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2244 Words
Não pela primeira vez esta noite, eu me pergunto se devo tirar o cachecol. Está frio lá fora, e estou perto o suficiente da porta para que o cachecol me mantenha confortavelmente quente. Porém, meu encontro às cegas deveria procurar a garota com um cachecol azul, e não tenho certeza se quero continuar com o encontro. Normalmente, recuso encontros às cegas, antes que cheguem ao ponto de estar sentada em um restaurante, esperando nervosamente a chegada de um estranho. Essas coisas sempre acabam bem? Na minha experiência, os encontros às cegas são geralmente desconfortáveis, na melhor das hipóteses; terríveis, na pior das hipóteses. A única – e eu quero dizer, a única – razão por que concordei com este encontro foi para calar a minha irmã mais velha, Shelby. Não saio com ninguém há algum tempo – às cegas ou não – e Shelby tem sido feroz sobre esse assunto. Ela se casou jovem, e desde que voltou da lua de mel fez de sua missão me casar também. Então, quando Danielle, uma das minhas colegas de trabalho, começou a tentar me arrumar um encontro com seu primo, a voz de Shelby ressoou na minha cabeça: Você vai acabar velha e sozinha, com ninguém além de seus gatos como companhia. Eu só tenho um gato, muito obrigada. E quanto a terminar sozinha, estar solteira após os 21 anos não significa que estou destinada a ser uma louca dona de gatos. Danielle me mostrou uma foto de seu primo no f*******:, e eu tive que admitir que ele era bonito. Havia uma dele vestido de terno no casamento de alguém, e sou louca por um homem sexy de terno. Ok, então talvez apaziguar Shelby não seja a única razão de eu ter concordado com esse encontro. Parece que faz uma eternidade desde que tive qualquer coisa entre minhas pernas que tivesse um pulso. E, olhando para trás, não estou totalmente convencida de que o último cara tinha. Então, não estou usando uma calcinha “especial” – você sabe do que estou falando – mas meu sutiã e calcinha combinam e raspei minhas pernas. Uma garota deve, pelo menos, estar preparada. Ajusto meus óculos e olho para o k****e quase saindo da minha bolsa. A tentação de puxá-lo e ler por alguns minutos antes do meu encontro aparecer é forte. Todo mundo sabe que sou uma ávida leitora. Viciada em livros, para ser mais precisa. Eu leio o tempo todo. Não é exatamente um passatempo social – algo que Shelby me lembra regularmente – mas sou uma pessoa introvertida. Isso me cai bem. A verdade é que sou mais que introvertida. Eu sou meio estranha com outros humanos. Sou um pouco tímida, principalmente com pessoas que não conheço. Passo tanto tempo me preocupando com o que dizer e como causar uma boa impressão, que é como se meu corpo e meu cérebro se desconectassem. O que torna ter encontros – especialmente um encontro às cegas com um total estranho – um tipo especial de tortura. Mas se eu sobreviver a esse encontro, posso pelo menos dizer a Shelby que tentei, e talvez ela feche o bico sobre essa coisa de namoro por um tempo. E se, por algum milagre, der certo, bem, isso não seria terrível, seria? A porta do restaurante abre e meu coração bate mais rápido. É um casal de idosos – definitivamente não é meu encontro. Cheguei cedo para não ser aquela que procura em todas as mesas, tentando encontrar o cara de camisa verde. Parecia muito menos intimidador me sentar em um lugar e observar a porta. Mas isso também significa que já estou aqui há dez minutos, e a espera extra não está fazendo nada para acalmar meus nervos em frangalhos. A porta se abre novamente, e é ele. Eu o reconheço da foto, e ele está vestindo a camisa verde que disse que usaria. Pessoalmente, ele é atraente. Cabelo loiro curto, olhos azuis. Ele examina a sala por um segundo ou dois antes de me ver. Aceno – provavelmente com muito entusiasmo – e ele se aproxima da minha mesa. — Oi. — Ele estende a mão. — Eu sou o Jeff. Estou a meio caminho de me levantar... o porquê disso, eu não tenho certeza. Ficar em pé parecia a coisa certa a fazer, então sua mão estendida me pega de surpresa. Eu congelo, parcialmente dobrada pela cintura, em uma posição quase em pé, ou não-completamente-sentada. Devo me levantar neste momento? Sentar? Não faço ideia, então pego a mão dele e aperto. — Eu sou a Mia —digo. Ele solta minha mão e eu me abaixo de volta na minha cadeira. — Muito prazer em conhecê-lo. — Prazer. — Ele escolhe o assento à minha frente. — Então... Há uma pausa desconfortável. Ah, ótimo! Ele é tão r**m com conversa fiada quanto eu? Eu tento uma pergunta: — Então, você é primo de Danielle? — Sim — diz ele. — Ela me disse que vocês trabalham juntas. — Sim. Ok, nós estabelecemos algo que nós dois já sabíamos. Preciso pensar em outra coisa para dizer – rápido – mas não tenho certeza do que fazer com as mãos. Elas estão no meu colo, mas isso parece muito formal. Coloquei-as sobre a mesa, mas não há como isso parecer natural. Deus, o que eu estou fazendo? Um garçom aparece para anotar nossos pedidos de bebida. Ele olha para mim com as sobrancelhas levantadas, mas Jeff fala primeiro, pedindo uma vodka, pura. Paro por alguns segundos, me perguntando se quero uma bebida, e acabo decidindo tomar uma taça de pinot noir. Talvez um pouco de vinho me ajude a relaxar e parar de me preocupar com a posição das minhas mãos. — Uma apreciadora de vinhos — diz Jeff depois que o garçom sai. — Elegante. Dou de ombros. — Certo. É apenas o que eu normalmente peço se estivesse tomando uma bebida no jantar. — Eu acho que podemos dizer muito sobre uma pessoa com base na escolha de sua bebida — diz ele. Estou realmente prestes a ter uma conversa sobre previsões de personalidade com base em pedidos de bebida com um homem que pediu bebida alcoólica pura no jantar? E vodka, ainda por cima? Porque isso me faz pensar que ele pode ter um problema com bebida, ou uísque é muito para ele. — Sério? — Eu pergunto. — O que minha bebida diz sobre mim? — Você quer parecer sofisticada. — Ele gesticula em minha direção. — Talvez para compensar a roupa casual. Eu olho para baixo. Estou vestindo uma camisa branca e um cardigã marrom com meu cachecol azul escuro e um par de jeans escuros com botas. Eu me vesti casualmente, mas este é um encontro às cegas em um restaurante que não é exatamente sofisticado. Não é como se eu devesse usar um vestido preto e pérolas. — Isso não... eu não... — Faço uma pausa, tentando descobrir como sequer responder a isso. — Ok, o que sua vodka diz sobre você? Ele sorri. — Eu sei do que gosto. Ah, cara. O garçom traz nossas bebidas e fico tentada a beber de uma vez meu vinho, mas tenho que dirigir para casa. Nós pedimos o jantar. Eu opto por frango e risoto, e Jeff pede o bife mais caro do menu. Interessante. Conversamos enquanto esperamos pela nossa comida. Minhas mãos e pés se acalmam e não sinto mais o risco de derrubar a mesa se me mover. Jeff fala sobre seu trabalho; ele trabalha para uma start up de desenvolvimento de aplicativos. Meu trabalho no escritório de um hospital não é muito interessante. Conseguimos manter uma conversa descontraída até o jantar chegar. A comida é boa e, até agora, esse encontro não foi um desastre completo. Depois que minha inquietação inicial desaparece, relaxo. Jeff parece legal. Ele sorri para mim e faz perguntas, como se estivesse interessado no que tenho a dizer. Eu posso não ser boa em conversa fiada, mas ele começa a preencher as lacunas da conversa. Bebo meu vinho e considero pedir outro; talvez estejamos aqui o tempo suficiente para que eu possa pedir uma segunda taça. Agora que estamos indo bem com o jantar, isso não deve ser r**m. — Então, Danielle me diz que você gosta de ler muito — diz Jeff. — Sim. É um dos meus passatempos favoritos. E você? — Sim, eu leio clássicos, principalmente. Dumas, Dickens, Melville, esse tipo de coisa. Já li Moby d**k várias vezes, na verdade. Tenho a sensação de que ele adora dizer isso às pessoas, como se fosse algum tipo de distintivo de honra. — Isso é interessante. Eu leio muitas coisas. Também li alguns clássicos, mas prefiro autores como Jane Austin e Emily Brontë. Quando se trata de livros contemporâneos, o meu gênero favorito é o romance. Ele levanta as sobrancelhas. — Romance. Hum. Claro que ele zomba. Tanto faz, estou acostumada a isso, principalmente de pessoas que afirmam ter lido várias vezes Moby d**k. — Sim, bem, eu sei do que gosto. — Claro — diz ele, com um aceno de mão desdenhoso. — Acho que pensei... Eu ajusto meus óculos. — Você pensou o quê? — Eu não sei, Danielle fez parecer que você era uma leitora de verdade. Como se tivéssemos isso em comum. Meus olhos se arregalam e minha boca se abre. Estico o braço para a minha taça de vinho, mas de alguma forma erro e a derrubo. Não restava muito, mas o suficiente para manchar a toalha da mesa. Observo a mancha vermelha profunda crescer enquanto o vinho se espalha pelo tecido. Estou dividida entre me sentir envergonhada por ter feito isso e irritada com o que ele disse. Minha boca fica à frente do meu cérebro, e antes que eu possa decidir se quero parar ou não, começo a falar. Não há como confundir a irritação no meu tom. — Você acha que porque eu leio romance não sou uma leitora de verdade? — Ei, não se ofenda. Quero dizer, existem pessoas que leem, e então, existem leitores. Você sabe disso, não? — Não, eu não sei — respondo. Quem esse cara pensa que é? — Quantos livros você leu no mês passado? Suas sobrancelhas franzem, como se ele estivesse confuso com a minha pergunta. — Mês passado? Eu não sei, talvez um. — Eu li vinte e seis — digo. — Foi um mês leve para mim, porque o trabalho me manteve mais ocupada do que o habitual. — Você leu quase trinta livros em um mês? — Ele pergunta. — Em média um livro por dia — eu digo. — Provavelmente li mais livros este ano do que você leu em toda a sua vida. E, sim, eu li Moby d**k. E foi um livro chato. Também li O Peregrino, A Letra Escarlate, o Grande Gatsby, Ligações Perigosas, Frankenstein, Vanity Fair… Devo continuar? E nenhum deles foi por obrigação. Portanto, talvez antes de tirar conclusões precipitadas sobre o que as preferências de leitura de alguém, ou as escolhas de bebida, dizem sobre elas, você deva dedicar algum tempo para conhecê-las primeiro. Ele olha para mim com uma sobrancelha franzida e pega cuidadosamente meu copo de vinho, colocando-o na posição vertical. — Uau, ok, desculpe. — É claro que ele acha que minha irritação é completamente irracional. Mia Inadequada ataca novamente. Eu provavelmente poderia ter lidado melhor com isso, duvido que ele quisesse soar como um i****a. Ele tem sua opinião, eu tenho a minha, não é grande coisa. Mas é claro que minha boca disparou à frente do meu cérebro. E é claro que derramei o vinho. Alguma vez eu já estive em um encontro e não derramei algo? Certamente não no primeiro encontro. Não é à toa que não recebo muitos pedidos de um segundo encontro. — Não, não é... quero dizer... eu não... — Eu paro, porque minha língua está toda emaranhada. — Acho que apenas gostamos de coisas diferentes. A conversa é, decididamente, menos tranquila quando terminamos a refeição. Quando nossa conta chega, eu ofereço para pagar pelo meu jantar. Mas quando tento tirar minha carteira da bolsa, bato no guardanapo e no garfo, que caem no chão. Não deixo de notar os olhos de Jeff se revirando. Ele pega a conta do garçom e entrega seu cartão de crédito. Depois que a conta é paga, saímos juntos do restaurante. Jeff aperta minha mão e me dá um superficial “prazer em conhecê-la” com sinceridade zero. Solto um suspiro pesado enquanto volto para o meu carro. Outro encontro às cegas de merda para a conta. Pelo menos, acabou. Estou irritada comigo mesma por toda essa coisa de derramar vinho e sobre as palavras saindo da minha boca. O último cara que namorei tirava sarro dos livros que eu lia, então talvez eu seja um pouco sensível sobre isso. Mas não gostei tanto de Jeff, de qualquer maneira. Suponho que teria sido pior se eu quisesse vê-lo novamente e o afugentasse com minha estranheza. Pelo menos, este terminou com um sentimento de desinteresse mútuo. Ainda assim, estou decepcionada. Apesar de minha relutância em ter um encontro armado – esta é definitivamente a última vez que concordo em sair com alguém que Danielle sugere – eu não me importaria de conhecer um cara legal. Eu simplesmente não consigo achar onde eles estão. Ou se realmente existem. Talvez eles não existam. Talvez estejam apenas nos livros.
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