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Atrás da Parede

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Blurb

​Ele era o ruído na vida perfeitamente silenciosa dela. Ela era a única mulher que ele jamais conseguiu esquecer.​Liv só queria duas coisas: entregar suas traduções no prazo e ter paz no seu novo apartamento em Silver Falls. Presa há dez anos num relacionamento morno, controlador e sufocante com Seth, seu namorado desde o ensino médio, ela finalmente deu um passo rumo à independência ao alugar o aconchegante Apartamento 4B.​O problema? A sua tão sonhada paz dura exatamente até as duas da manhã, quando a música alta e os passos no Apartamento 4A começam.​Cole Miller é a definição viva de dor de cabeça: 1,92m de altura, um corpo impecável esculpido na academia, uma tatuagem marcante no braço e uma reputação de canalha que traz uma mulher diferente para casa a cada final de semana. Para Liv, o vizinho da porta da frente não passa de um babaca egocêntrico e barulhento que adora testar os limites do seu juízo.​O que Liv não imagina é que por trás da postura debochada e da vida agitada de Cole existe um segredo guardado a sete chaves.​Anos atrás, numa noite de tempestade na biblioteca da faculdade, Cole se apaixonou pela garota de olhos azuis, franja e sardas no nariz. Ele se afastou por respeito ao namorado dela, tentando enterrar o que sentia sob uma rotina vazia de distrações. Mas o destino tem um senso de humor sádico: colocou Liv exatamente do outro lado da sua parede.​Ver o namorado tóxico de Liv tratá-la com desprezo no corredor a cada final de semana é a gota d'água para o autocontrole de Cole. Entre guerra de post-its irônicos colados nas portas, trocas de farpas no elevador e uma parede fina demais para conter a tensão s****l avassaladora, a convivência no quarto andar se torna uma bomba-relógio.​Liv achava que sabia exatamente o que queria para o seu futuro. Mas o vizinho da porta ao lado está prestes a provar que tudo o que ela precisa está a apenas alguns passos de distância.

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1.O Bilhete no 4B
COLE ​O som do graves batendo contra as paredes de tijolos do meu apartamento costumava ser o meu único anestésico depois de um dia de doze horas na academia. ​Eram duas e quinze da manhã de uma quinta-feira abafada em Silver Falls. A luz amarelada do abajur de pé lançava sombras compridas pela sala do meu apartamento, o 4A, refletindo na garrafa de uísque pela metade sobre a mesa de centro e nos halteres esquecidos no canto do piso de madeira. ​No sofá de couro, uma mulher cuja risada alto astral eu já tinha esquecido o nome — acho que era Jessica, ou talvez Jenna — passava as unhas compridas pelo meu ombro, descendo devagar pela pele desenhada pela tatuagem de leão que cobria todo o meu braço esquerdo. Ela estava dizendo alguma coisa sobre uma festa no final de semana, o tom de voz manhosamente arrastado, mas a minha mente não estava ali. ​Na verdade, a minha mente raramente estava presente nesses momentos. ​Eu tinha um metro e noventa e dois de altura, o corpo trabalhado em anos de calistenia e musculação pesada, uma rotina estável como personal trainer nas academias mais frequentadas de Silver Falls e a facilidade irritante de atrair qualquer mulher que quisesse atenção por uma noite. Mas, por dentro, eu me sentia como um casca vazia. Toda aquela movimentação, as garotas diferentes a cada final de semana, a música alta e o fluxo constante de distrações eram apenas o meu jeito i****a e fracassado de tentar ocupar um espaço que pertencia a uma única pessoa há cinco anos. ​— Cole... você tá me ouvindo? — perguntou a garota, inclinando o corpo na minha direção, o cheiro de um perfume doce demais agredindo as minhas narinas. ​— Tô sim — menti, a minha voz saindo num tom baixo e rouco, arrastando os dedos pelos meus cabelos castanhos enquanto me inclinava para pegar o meu copo na mesa. — Só tô cansado. O treino de hoje à tarde acabou comigo. ​Ela sorriu, achando que a minha resposta era uma provocação, e se aproximou mais. Eu ia me virar para responder quando um som seco e ríspido cortou a música que saía das caixas de som. ​BAM. BAM. BAM. ​Três batidas firmes, impacientes e secas contra a madeira da minha porta de entrada. ​O som foi alto o suficiente para fazer a garota ao meu lado dar um pequeno pulo no sofá, franzindo a testa perfeitamente maquiada. ​— Quem é a esta hora? — resmungou ela. — A polícia? ​— O síndico, provavelmente — murmurei, soltando o copo de uísque na mesa. ​Ajeitei a minha calça de moletom cinza no quadril e caminhei em direção ao hall de entrada. O chão de taco rangia sob o peso dos meus passos descalços. Eu já estava preparando um discurso sarcástico mentalmente para despachar qualquer vizinho chato que tivesse resolvido reclamar da música no meio da madrugada. As pessoas naquele prédio costumavam ser velhas e rabugentas, e eu não estava com um pingo de paciência para sermões institucionais. ​Girei a maçaneta e puxei a porta de carvalho para dentro. ​O corredor do quarto andar estava completamente vazio. ​O silêncio do hall era quebrado apenas pelo zumbido distante do elevador antigo no fundo do corredor. Franzi a testa, encarando o corredor comprido e bem iluminado, pronto para xingar quem quer que estivesse brincando de bater na porta alheia àquela hora da noite. ​No entanto, quando fiz menção de fechar a porta, um quadrado amarelo brilhante colado bem na altura dos meus olhos chamou a minha atenção. ​Um post-it. ​Pisquei devagar, pegando o pequeno papel amarelo que estava grudado na madeira escura da porta. Antes de ler, o som suave de uma fechadura estalando no apartamento logo ao lado fez o meu pescoço girar na hora. ​A porta do Apartamento 4B — o imóvel que estava vago há meses e que finalmente fora alugado há poucas semanas — estava se fechando devagar. ​Pelo ângulo do corredor, consegui pegar apenas um relance do morador que acabara de entrar. Uma figura pequena, vestindo um moletom cinza gigante que parecia engolir o seu corpo, e uma cascata de cabelos num tom marcante de castanho-acobreado que caíam pelas costas até a metade da cintura. O clique seco da trava magnética disparou, e o 4B mergulhou no silêncio. ​Olhei para o papel amarelo na minha mão. A caligrafia era firme, desenhada com uma caneta de ponta fina preta, sem um único erro de rasura: ​"Aprenda a controlar o volume do seu som e o tom das suas visitas antes que o prédio inteiro descubra que você não sabe o significado de 'horário de silêncio'. Nem todo mundo passa a madrugada sem fazer nada. Algumas pessoas trabalham de verdade e precisam de concentração. Atenciosamente, 4B." ​Um riso fraco, desacreditado e puramente irônico escapou do fundo da minha garganta. ​A audácia da mensagem. A petulância das palavras escritas com tanta precisão no meio da madrugada. Quem quer que tivesse se mudado para o apartamento da frente tinha muita coragem — ou muita falta do que fazer — para colar um recado daqueles na minha porta em vez de falar na minha cara. ​Achei graça. Amassei levemente a ponta do papel e dei dois passos largos para fora do meu apartamento, cruzando os meus braços musculosos sobre o peito nu enquanto caminhava em direção à porta do 4B. A tatuagem no meu braço se tensionava a cada movimento. Eu ia bater naquela porta, entregar o post-it de volta e ensinar para a nova vizinha que joguinhos de recados não funcionavam comigo. ​Parei diante da porta de madeira do 4B. ​Levantei a mão para bater, mas antes mesmo que os meus nós dos dedos tocassem a madeira, o som da fechadura do 4B estalou novamente. ​A porta foi destravada e puxada ligeiramente para dentro. A garota de moletom cinza reapareceu no vão, segurando um pequeno saco de lixo reciclável na mão direita, claramente pretendendo levá-lo até a lixeira do corredor antes de dormir. ​Ela não esperava me encontrar ali. ​E eu certamente não esperava o que aconteceu no milissegundo em que os olhos dela se ergueram para encarar os meus. ​O ar congelou nos meus pulmões. O meu coração deu uma batida tão violenta contra as minhas costelas que senti um sobressalto físico percorrer a minha espinha de um metro e noventa e dois. O mundo ao meu redor — a música no meu apartamento, a garota no meu sofá, a noite fria de Silver Falls — simplesmente deixou de existir. ​Ela recuou um passo, assustada com a minha presença gigante na porta dela, e a luz amarelada do corredor bateu em cheio no seu rosto. ​A franja castanho-acobreada caindo com perfeição sobre a testa. As sardinhas delicadas espalhadas como um mapa poético pelo nariz e pelas bochechas ligeiramente coradas pelo cansaço. E aqueles olhos. Aqueles olhos azuis incrivelmente intensos, profundos e inesquecíveis que me perseguiram em cada sonho, em cada noite em claro e em cada rosto de mulher que tentei tocar nos últimos cinco anos. ​Liv. ​Era ela. ​A garota da biblioteca de Silver Falls. A garota que conversara comigo por duas horas numa noite de tempestade enquanto o mundo lá fora desabava. A garota que derretera a minha armadura com um único sorriso, apenas para me partir o coração logo em seguida ao mencionar que pertencia a outro homem desde os quinze anos de idade. ​Ela estava ali. A poucos centímetros de mim. Morando exatamente do outro lado da minha parede. ​Os olhos azuis dela piscaram devagar, arregalando-se numa mistura de choque e reconhecimento gradual enquanto varriam o meu rosto, o meu peitoral nu e a tatuagem no meu braço. A respiração dela travou na garganta, as sardas na pele clara parecendo se destacar ainda mais sob o impacto da surpresa. ​O bilhete amarelo amassou na minha mão. A raiva que eu sentia evaporou, dando lugar a uma dor crua, antiga e avassaladora que inundou o meu peito de uma só vez. ​O destino acabara de colocar a única mulher que eu amava na porta da minha casa. E o pavor absoluto de saber que ela ainda pertencia ao mesmo babaca do passado fez o meu chão desaparecer sob os meus pés.

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