CAPÍTULO 4 - MADELEINE

1506 Words
Ninguém vai aparecer na sua vida por nada, sempre tem algo. Sempre. _________ Coloco a minuciosa fatia de queijo no pão e olho a perfeição diante meus olhos, no total silêncio na cozinha do convento, enquanto me mexo, guardando os vestígios de um crime completo. Eu estava morta de fome, não havia descido para o jantar, fiquei horas organizando o planejamento exato para o evento beneficente que teríamos em breve, tínhamos que arrecadar algo em torno do necessário, sabia que nos últimos não havia dado muito certo, visto que tinham ordens para simplificar, mas não podíamos simplesmente fazer isso agora, precisávamos do dinheiro. Quanto mas bem feito a festa da igreja, melhor seria. A ordem eram para o reverendo e as irmãs, eu não era o reverendo e as irmãs, era Madeleine. Vamos, me apoiem agora, quero que pensem no lugar que você nasceu, na poça de água que se forma perto da biblioteca devido a falta da troca do teto. Pensem na pintura de 4 camadas das paredes, na tinta r**m e com cheiro de mofo. Deus fala pra fazer por onde, então farei por onde. Na pior das hipóteses, vou ser expulsa, na melhor, vamos conseguir a grana, embora acho que sabemos alguma doação da comunidade, devido o pagamento de algumas faturas mensais tão rápido. Puxo a banqueta e me sento, arrumando o prato no balcão, por um segundo suspiro fundo e fico parada, encarando o caderno aberto e a caneta sobre ele, minha experiência com eventos dessas proporções eram mínimas, tinha que pensar rápido, com coesão e dentro da linha. - Deus, agradeço pelo pão com queijo delicioso - Dou uma risadinha. - Queria também - Paro de falar quando escuto o barulho de algo pisar na madeira. O som é familiar. Me lembra quando sou eu pisando devagar, para não ser pega, pulo do banco, por um segundo paro e paraliso no lugar, com o pensamento nada muito otimista de quem fez aquele ruído. Morar aqui me ensinou uma coisa importante. Freiras ou qualquer pessoa aqui pensaria em assaltos no alto da madrugada. Puxo a colher de madeira grande, que fica perto dos armários, uma grande colher, que poderia causar um trauma muito grande bem acertada. Escuto uma tosse, fico parada, me movo e fico entre o vão da parede e o refrigerador, então seguro a respiração, vejo a sombra enorme fazendo contraste com a pouca luz. Deus, se for o senhor avisa, se não for avisa também, antes que eu consiga raciocinar, a sobra passa por mim, grande, enorme, meu coração acelera e eu vejo-o indo para geladeira, antes que consiga acertar qualquer coisa naquela parede gigante ele se esquiva, eu vou direto. Vejam, uma manga madura demais cai exatamente assim no chão. - Aí! - Eu fico parada no chão. - Que droga! - Quando me viro tem dois olhos me encarando e um paredão enorme. - Você iria me acertar com uma colher?! Olho para minha mão, fico envergonhada. Identificado a voz com a do senhor Vini, padre no tempo sabático e blá, blá, blá. - Geralmente não temos ninguém na cozinha de madrugada e muito menos alguém tão alto - Me sento no chão, arrumando o cabelo e o encarando. - O que o senhor faz aqui, padre? Tento parecer o mais normal que consigo. - Eu... eu - Ele gagueja, mesmo assim a voz ainda ta alta e totaliza um tom novo pra mim, o sotaque que me lembra do bundão do Doutor Richard, de Nova York. - Água. - Oh, claro, claro - Fico de pé e me mexo, abrindo a geladeira e pegando a jarra e erguendo pra ele. - O que é isso? - Água?! - Claro, água - Ele pega e se move, ele está com a mesma roupa de mais cedo, me pergunto se ele dorme a rigor ou só tenha perdido o sono na primeira noite aqui. - Você não devia estar na cama, senhorita? - Madeleine ou apenas Mad, o senhor é um padre de Nova Iorque? Não é? - Como? - Nova Iorque, seu sotaque, trabalho com um doutor de lá, espero que você não seja tão egocêntrico como ele, aqui e cidade pequena, receber pessoas de cidade grande sempre é um problema para adaptação. Ele fica me olhando até conseguir acompanhar o que eu falo, eu geralmente falo depressa e isso pode ser devido a ansiedade e agitação que sempre me encontro. - Meu Deus - Ele se mexe e puxa um copo, encarando em seguida o caderno sobre a mesa. - Você estuda? - Isso são algumas anotações, estou pensando em fazer uma feira beneficente daqui um tempo, não sei se o senhor notou, temos que arrecadar fundos para reparos de rotina do nosso lar, além de organizar custos mensais e outras coisas. Igreja não vive de caridade. - Entendo, pode ser que vocês ganhem algo para repor esse custo - Noto uma ironia que não entendo. - Isso é bom, o que tem de bom aqui pra se fazer, em Del Rey? - Dou uma risada, encarando o rosto dele, por um segundo comento pecado ao olhar a boca e depois o olhar. Oh, meu pai! - Bem - Engulo seco, quase como se tivesse pedra passando na minha garganta com a imagem dele bem diante de mim. Céus, ele é muito gato. - A cidade é pequena, o comércio é local e depende da mineração das montanhas e acontece pequenos eventos e algumas aglomerações, mas nada de uau, que grande coisa, a cidade tem suas calmaria para viver. - Por que mora aqui? - Antes que eu responda ele se move, se senta e com todo o atrevimento que eu não sabia que ele tinha, ele puxa o prato e pega meu sanduíche, abro e fecho a boca. - Digo, você não é como as outras. Você não é uma feia, não é? O jeito dele falar está mais sutil. Estranho feio. - Longa história padre, mas me diga, qual sua idade? - Analiso o modo que ele come, pegando o sanduíche e mordendo uma grande mordida, noto tudo, o modelo nada adequado de comer, a forma afobada e agitada. Assim como eu. Mundano. - Alguns números, minha jovem - Ele suspira. - Passarei algum tempo aqui, você poderia me mostrar a cidade qualquer tempo desses. Seria bom sair daqui um pouco e refrescar as ideias. - Certo, certo, mas aposto que ainda não conheceu tudo aqui, comece conhecendo aqui padre, vai gostar do clima, de todos aqui, somos conhecidos pela cordialidade aqui dentro e do acolhimento. As meninas são incríveis. - Eu sei sobre o acolhimento - Ele ri se inclinando e olhando o caderno, passando os olhos pelas coisas anotadas. - Sabe, na nossa cede de Nova Iorque, eventos beneficentes tinham mais animação, não eram tão simples, se você quer chamar a atenção para algo, mobilize, faça as pessoas se interessarem no que vai acontecer e no que vai realmente acontecer, não se prenda também só na igreja como o centro, faça algo diferente. - O que quer dizer? - Aqui você está praticamente colocando um evento para arrecadar fundos, quando na verdade devia pensar que devia entreter essas pessoas para elas se sentirem confiantes em ajudar com a causa principal e gastar alguns dólares ali. Sabe o que acho, e que muitas igrejas perdem seu público por trazer uma coisa presa, solte mais isso, atrações, comida, bebida e alguma interatividade como dança ou algo do tipo. Caso contrário, não vai alcançar um número maior, faça desse evento seu negócio. Me aproximo, encaro o rascunho, faz sentindo, suspiro fundo e me sinto uma inútil, mesmo eu tentando ser a mais útil. - Realmente precisamos disso, mas eu nunca peguei algo desse modelo, essa é minha primeira vez. - Peça alguma ajuda - Ele termina a última mordida, fazendo uma pausa. - Assim vai se sair bem, Madeleine. Por um segundo pisco surpresa, pela forma que ele fala comigo e pronúncia meu nome. Uma ideia se passa na minha cabeça, fico agitada. Quem é esse homem? Nova Iorque? Padre? - Faz quanto tempo que se tornou um padre, que virou sua vocação? - Desde muito novo. - Quando fez o seminário? - Ele fica parado, me olhando, se levanta e deixa o prato. - Eu preciso ir, foi bom conversar com você. O homem se move tão rápido, que penso se ele não quer o poder de evaporar no ar. - Boa noite, padre - Ironizo, então algo se passa na minha cabeça, algo tão banal. - Boa noite. Boa noite? Cadê o Deus te abençoe ou aquilo tudo. Abro e fecho a boca. - Você não é um padre - Deixo escapar. - Bonito demais para ser padre e sem contexto para isso, certo, quem é esse cara e o que ele está fazendo aqui? Fico parada, olho o prato e balanço a cabeça. Um padre não comeria meu sanduíche sem pedir. Deus, com todo o respeito, está escrevendo por linhas tortas aqui?
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