Me incomoda, mas não quero que Kendra saiba disso. Não é como se desejasse ter beijado obscenamente Janine em um lugar público. Eu não sinto falta de estar casado com ela. Nosso período de lua de mel foi muito breve e, assim que o charme inicial desapareceu, percebi que havia me casado com alguém que era exigente e crítica. Quem quer que seja esse cara, vai fundo e boa sorte. Mas há algo de errado em ver minha ex, que claramente seguiu em frente, quando terminei recentemente outro relacionamento curto que não ia a lugar nenhum. E aqui estou eu, almoçando com minha irmã.
— Está tudo bem — eu digo.
Kendra me dá um de seus irritantes olhares de simpatia.
— Não há problema em admitir que você está se sentindo sozinho, Alex.
— Eu não estou me sentindo sozinho — digo. Mentiroso.
Ela arqueia a sobrancelha novamente, como se pudesse ver através de mim.
— Pare de fazer isso — digo. — Nem todo mundo está destinado a encontrar seu verdadeiro amor ou o que seja. Não é uma grande coisa. E isso não é onde minha cabeça está agora. Tem todo o problema com o papai e o trabalho é... trabalho. Estressante. Merda.
— Você deveria sair desse maldito trabalho — diz ela.
— Certo, eu deveria parar de pagar aluguel? — Eu pergunto. — Além disso, o que papai faria? Você sabe que ele perderia a casa.
Meu pai tem lutado financeiramente desde que machucou suas costas. Ele está desempregado há vários anos e as contas médicas continuam se acumulando. Até mesmo Kendra não sabe a extensão completa disso, e nem nosso irmão, Caleb. Ele está ocupado o suficiente terminando a faculdade de medicina enquanto cria uma filha sozinho, então Kendra e eu estamos fazendo o melhor para lidar com as coisas. Eu tenho ajudado papai o máximo que posso, mas ele vai precisar de pelo menos mais uma cirurgia. Perder a casa é apenas uma coisa em sua longa lista de preocupações.
— Você deveria fazer outra coisa — diz ela. — Você sabe que é um escritor muito bom. Isso é o que deveria estar fazendo.
— Bem, eu estou trabalhando nessa parte, mas leva tempo — digo.
— Alex, eu te amo, mas você está escrevendo esse livro o quê, há cinco anos? De alguma forma, não acho que isso vai ser uma mudança de carreira para você.
Eu quero discutir com ela, mas sei que está certa. Eu amo o que estou escrevendo, mas é mais um passatempo do que qualquer outra coisa.
— Eu sei. Você tem razão.
— Como eu disse, é uma pena que não esteja escrevendo algo para um público mais amplo — diz ela. — Ou, pelo menos, algo que não levará dez anos para escrever.
— Eu não sei sobre o que mais escreveria — digo.
— Você quer que eu fareje por aí e veja se há alguma posição de redator?
Sacudo minha cabeça.
— Não, eu não acho que seria bom nisso. Escrever o que outras pessoas me dizem para escrever tiraria a alegria disso.
— Pode não ser tão r**m — diz ela. — Você poderia estar usando esse talento para se sustentar, em vez de morrer um pouco por dentro todas as manhãs quando entra em seu cubículo.
— Quem disse que estou morrendo um pouco por dentro?
Ela levanta a sobrancelha para mim novamente.
Sim, ela está certa. Eu estou morrendo um pouco por dentro.
— É muito r**m você não escrever romance — diz Kendra com uma piscadela. — Somos leitoras vorazes. Os bons autores de romance têm um grande sucesso financeiro.
Rio tanto que quase bufo.
— Sim, eu não penso dessa forma.
—É, eu sei — diz ela. — Só estou dizendo que não é muito r**m. Sério, eu conheço algumas mulheres que leem um livro por dia.
— Um livro por dia? — Pergunto. — Como isso é possível?
— Esses livros tendem a ser mais rápidos, um escape divertido e leve que os leitores de romance não conseguem para de ler.
Eu sacudo minha cabeça.
— Impressionante, mas também não acho que seja a resposta. Obrigado por tentar, de qualquer jeito.
A conversa muda de rumo por um tempo enquanto terminamos nosso café. Alguém no andar de cima deve estar cuidando de mim, porque, antes de terminarmos, Janine sai sem me ver.
Kendra diz que tem coisas para fazer, então nos despedimos do lado de fora. Subo a ladeira até onde estacionei, e as coisas que minha irmã disseram remoem na minha cabeça. E se você escrever algo mais comercializável, para outro público. Algo que pudesse escrever mais rápido. Leitores vorazes. Um livro por dia.
Balanço minha cabeça, como se pudesse mandar embora a loucura. Eu não posso acreditar que estou cogitando isso. Romance? Não posso escrever romance. Meu próprio histórico nesse departamento não é exatamente estelar. Mas, ainda assim, é ficção. Eu poderia escrever sobre pessoas se apaixonando?
Estou um pouco envergonhado por estar considerando isso. Kendra lê toneladas de romances, e ela é uma das mulheres mais inteligentes que eu conheço, então não tenho nenhum tipo de preconceito contra esse gênero. Não, é só uma coisa minha. Escrever algo tão fora do meu gênero não seria diferente de ser redator de alguma empresa. Seria?
Entro no meu carro, me perguntando o que diabos estou pensando.