LOGAN REID
Victoria ajeitava minha gravata com os dedos delicados, os olhos fixos em mim, com um brilho que eu já conhecia bem. Ela me olhava com certo desejo, mas eu sabia que nossa relação se resumia a uma coisa: tensão s****l, temperada com uma dose generosa de interesse financeiro. Não passava de um jogo de poder disfarçado de afeto.
— Você está perfeito, querido — disse ela, com um sorriso travesso.
Eu não a respondi, não precisava. Sabia exatamente o que ela queria dizer. Ela estava animada com o que estava por vir, e não era por causa de mim, mas pelo testamento do meu tio. Isso significava mais dinheiro para ela gastar, mais poder sobre minha vida, mais controle.
— Vick, é melhor você não ir — eu disse, desviando o olhar.
Ela franziu a testa, emburrada, mas logo rebateu:
— Mas Jack disse que não teria problemas. Eu quero muito conhecer o prédio, posso esperar do lado de fora da sala de reuniões.
Dei de ombros. Para mim, tanto fazia. Fui até o espelho, ajeitei o terno, os óculos escuros e respirei fundo. Já havia me acostumado com a ideia de ter a minha vida sendo decidida por um testamento.
Saímos em direção ao prédio de meu tio. Aquele prédio era grandioso, imponente, e me trouxe de volta tantas memórias. Fazia anos que eu não pisava ali. Desde a morte de meu pai e do acidente aéreo que tirou a vida de meu primo — o filho do meu tio. Aquilo destruiu nossa família de uma forma que eu nunca consegui entender. A herança e a disputa por ela estavam nos meus ombros desde então.
Estacionei o carro em uma vaga especial e ao sair, vi algo que me chocou. Um veículo esportivo importado estava estacionado na antiga vaga de meu tio. Carros caros? Sim, havia vários ali, mas aquele era o mais impressionante, o mais ostentoso de todos.
— Quem seja lá o dono, é cheio de grana — Jack comentou, colocando a mão em meu ombro, tentando aliviar a tensão que sentia. Mas, no fundo, eu sabia que o dinheiro não era o meu maior problema.
Vi Victoria andando em direção ao prédio, mais interessada na empresa do que no papel de esposa que ela fingia ter. Mas, como sempre, ela estava em busca de uma nova oportunidade para se aproveitar da minha situação.
Ao entrar na sala de reuniões, Cameron, o meu advogado, veio até mim, visivelmente desconfortável. Ele gaguejou ao falar:
— Senhor Reid, eu... eu...
Olhei para ele com a paciência que me restava e disse:
— Olha, para sua sorte, estou de bem hoje. Em breve, acertarei os pagamentos atrasados.
Ele assentiu, aliviado, e me entregou alguns papéis, se afastando em seguida.
O notário, que estava ali para garantir que tudo fosse feito dentro da legalidade, indicou com um gesto que nos sentássemos.
Nos acomodamos, e os minutos pareciam se arrastar como horas. A tensão no ar era palpável. O relógio na parede marcava o tempo de forma implacável, e minha impaciência só aumentava. Não podia acreditar que estava ali, sendo forçado a assistir a uma reunião sobre uma herança que não queria, mas que me era imposta.
— Não podemos começar? — perguntei, olhando para o notário, que me lançou um olhar feio.
— Não podemos começar sem a senhorita Hayes — ele disse, com frieza.
Eu resmunguei, pegando o copo de água que estava à minha frente e bebendo de uma vez só. O prédio do meu tio estava repleto de riqueza e tecnologia, tão diferente da minha empresa, que estava afundando em dívidas. Eu podia sentir o peso da decadência me esmagando, e isso me incomodava mais do que qualquer outra coisa.
Dez minutos se passaram, depois vinte, e eu estava cada vez mais irritado. As testemunhas cochichavam entre si, e os legatários me lançavam olhares tortos. Era impossível ignorar o quão estranho e desconfortável aquilo tudo parecia. Mas, então, foi como um soco no estômago.
O som dos saltos altos ecoou pela sala antes de tudo se silenciar. Um perfume caro invadiu o ambiente, e eu sabia quem era antes mesmo de ver. Ela entrou com um sorriso triunfante no rosto, jogando os cabelos iluminados pela luz para trás. O vestido, sensual e formal, colado em suas curvas, fez com que meus olhos se perdessem por um momento. O decote delicado, mas que deixava entrever a perfeição do corpo que eu sabia ter sido minha, me fez suspirar involuntariamente.
— Me desculpem pelo atraso, é que... — ela começou, mas foi interrompida por alguém atrás de si.
— Não peça desculpas, querida. — Minha tia, que estava ali, lançou-me um olhar fulminante. — Ela chegou bem antes de certas pessoas, mas acabei puxando conversa com ela, o que a fez atrasar. E, Logan, cale-se. Se não fosse pelo seu tio, você nem estaria aqui.
Minha garganta se fechou. Eu apenas assenti, sem coragem de retrucar. Audrey se sentou ao meu lado, e Tia Lily se sentou ao seu lado, sorrindo com satisfação. Mas eu estava atordoado. Ela não era mais aquela mulher simples e de beleza comum que eu deixei para trás. O que eu havia jogado fora estava ali, diante de mim, mais forte, mais imponente e, de algum modo, mais atraente do que nunca.