O lobo vem em pele de cordeiro, pode inventar um monte de mentira.
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Estava na sala de livros, já passava das oito da noite, estava revisando algumas coisas e tentava fazer uma média sobre o que iria precisar antes do evento da igreja. Mas parecia que quanto mais eu fazia, mas aparecia uma ideia boa que dava pra fazer.
Eu havia feito meu plantão no hospital e agora precisava também descansar.
Meus olhos deviam estar um pouco irritado, devido a luz forte da biblioteca.
Eu adorava aqui, aqui era onde eu cresci, escutando histórias e lendo, era incrível.
A luz era baixa e tinha algumas janelas do chão ao teto, havia uma coleção completa de livros de teologia e até alguns outros, as vezes recebíamos crianças e adolescentes, os livros mistos ajudavam demais a distrair.
Gostava bastante do convento, eu pensava em arrumar um canto só meu, mas eu havia me apegado tanto nesse lugar, parecia necessário.
Havia passado tanto tempo aqui, que parecia fazer parte de um pedaço de mim. Havia sido deixada aqui a tanto tempo, quando ainda era um bebê, um bebê pequeno e que havia nascido fazia tão pouco tempo.
Não sabia como nem onde.
Mas estava ali.
O convento era meu lugar.
- Você de repente parece tão focada e depois tão distraída - Eu quase dou um pulo da cadeira pela voz que me fala, quando ergo meu olhar, vejo o padre novato ou a figura de um.
- Você quer matar alguém do coração? - Eu até coloco a mão no peito pra controlar meu coração que havia pulado do meu peito.
- Oh, me perdoe se assustei a senhorita, estava passando e vi a luz acessa, pensei ser algumas das freiras.
- Nessas horas estão dormindo e rezando - Falo e me endireito na cadeira.
O homem se aproxima, ainda está com a camisa de magas longes escuras, os cabelos estão espetados pra cima e a mandíbula está tensa.
Ainda estou impressionada pelo tamanho e beleza do cara, independente de ser um padre, ele parecia um daquele modelos de capa de revista.
- A senhorita não acompanha as outras? - Havia uma pulga atrás da minha orelha, uma que falava que devia ter alguma coisa de errado com ele, uma que gritava, eu só não sabia a verdadeira razão pra isso.
Eu era um imã pra desastres, literalmente.
- Eu vou a igreja aos domingos - Falo otimista, eu nunca pensei em seguir aquela vocação, achava uma das mais bonitas do mundo e do século, mas não era pra mim.
- Posso me sentar um pouco? - Balanço a cabeça.
- Claro, sente-se - Afasto algumas folhas soltas e observo quando ele se senta, o braço dele por uma fração de segundos contrai por baixo da camisa, eu devo ter ficado com a boca aberta quando vi o tamanho real daquele braço. - O senhor malha? - Eu cuspo as palavras e ele ergue o olhar, me olhando.
- Eu corro.
Me inclino para trás da cadeira e dou uma risada.
- Deus me perdoa e o senhor também, mas olha o seu tamanho, se você não faz, você já fez academia ou algo do tipo, isso que tem aí não cresce naturalmente - Ele abre um sorriso, naquele momento acho que gosto, os dentes branquinhos e alinhados, como mim maldito sorriso colgate, deixando ele ainda mais atraente.
Eu disse atraente? Eu quis dizer bonito.
- Prático algumas coisas.
- Levanta pneu, não é? - Dou risada e paro no segundo seguinte, me lembrando quem era e o que eu era também, me colocando no meu lugar. - De onde o senhor veio?
Ele parece pensar. O homem fica bonito e carismático até assim, sério, porém, com um ar da graça bonito de ver.
- Bem, eu vi de Nova York.
- Tenho vontade de conhecer lá, dizem que tem ótimos hospitais.
- Sim, tem ótimos hospitais e a cidade em um todo e incrível.
- Se cansou de lá?
- Precisei de um tempo de lá, logo poderei voltar pra lá, posso te levar se quiser - Nesse momento, nesse precioso ou não momento, eu pego ele me encarando, não normalmente, como homem. O que não é bom, ele é um padre. Se ele me olhar daquele jeito pode cometer um grande e infame pecado.
- Iria gostar muito.
- Por que a senhorita está sempre por aqui?
Ele faz uma pergunta simples, uma que ele já devia ter escutado por alguem.
Não ligava de contar, pelo contrário.
- Eu fui deixada em uma cesta lá fora, eles me acharam e na época, acharam melhor me criar aqui.
- Foi abandonada?
- Não. Eu fui deixada.
Ele fica sem entender, eu dou um suspiro fundo, agora talvez ele não fosse me entender, mas era fácil.
Veja, eu não fui jogada ou abandonada, eu fui deixada na porta de um lugar pra ser criada.
Parece r**m?
Bem, foi assim que superei isso.
- Acho que faz sentido isso pra mim. Sua forma de lidar - Fico surpresa pela percepção dele, rápida e sagaz. - Desde então sempre aqui?
- Sim, sempre aqui - Abro um sorriso, orgulhosa. - Tenho muito a agradecer.
- Por que não fez isso virando uma delas?
- Não! - Balanço a cabeça rindo, com tamanha proposta, quase a mesma que a maioria pensa. - Eu acho incrível, mas o que me pegou foi outro canto, eu também não sirvo pra vocação, tenho minha fé e acredito no nosso Deus, mas não tenho vocação nenhuma.
- Você parece ser importante aqui.
- Na verdade participo bastante, acho importante. Hoje eu posso retribuir aqui, posso fazer a diferença.
- Assim como fizeram?
- Sempre aprendi sobre gratidão Senhor Vini, acho que isso faz diferença, faz a gente ver o outro e saber que uma mão ajuda outra.
Ele dá uma risadinha baixa.
- Nem todo mundo é grato. Admiro isso em uma pessoa.
- Eu acho que gratidão faz as coisas valerem a pena no fim do dia, do que faço por mim e recebo pra mim. Tenho um espírito de gratidão enorme senhor Vini. Quando você cresce recebendo amor de estranhos e ajuda, educação ou até um teto, te tratando como uma família mesmo, no fim do dia, você tem que agreder a Deus, essas pessoas e a você, por estar ali.
Abro um sorriso, com uma sensação que sempre tinha quando falava de peito aberto que era grata, por cada coisa, até as ruins.
- Uai, foi muito boas suas palavras.
- Adoro esse lugar e cada uma - Mostro os papéis na mesa. - Tento retribuir, como agora.
- Esse é o evento que você falou aquele dia na cozinha pra mim?
- Sim, todo ano fazemos um evento beneficente senhor, para poder arrecadar fundos pro convento, o dízimo e contribuição vão para paróquia, para igreja mesmo. Aqui as vezes as coisas apertam.
- Imagino.
- Vou conseguir trocar e reformar esse lugar esse ano, essa é nossa meta.
- Quanto é?
- 60 mil dólares - Eu faço uma careta. - Parece muito, mas é o necessário pra reformar tudo que precisa aqui.
- Não parece tanto.
- Mas é muito dinheiro pra gente, então por isso esse evento tem que sair incrível, meu medo é entregar a resolução e o senhor Ivan não deixar, ele acha que vou sair da linha, mas eu sei exatamente as regras. Meu intuito é fazer o melhor.
- Passe confiança a ele, assim ele vai te ajudar muito, você trabalha com o que? Vi a senhorita mais cedo.
- Mad - Fico sem graça. - Pode me chamar de Mad, senhorita parece bem pacato.
- Tudo bem - Ele me encara, os olhos caem sobre mim de novo, mas dessa vez eu não desvio, meu olhar cai na boca dele. - Mad.
Vejam, a forma que eu fico parada de boca aberta por causa do meu nome saindo da boca dele.
Não é pra mim mesmo, não é Deus?
Eu desvio o olhar segundos depois, dando um balançar de cabeça.
Eu só posso estar ficando maluca.
Recolho minhas coisas.
- Acho que vou indo - Finjo olhar para o relógio, eu nem sei que hora era. - Amanhã eu acordo cedo - Fico de pé, desconcertada pelo pensamento que passa na minha cabeça. - O senhor vai ficar aqui?
- Vou aproveitar e pensar um pouco.
- O senhor está escrevendo muito?
- Escrevendo? - Eu olho para ele, desconfiada. - Ah, sim, estou indo bem, aqui o ar é ótimo, não como o de Nova York, estou me enchendo de inspiração.
Penso por um segundo que ele está brincando com a minha cara, mas ele fica sério, eu dou um balançar de cabeça, deixando isso pra lá e me movendo.
- Uma ótima noite para o senhor, padre.
- Pra você também.