~~CAPÍTULO 44~~
NARA
MEU CORPO TODO DOÍA. Apesar de ter passado dias desde que me submeti a cirurgia, senti-me fraca. Meu corpo não funcionou como costumava. A força que tinha desapareceu.
Se eu tivesse que me defender, tinha vergonha de admitir que não teria chance de vencer.
Estava tão quebrada. Shin tinha sido impiedoso. Quando começou, era impossível pará-lo. Ele assumiu que eu tinha feito algo pessoal. Assim me atingiu até quase me matar.
Quando eu não fiz nada para provocá-lo. Que obsessão ele tinha comigo? O que ele tinha conseguido me espancando até me deixar inconsciente? Ele pretendia me matar? Honestamente, eu pensei que estava morta.
Quando abri os olhos no quarto do hospital, não pude acreditar onde estava.
Uma parte de mim queria estar morta.
Eu me apaixonei por um homem que gostava de me machucar, Ken me levou de volta para sua mansão e me instalou no quarto com a varanda. Ele me carregou em seus braços e me colocou no sofá, que ele havia deixado a sombra. Ao lado havia uma pequena mesa cheia de livros. Em vez de ordenar a uma de suas empregadas que me atendesse, ele ficou ao meu lado.
- Posso te trazer outra coisa?
Ele colocou a cadeira ao meu lado e sentou-se.
Usava jeans e uma camiseta, mas se comportava com uma rigidez que dava a sensação de estar em uma reunião. Estava em brasas a cada segundo que passávamos juntos.
- Estou bem.
Peguei um livro e senti a tensão no meu braço tentando levantá-lo. Algo tão simples quanto segurar um livro me custava muito esforço.
Era patético.
Eu havia perdido toda a minha força na luta pela sobrevivência e agora tinha medo de nunca mais recuperá-la.
Ken me ajudou.
- Sua força voltará.
Ele entendeu melhor do que ninguém o quanto eu era orgulhosa da minha capacidade de cuidar de mim mesma. Agora, estava tão fraca que tinha que confiar em alguém para cuidar de mim... algo que eu odiava.
Abri o livro e procurei a página que tinha parado. Eu tinha lido um parágrafo quando senti seu olhar intenso em mim.
Estava praticamente queimando um buraco no meu rosto.
- Eu estou perfeitamente bem.
Olhei de volta para ele, mostrando que minha resolução não tinha vacilado, mesmo que meu corpo tivesse quebrado.
Essa força ainda estava dentro de mim.
Ele baixou os olhos, com vergonha e desespero escritos em seu rosto.
Não usou uma expressão estoica para esconder seus pensamentos, como costumava fazer. Isso permitiu que eles brotassem como uma inundação.
Eu ainda não tinha me olhado no espelho porque não queria ver o estrago que Shin havia feito.
Mas a julgar pelo inchaço da minha bochecha e meus lábios, eu estava cheia de hematomas. Meus olhos latejavam e um deles estava parcialmente fechado pelos golpes.
Eu podia ver meu corpo despedaçado e sabia que meu rosto combinaria com isso. Ken olhou para a sacada e para os jardins.
Ele não estava mais me encarando, mas permaneci em sua visão periférica. Imóvel e silencioso como uma estátua, permaneceu ao meu lado.
— Você não tem que ficar sentado aqui por mim. Eu estou perfeitamente bem.
Ele não reagiu às minhas palavras. Eu posso ser fraca, mas não preciso da sua compaixão.
- Ken, você pode sair.
- Talvez eu precise sentar aqui com você.
Ele falou baixinho, como se não quisesse que o ouvisse.
- Não, você não precisa.
- Você não entende. Você pode não precisar de mim, mas eu preciso de você. Então, por favor, deixe-me sentar aqui.
Ele tinha uma mandíbula dura e agarrava seu braço como se este fosse cair a qualquer momento.
Eu respeitei seu pedido e voltei para o meu livro.
Não disse mais nenhuma palavra e ele também não disse nada.
Nós apenas nos sentamos juntos em um pesado silêncio, ele fumegando e eu lendo.
Lembrei-me de suas lágrimas por causa da minha dor. Eram idênticas as minha quando ele confessou sua desolação ao perder sua esposa.
Nós dois choramos um pelo outro. Nós estávamos mais conectados do que pensávamos.
Mas isso não me assustava mais.
E nem ele.
— Graças a Deus que voltou para casa.
Mahina atravessou o quarto e veio até a varanda, pelo seu olhar, eu sabia que estava parecendo um monstro.
— Por que irmão Shin, fez isso com ela, irmão?
— A máfia não aceita muito bem o divórcio.
Comentei recordando-me das suas palavras antes de machucar-me até quase morte.
— A máfia não tolera nada, além das regras rígidas que possuímos.
Ken afirmou olhando para o horizonte.
— Foi papai?
— Sim, ele está sentindo na pele, o que ela está sentindo agora, não se preocupe, ele nunca mais ousará a me desafiar.
Não entendo, o que ele quis dizer com aquilo?
— Prometa que ele não vai escolher meu marido, irmão.
— É cedo para você casar, princesa.
— Quando isso acontecer, não importa qual seja a família, não me entregue nas mãos dos malvados, por favor.
— Não se preocupe, princesas casam com príncipes, na hora certa, você mesma escolherá seu marido.
EU ESTAVA MUITO FRACA PARA ANDAR. Era embaraçoso. Ken, tinha que me levar ao banheiro toda vez que eu precisava ir, e eu não era capaz de pegar minhas coisas quando precisava porque meu corpo não cooperava.
Era como um cadáver inútil, confiando em alguém para me fornecer o que eu precisava. Era humilhante. O sol desaparecera detrás do horizonte e o som dos grilos enchia o ar da noite. Os campos reviviam com a melodia da brisa e os insetos zumbiam nas sombras.
Eu queria ficar lá o dia todo e apreciar o momento, mas m*l conseguia manter meus olhos abertos. Ken sentou-se na beira do sofá e viu meu rosto.
- Pronta para ir dormir?
- Sim...
Ele me pegou e me levou de volta para o quarto.
O ambiente era parecido com a meu, mas tinha qualidades únicas. Era um pouco maior e tinha um chuveiro e uma banheira. Em vez de me deixar na cama, ele me levou para o seu quarto e me deitou na cama.
- O que você está fazendo?
Ele me deitou de costas e depois levantou minhas pernas, tirando minha calça de moletom.
- Preparando-a para dormir.
- No seu quarto?
Ele nunca tinha sido tão gentil comigo, nem mesmo quando lhe pedi para fazer amor comigo.
Ele tirou a roupa e foi para a cama ao meu lado.
- Sim.
Apagou a luz, mas não se aninhou junto a mim. Eu sabia que meu corpo sofria uma dor imensa, mesmo cheia de analgésicos.
Muita pressão nas minhas pernas ou braços seria extremamente irritante.
- Enquanto você estiver ao meu lado, estará segura. Eu olhei para o perfil do seu rosto no escuro.
- Tenho certeza de que vou estar perfeitamente bem no final do corredor.
- Eu quero você aqui. A menos que não queira ficar.
KEN NÃO VOLTOU AO TRABALHO.
Ele ficou em casa e se fixou em mim como uma sanguessuga. Não queria que nenhum m****o de sua equipe se aproximasse de mim. Era ele quem me trazia as refeições, me dava banho e me fazia companhia. Mahina passava muito tempo fora, isso nos tranquilizava, pois toda vez que ela visse meu rosto sua expressão mudava, e era apavorante.
- Eu vou entender se você tiver que voltar ao trabalho.
Estava sentada à mesa da varanda, tentando comer tudo o que tinha no prato. A medicação que tomava tirou o meu apetite, não sentia vontade de comer nada.
Se fosse por mim, eu não teria comido nada.
- Você não precisa ficar por mim.
Ele não reconheceu minha reivindicação. Continuou a comer sua salada e seu sanduíche em silêncio. Como ele não respondeu, não insisti nisso.
Por trás de sua fachada, estava se corroendo por dentro. Ele era gentil quando cuidava de mim, mas também parecia irritado ao mesmo tempo.
- Está um lindo dia.
- Suponho que sim.
Ele comeu metade de sua comida antes de afastar o prato. Seu apetite não era o mesmo. Parecia mais sério que o normal, fervendo com uma raiva silenciosa.
Se ele não me dissesse que queria que eu estivesse lá, teria assumido que ele me odiava.
- Eu gostaria de poder dar um passeio pelos jardins.
Apreciava muito mais minha saúde quando não a tinha. Agora que não podia andar, queria correr. Um dia recuperaria minha força.
Mas a recuperação seria um processo longo.
- Eu posso levar você.
- Não, estou bem.
Ri baixinho porque Ken vinha em meu socorro assim que eu precisava de algo.
- Qualquer coisa que você quiser, farei acontecer.
Ele disse isso com tanta convicção, que acreditei nele.
- Eu não quero nada agora.
Estava curiosa para saber o que aconteceu com Shin. Ele havia deixado o hospital, mas quão sérios eram seus ferimentos? Eu poderia esperar que ele me atacasse novamente?
Não perguntei, porque não queria alterar Ken.
- Quando vou embora?
― Você não vai embora, Nara. Nem agora, nem nunca.
Quando entendi o que ele queria dizer, a raiva tomou conta de mim imediatamente. Ken e eu tínhamos chegado a um ponto em que éramos iguais. Eu não era sua escrava ou sua propriedade. E mais valia que ele não esquecesse.
― Você não me diz o que devo fazer. Se eu quiser ir, vou embora
― Eu te amo.
Parei no meio da frase e senti uma dor insuportável no meu coração, como se tivesse levado um tiro no peito. Não podia falar porque fiquei muda, e como se sempre estivesse à beira das lágrimas, meus olhos ficaram umedecidos.
Doíam-me os pulmões porque era incapaz de respirar. Tinha ouvido o que me havia dito, mas era bom demais para ser verdade.
Era tão bom que de fato doía.
Era uma provocação, um vislumbre de meus sonhos mais loucos.
― Você está? Não está falando por falar? Ken não iria mentir para mim, mas faria qualquer coisa para me manter segura. Se necessário, diria algo assim para me proteger.
― Nunca. Ele colocou a mão em volta do meu pescoço, segurando-o.
― Perdi Yoku e isso me deixou destruído. Eu perdi minha mãe, eu a amava com toda minha alma e quando ela desapareceu, deixei de ser a mesma pessoa que era. Mas a ideia de te perder dói milhões de vezes mais. Há muito tempo que tento negar, mas não posso continuar fazendo-o. Sei disso porque a dor é insuportável. Sei exatamente porque você me consome em meus pesadelos... é porque eu te amo.
Apoiou sua testa na minha e fechou os olhos, respirando profundamente.
― Agora eu gostaria que você me dissesse.
O silêncio é incomodo. Mas para nós, era o som de um novo começo.
Não esperava que ele fosse pronunciar aquelas preciosas palavras, embora as sentisse.
Agora que o fez, não consegui conter a minha reação vulnerável. As lágrimas começaram a brotar de meus olhos, deslizando por minhas bochechas como duas minúsculas cascatas.
Não tinha entendido o quanto precisava ouvi-lo dizer aquelas palavras, até o momento em que ele tinha feito.
Aquele lugar era meu lar: ele era meu lar.
Era o único homem que me fazia me sentir completa outra vez.
― Nara.
Ele se afastou e me olhou nos olhos, com a mesma expressão de sempre. Finalmente consegui me controlar e limpei as lágrimas com as costas da mão.
Chorar era algo irritante e uma incrível perda de tempo, mas tinha cedido a isso.
Quando ele saiu do meu apartamento, tinha feito o mesmo e tinha me humilhado na frente dele.
Depois de me vangloriar de ser mais dura que o aço, estava me desfazendo como um monte de folhas velhas.
― Eu também te amo.
Ele enxugou as últimas lágrimas com os polegares e olhou-me com uma nova expressão nos olhos. Ainda tinha um aspecto sombrio e ameaçador, mas diferente do que costumava ter.
Quando o conheci pela primeira vez, o achei frio e aterrorizante, que seria capaz de matar qualquer um que se interpusesse em seu caminho e era implacável em sua liderança.
Tentando desesperadamente permanecer insensível e vazio de qualquer emoção, voltou-se para o sexo e o uísque. Recusou-se a deixar-me entrar, mas finalmente ele tinha baixado suas defesas e tinha dado um passo em direção à luz.
Tinha dado um passo em direção à luz comigo.
— Eu quero ficar.
Ele olhou de volta para mim, incapaz de esconder o alívio em seus olhos.
— Tem certeza?
Balancei a cabeça.
Eu não era mais sua propriedade. Estava livre para ir e vir como quisesse: como pessoa. Nosso relacionamento era diferente agora. Era a primeira vez que eu recebia um trato como convidada.
- Você tem uma consulta com o médico amanhã. Verificação de rotina
—Bem. Eu preciso de todas as pílulas possíveis.
Um pequeno sorriso se desenhou em seus lábios, quase imperceptível.
- Eu vou te dar tudo o que você precisar.
- Obrigada.
Cortei minha salada, mas não dei uma mordida. Tudo o que Elisa fazia era delicioso, mas meu estômago não conseguia manter a comida como antes.
— Continue comendo.
Sua voz tinha um toque de autoridade, mas não a exercitava como antes, me sufocando.
— Eu não estou com fome.
- Como você espera recuperar forças se não comer?
Era possível que nunca recuperasse sua força.... Eu tinha mais cicatrizes do que nunca. Tinha perdido quase a metade do meu sangue. Apesar de não ter olhado para o meu rosto, sabia que tinha sido quebrado.
Talvez nem parecesse mais comigo.
- Nara, claro que você vai.
Ele olhou para mim como costumava, cheio de respeito e admiração.
- Eu vou ajudar você a conseguir.
Embora sua convicção tenha aquecido meu coração, não era suficiente.
O desespero me tomou.
Depois de quase morrer eu nunca seria a mesma.
Levaria meses para me recuperar. E mesmo assim, eu não seria capaz de correr tão rápido.
Ele detectou o desconforto no meu rosto, sabendo exatamente o que eu estava pensando.
- Não faça isso.
- Fazer o que?
- Render-se a autopiedade. Eu não vou permitir isso.
Eu desviei o olhar.
- Eu não vou permitir isso.
~~CAPÍTULO 45~~
NARA
O FOGO QUEIMAVA NA LAREIRA, DIRETAMENTE EM FRENTE À GRANDE CAMA. Ken Gentilmente me colocou contra seu peito, tomando cuidado para não me machucar no processo. Entrelaçou nossas pernas e descansou a cabeça contra a minha. O fogo era a única fonte de luz no quarto e lançava um brilho em seu peito nu.
Meu.
Seu peito firme era o lugar mais confortável do mundo. Era quente e acolhedor. Tentei não pensar em todas as outras mulheres que teriam dormido em sua cama. A mulher que o beijara veio à mente.
Eu nunca fiquei tão brava com ele por isso. Ele tinha partido meu coração quando não pensei que poderia fazer isso.
Eu me esforcei a parar de pensar nisso antes que a dor me engolisse. Ken observou cada um dos meus movimentos.
Ele podia adivinhar meus pensamentos através dos meus olhos, sabendo que algo havia mudado na atmosfera. Detectou a tensão em meus braços, pelo jeito que me afastei ligeiramente dele.
- Em que você está pensando?
- Em nada.
Limpei minha mente e parei de imaginá-lo com outras mulheres. Quando pensava nisso intensamente, sentia como se fosse me afogar em desespero.
— Não minta para mim.
Ele se incorporou em cima de mim, apoiando seu peso nos braços e me imobilizou contra o colchão para que eu não escapasse. O que foi inútil, porque eu não conseguia me mexer.
- Você me odeia por permitir que isso aconteça com você?
Ele sussurrou.
- Porque deveria.
- Não era isso o que eu estava pensando.
- Então no quê? Se havia algo que aprendi na vida, foi que você não poderia deixar que as pessoas soubessem o quanto eles causavam danos a você. Manter uma atitude forte era essencial para evitar que as pessoas o prejudiquem ainda mais.
- Aquela mulher com quem você estava. Você ainda está encontrando-a?
- Aquela mulher?
Uma expressão de perplexidade apareceu em seus olhos. Ele não tinha ideia de quem eu estava me referindo.
— A mulher com quem você dormiu.
- A menos que houvessem mais.
Isso só me faria sentir pior. Seus olhos relaxaram lentamente e a chama hostil desapareceu.
- Ela nunca significou nada para mim, Nara.
- Mas significou o suficiente para me machucar.
Não me incomodei em continuar mentindo. Meus sentimentos eram tão óbvios quanto o céu azul que eu via todos os dias. Ele baixou os olhos, o primeiro sinal de remorso que me mostrou até agora.
- Eu nunca dormi com ela.
Uma coisa era ser infiel a outra era mentir.
- Não volte atrás com sua palavra agora.
- Eu não estou fazendo isso
Disse
- Nós saiamos juntos antes de nos conhecermos. Mas tudo acabou quando ela saiu do país. Ela acabara de voltar e queria voltar comigo. Eu disse não.
- Isso não foi o que você me disse.
- Na verdade, tudo o que eu disse foi que não era da sua conta, e eu poderia fazer o que quisesse.
Ele manteve o corpo em cima do meu, não me tocando por medo de me machucar com seu peso.
- Não queria que você soubesse que eu estava comprometido contigo. Ou que você soubesse que me controlava. Então te deixei pensar o que quisesse.
Ken não mentiria para mim, então acreditei em cada uma de suas palavras.
- Eu queria que você tivesse me dito a verdade...
- Eu também. Quase fiz isso antes...
Não terminou a frase, porque doía muito.
- Me desculpe se machuquei você.
Meus dedos envolveram o pulso dele.
- Não faça isso de novo. Ele olhou para mim, nossos olhos fixos um no outro.
- Não o farei.
KEN
QUANDO ENTREI NO QUARTO, FIQUEI DESAPONTADO AO VÊ-LA SENTADA NA CAMA COM OS JOELHOS ENCOSTADOS AO PEITO. O fogo havia sido reduzido a brasas que m*l iluminavam a sala. Mas havia luz suficiente para ver a expressão em seu rosto. Estava preocupada, não tendo ideia de onde me encontrava ou quando voltaria.
Ela virou os olhos para mim e alívio se espalhou pelo seu rosto.
— Você está de volta ... Graças a Deus.
— Eu nunca te deixaria desprotegida. Havia guardas do lado de fora.
- Isso não me importa. Eu estava preocupada com você.
Eu mantive minhas mãos fora de vista para que ela não pudesse ver o sangue seco preso à pele.
- Você nunca precisa se preocupar comigo.
Ela me pegou pelo braço e me puxou para a cama assim que eu estava perto o suficiente.
- Onde você estava?
Eu não gostava de ser interrogado. Era contra minha autoridade.
— Eu não fico animado com interrogatórios.
- Diga-me. Você se esgueirou no meio da noite por algum motivo.
— Não. Às vezes, os negócios devem ser feitos à noite.
- Ou você não quer que eu saiba o que você estava fazendo.
- É possível.
- Ken?
Ela me deu uma ordem apenas com sua voz frágil, mas, apesar disso, ainda mantinha em seu tom, a autoridade de um general.
- Diga-me.
— Fui ver Shim.
- Oh!
Ódio inundou seus olhos, mas ela não verbalizou. Era uma linha tênue que tinha o cuidado de não cruzar. Ela queria insultá-lo, mas mordeu a língua só porque Shin era meu irmão. E ela me respeitava demais por isso. E eu não merecia isso.
- Eu resolvi o assunto com ele. Não vai incomodá-la novamente. E então eu dei a ele o era merecido.
Peguei meu celular do bolso e abri a galeria de fotos. Ela não as olhou.
- O que aconteceu com suas mãos?
Entreguei o telefone para ela.
- Você vai ver.
Ela olhou para o telefone e passou pelas fotos, vendo Shin tão machucado quanto ela. Havia sangue por toda parte e ele fora espancado até desmaiar.
- Você não precisava fazer isso.
- Sim, foi necessário. Não me arrependo nem um pouco.
Ele agrediu minha mulher. Eu não me importo se ele é da família. Não podia deixá-lo escapar com isso, e muito menos consentir em te machucar sem fazer nada sobre isso. Ele teve sorte por não a ter matado.
- Eu não queria que você o matasse.
Não pude conter minha surpresa. Me virei para ela, incapaz de acreditar no que acabara de ouvir.
- Você não deveria sentir pena dele.
- Ele é seu irmão.
Como ela poderia dizer isso depois dele tentar estuprá-la e depois bater nela até perder a consciência?
- Ele não merece sua compaixão.
- Não. Mas você sim.
Me virei porque não consegui manter o olhar dela.
- Eu só queria entender o porquê. Por que ele está tão determinado a me machucar? Ele me explodiu como se eu tivesse feito algo errado. Esse tipo de brutalidade não vem do nada. Tem que haver um motivo.
Não porque eu tivesse algo a esconder ou porque queria manter isso em segredo. Doía apenas falar sobre isso. Eu evitava minhas emoções desde a noite em que aconteceu. Recusei-me a lamentar ou sequer pensar nisso porque era o suficiente para me matar.
- Ken... me diga.
Quando ela falou baixinho num lindo sussurro, não conseguiu lhe negar nada.
- Ele é um filho bastardo, Shin tem uma razão para querer te machucar. E se eu não me importasse, diria que é justificado. Meu irmão e eu não somos bons homens. Temos mentes muito fechadas e eliminamos qualquer um que entre no nosso caminho... mesmo que seja inocente. Infelizmente, neste caso, você era a inocente espectadora.
Ela ficou em silêncio e esperou que a história continuasse.
- Eu já falei da minha mãe...
- Que ela faleceu.
Ela assentiu.
- Claro, eu me lembro.
- Ela foi assassina brutalmente, meu pai fez maus negócios e contraiu inimigos mais poderosos que ele. Nossa casa foi atacada, assassinaram todos os homens, estupraram mulheres e esquadrejaram crianças. Mahina estava lá quando tudo aconteceu, ela viu minha mãe sendo abusada por aqueles homens depois eles arrancaram sua cabeça e levaram, deixando apenas o corpo.
Engoli em seco para desfazer o nó na garganta, porque a dor estava prestes a me deixar sem voz.
-Ela morreu da pior maneira que existia, saber que ela estava sofrendo enquanto meu pai estava com a mãe do Shin foi a pior sensação do mundo.
Nara não conseguiu conter o soluço que escapara do fundo do peito. Tinha coberto a boca para silenciar o som, mas este escapou de qualquer maneira. As lágrimas corriam por suas bochechas como uma cachoeira.
- Quando fiquei forte para assumir o trono da máfia o fiz sem pensar duas vezes, tirei o poder do meu pai, consequentemente o do Shin. Quando Yoku ficou doente, ela pediu para que eu procurasse uma mulher, a máfia Yakuza não permite casar duas mulheres, eu quebrei essa regra, eu sabia disso, todo mundo sabia disso, era uma questão de tempo que eu atraísse a irá de alguém, Yoku morreu, você pediu o divórcio. Consequências do poder, eu tinha que ter matado você a partir do momento que disse divórcio. Fim de história.
Ela continuou cobrindo a boca com a mão enquanto chorava silenciosamente. O som era doloroso, uma tortura para os meus ouvidos.
Chorava por alguém que nunca conheceu.
- Ken..
Ela grudou no meu peito e passou os braços em volta do meu pescoço.
- Sinto muitíssimo.
E enterrou o rosto no meu peito, encharcando minha camisa com suas lágrimas. Eu a envolvi em meus braços.
- Eu sei.
Nós estávamos na mesma posição de antes, aquela que me fez ficar perto dela por semanas. i********e e vulnerabilidade eram muito difíceis para mim.
Meu corpo era incapaz de tolerar esse buraco no meu peito. Sentia tudo doer. E eu estava permitindo que ela se enredasse em mim, quando não deveria.
- Eu espero que você entenda agora.
Ela assentiu.
- Sim, entendo.
- Não justifica o que Shin fez. Mas espero que agora pelo menos isso faça sentido.
- Sim.
- Eu faria qualquer coisa para te proteger.
Seus olhos se suavizaram de uma maneira que eu nunca tinha visto. Ela pegou meu rosto entre as mãos e pressionou a testa contra a minha. E chorou silenciosamente grudada em mim, forçando-me a sentir a profundidade daquele momento com ela. Nossos corações batiam em uníssono e nossas mentes trabalhavam como um só.
E isso me apavora.