Capítulo 1 – A Dívida
O som do martelo ecoou pelo salão silencioso.
— Vendido.
As pessoas aplaudiram discretamente enquanto mais um quadro milionário era adquirido por um colecionador estrangeiro. Isabela Rossi observava tudo dos bastidores, aliviada. O leilão beneficente havia sido um sucesso, e aquele era o último lote da noite.
Ela retirou os cabelos castanhos do rosto e sorriu para a colega.
— Finalmente acabou.
— Você merece um descanso. Trabalhou por três semanas sem parar.
— Depois de hoje, só quero dormir por dois dias.
As duas riram.
Isabela despediu-se da equipe e deixou o elegante hotel onde o evento acontecera. A chuva fina transformava as luzes da cidade em borrões dourados sobre o asfalto.
Ela entrou no carro e ligou para o pai.
Nenhuma resposta.
Estranho.
Seu pai costumava atender na primeira chamada.
Tentou novamente.
Caixa postal.
Uma sensação incômoda apertou seu peito.
Quando estava prestes a guardar o celular, uma mensagem apareceu.
"Venha para casa. Agora."
Era de sua madrasta.
Sem explicações.
Sem pontuação.
Apenas aquelas quatro palavras.
Isabela acelerou.
Durante todo o caminho, tentou convencer a si mesma de que não era nada grave.
Talvez o pai tivesse passado m*l.
Talvez fosse algum problema na empresa da família.
Talvez...
Seu coração dizia outra coisa.
Ao estacionar diante da antiga mansão dos Rossi, percebeu que havia carros pretos ocupando toda a entrada.
Nenhum deles lhe era familiar.
Homens altos, vestidos de preto, permaneciam imóveis sob a chuva.
Não conversavam.
Não fumavam.
Não olhavam para os lados.
Apenas esperavam.
Isabela sentiu um arrepio.
Assim que atravessou o portão, um dos homens abriu a porta principal antes mesmo que ela tocasse a campainha.
— Senhorita Rossi.
A voz era grave.
Sem emoção.
Ela entrou devagar.
A sala parecia irreconhecível.
Seu pai estava ajoelhado.
O rosto coberto de sangue.
A madrasta chorava em silêncio.
Dois seguranças mantinham ambos sob vigilância.
No centro da sala, sentado na poltrona que sempre pertencera ao seu avô, havia um homem.
Vestia um terno preto impecável.
As pernas cruzadas.
Uma taça de uísque entre os dedos.
Não demonstrava qualquer pressa.
Nem qualquer piedade.
Seus olhos escuros ergueram-se lentamente até encontrar os de Isabela.
Ela sentiu o ar desaparecer dos pulmões.
Havia algo assustador naquele olhar.
Não era raiva.
Era absoluto controle.
— Então esta é a filha.
A voz era baixa.
Calma.
Seu pai levantou a cabeça desesperado.
— Isabela... vá embora!
Antes que pudesse dar outro passo, um dos homens acertou-lhe um soco nas costas, obrigando-o a se curvar novamente.
— Pai!
Ela correu, mas outro segurança bloqueou seu caminho.
— Não toque nele.
O homem na poltrona fez um pequeno gesto com a mão.
Todos obedeceram imediatamente.
O silêncio voltou a dominar o ambiente.
— Seu nome é Isabela Rossi?
Ela encarou o desconhecido.
— Quem é você?
Ele sorriu de lado.
Um sorriso frio.
Sem qualquer traço de simpatia.
— Costumam me chamar de Don Lorenzo Moretti.
O nome caiu como uma bomba.
Até quem nunca tivera contato com o submundo conhecia aquela família.
Jornais nunca mencionavam seu rosto.
A polícia nunca conseguia provar nada.
Mas todos sabiam que os Moretti controlavam cassinos clandestinos, portos, empresas de fachada e um império construído sobre medo e sangue.
Seu pai começou a chorar.
— A culpa é minha...
Isabela olhou para ele, confusa.
— O que está acontecendo?
Lorenzo girou lentamente a taça.
— Seu pai perdeu uma aposta.
Ela franziu a testa.
— Meu pai não joga.
Lorenzo desviou o olhar para o homem ajoelhado.
— Diga a verdade.
O senhor Rossi fechou os olhos.
— Eu... comecei há dois anos.
Isabela empalideceu.
— Não...
— Tentei recuperar o dinheiro... fiz novos empréstimos... achei que conseguiria vencer...
Ela deu um passo para trás.
— Quanto?
O pai demorou alguns segundos para responder.
— Quarenta milhões de euros.
O mundo pareceu parar.
— Isso é impossível.
Lorenzo retirou uma pasta de couro da mesa de centro e a lançou sobre o sofá.
Contratos.
Transferências bancárias.
Assinaturas.
Fotos.
Extratos.
Tudo ali.
Não havia mentira.
Seu pai havia hipotecado empresas.
Depois imóveis.
Depois ações.
Por fim...
A própria mansão.
Isabela sentiu as pernas fraquejarem.
— O senhor perdeu tudo.
Lorenzo concordou.
— Tudo.
Ela olhou ao redor.
A casa onde crescera.
As fotografias da família.
Os quadros.
Os móveis.
Nada mais lhes pertencia.
Seu pai começou a implorar.
— Don Lorenzo... eu pago. Dê mais tempo.
— Já concedi tempo suficiente.
— Por favor...
— Não.
Uma única palavra.
Fria.
Definitiva.
O silêncio voltou.
Lorenzo levantou-se.
Era muito mais alto do que Isabela imaginara.
Caminhou lentamente até parar diante dela.
Ela precisou erguer o rosto para encará-lo.
O perfume amadeirado contrastava com a tensão sufocante que ele carregava.
Seus olhos percorreram discretamente o rosto da jovem.
Ela não desviou.
Mesmo tremendo.
Mesmo sabendo quem ele era.
— Você não parece ter medo.
— Estou tentando não demonstrar.
Um brilho de interesse atravessou o olhar de Lorenzo.
Quase imperceptível.
— Corajosa.
— Não. Apenas não gosto de me ajoelhar.
Os homens ao redor prenderam a respiração.
Ninguém falava assim com Don Lorenzo.
Ninguém.
Mas ele apenas inclinou levemente a cabeça.
Como se estivesse avaliando algo.
Então voltou a olhar para o pai dela.
— Amanhã volto para receber o pagamento.
O senhor Rossi desabou.
— Eu não tenho esse dinheiro!
Lorenzo caminhou em direção à porta.
Antes de sair, falou sem sequer olhar para trás.
— Eu sei.
A porta se fechou.
Os carros pretos desapareceram na chuva.
Somente quando o silêncio tomou conta da casa, Isabela percebeu que suas mãos ainda tremiam.
Ela não fazia ideia de que aquela visita não tinha sido uma cobrança.
Era apenas o começo.
Porque, na manhã seguinte, Don Lorenzo Moretti voltaria com uma proposta que mudaria sua vida para sempre.