez ele nem se lembrasse mais. Talvez estivesse seguindo a vida, entre motores e ferragens, sem sequer imaginar que, a cada quilômetro percorrido, ela se aproximava um pouco mais. Mas havia algo dentro dela — uma sensação quase física, uma certeza teimosa — de que o reencontro não dependia do acaso. Como se a vida estivesse apenas esperando o momento certo para devolver um ao outro. O entardecer estava frio e silencioso, O vidro do ônibus estava embaçado, e Clara desenhou distraída um risco com o dedo enquanto observava a paisagem se transformar. Quando o ônibus atravessou a entrada da cidade, Clara sentiu o corpo inteiro estremecer. Os campos abertos haviam ficado para trás, dando lugar às primeiras ruas conhecidas. A cada quilômetro, o coração batia mais rápido — como se reconhecesse o caminho antes mesmo que os olhos o fizessem. Reconheceu os prédios, os muros grafitados, Clara ajustou o fone no ouvido, olhou o celular, rolou mensagens antigas. O rosto iluminado pela tela escondia o turbilhão de pensamentos que a acompanhava desde a madrugada. Do lado de fora, a cidade começava a se acalmar após um dia de trabalho, ela te inhevus ruas, praças, lojas e padarias. Estava de volta. E, por mais que dissesse a si mesma que era apenas saudade de casa, algo dentro dela O ônibus diminuiu a velocidade ao entrar na avenida principal. Clara olhou rapidamente pela janela — só por um segundo —, reconheceu a rua, os postes, as fachadas antigas, e depois voltou o olhar ao telefone. Os pais a esperavam na rodoviária, e ela avisou, em mensagem curta: “Já estou chegando.” Enquanto isso, do outro lado do vidro embaçado, a vida de Heitor seguia no mesmo compasso de sempre. Ele estava inclinado sobre o capô do Fusca, limpando o último resquício de graxa, quando ouviu o som familiar de um motor pesado. O ônibus passou devagar, arrastando o barulho dos pneus molhados sobre o asfalto. Heitor ergueu os olhos apenas por reflexo — e, por um instante, o tempo pareceu parar. Entre os reflexos da lataria azul e o vidro do ônibus, ele a viu. Ou achou que viu. O contorno de um rosto que conhecia de cor. O cabelo preso, o olhar voltado para baixo, a mão segurando o celular. Por um instante, o mundo inteiro se contraiu — o som da rua desapareceu, o ar pareceu rarefeito. O coração dele disparou, como se quisesse confirmar o impossível. Clara continuou imóvel, alheia à cena. O ônibus seguiu, e ela manteve o olhar fixo na tela, sem perceber o homem na calçada, parado diante da oficina, o pano sujo de graxa ainda na mão, o peito arfando. Em segundos, o veículo sumiu na curva — e com ele, talvez, a última certeza de Heitor sobre o que é real. Ele ficou ali, imóvel. Tentou rir, mas o som não saiu. Passou a mão pelo rosto, olhou de novo para o reflexo no vidro do Fusca, como se procurasse ali uma resposta. Será que era mesmo ela? Ou a saudade já lhe pregava peças a esse ponto? O frio atravessou o corpo, e o coração insistia em latejar, como se gritasse algo que a razão não ousava acreditar. Naquele instante, entre o vapor do asfalto e o silêncio do entardecer Heitor teve a sensação de que o destino acabara de lhe soprar um aviso. Algo — ou alguém — estava realmente de volta. Clara, por sua vez, chegou à rodoviária com o coração leve, sem imaginar o que deixara para trás. Os pais a esperavam sorrindo, braços abertos, e o abraço familiar dissolveu por alguns minutos todo o peso das últimas semanas. Mas enquanto caminhava para o carro, uma sensação estranha a acompanhou — uma espécie de calor repentino no peito, como se alguém, em algum lugar, tivesse acabado de pensar nela. Olhou pela janela do carro enquanto o pai dirigia pelas ruas molhadas. As fachadas conhecidas passavam uma a uma, e, sem entender por quê, sentiu o impulso de procurar algo do lado de fora — alguém. Mas nada viu. Suspirou, encostou a cabeça no vidro e sorriu de leve. Talvez fosse apenas o coração se confundindo entre lembranças e esperanças. Do outro lado da cidade, Heitor ainda olhava para a rua, tentando convencer a si mesmo de que tinha imaginado tudo. Mas, lá no fundo, sabia. Aquela sensação não era engano. O inverno, enfim, começava a mudar de cor. Heitor não conseguiu dormir naquela noite. Virava-se na cama, o lençol embolado, o corpo cansado e a mente acesa demais. A imagem dela — ou o que ele acreditava ter visto — voltava em fragmentos: o reflexo no vidro, o rosto meio escondido, a mão segurando o celular. Parecia real demais para ser invenção, mas improvável demais para ser verdade. Levantou-se antes do amanhecer, fez café, e ficou encostado no batente da porta da cozinha, observando a névoa se dissipar lá fora. O ar tinha o cheiro de ferro frio e terra molhada. Por um instante, pensou em rir de si mesmo — “você tá vendo o que quer ver”, disse em voz baixa. Mas o coração não se convencia. Havia algo naquela sensação que não se explicava com lógica. Uma inquietação viva, que não o deixava em paz. Na oficina, o dia custou a passar. Os motores ronnavam, o rádio tocava qualquer música esquecida, mas tudo parecia distante, borrado, como se o mundo estivesse suspenso. A cada barulho de ônibus passando, ele ergueu os olhos, quase sem querer. Esperava — embora não soubesse o quê. Era como se estivesse à beira de algo, e bastasse um sopro para o destino se revelar. Clara também acordou cedo, ainda com o corpo cansado da viagem. A cidade parecia igual, mas havia algo nela que já não era o mesmo. As ruas, o vento, até o cheiro do café da mãe tinham outro peso, como se o tempo tivesse se movido e ela, de alguma forma, não pertencesse mais completamente ali — nem em lugar nenhum. A manhã foi cheia de reencontros: vizinhos, risadas, histórias da faculdade. Mas, por dentro, havia uma ausência que ela não conseguia nomear. Era como se esperasse algo — alguém — que ainda não sabia se viria. Depois do almoço, saiu para caminhar. O frio cortava leve, e o sol de inverno se escondia entre nuvens. Passou pelas ruas conhecidas, agora tingidas de nostalgia. Cada esquina trazia um eco, uma lembrança, uma dúvida. Sem perceber, dobrou a rua que levava para o centro — a mesma onde, meses antes, o destino a havia surpreendido pela primeira vez. O coração acelerou. Olhou ao redor, fingindo não procurar nada, mas seus olhos traíam a intenção. A calçada úmida, o som distante de um carro velho arrancando, o cheiro de graxa no ar — tudo a fez parar por um segundo. O frio aumentou, mas não era o vento. Era outra coisa. Uma presença invisível que atravessava o espaço e fazia o tempo parecer frágil. Na oficina, Heitor limpava o capô do Fusca pela centésima vez, sem necessidade alguma. Estava inquieto, como se algo o chamasse sem som. O motor estava desligado, mas o silêncio tinha peso. De repente, ergueu o olhar para a rua — e ficou assim, por longos segundos, sem saber o que esperava ver. Nada aconteceu. Nenhum ônibus, nenhum sinal, nenhuma aparição no reflexo do vidro. E mesmo assim, sentiu — como um arrepio que nasce da alma — que ela estava ali, em algum lugar próximo, respirando o mesmo ar, talvez pensando o mesmo nome. Sorriu, cansado. Passou a mão pelos cabelos e suspirou. O coração, teimoso, batia no mesmo ritmo de sempre: esperançoso e ferido. Mais tarde, já no fim da tarde, Clara voltou para casa. Do portão, olhou o céu — um azul pálido, frio, com nuvens arrastadas. Sentiu um nó subir à garganta, uma emoção sem motivo aparente. Talvez fosse apenas a volta. Ou talvez fosse o destino, preparando o terreno, afinando o silêncio antes do reencontro. Fechou os olhos por um instante e deixou escapar um sussurro que nem ela mesma ouviu direito: “Se for pra acontecer, que seja agora.” E do outro lado da cidade, ao mesmo tempo, Heitor apagava as luzes da oficina. Antes de trancar a porta, olhou mais uma vez para o Fusca azul. O reflexo da luz da rua dançava na lataria, e ele sentiu, sem entender, o mesmo impulso de olhar para trás. Mas não olhou. O inverno ainda guardava o momento certo.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD