O Dono do Morro

984 Words
O som dos tiros ao longe já não assustava mais Danilo. Sentado no parapeito da laje, com um cigarro entre os dedos e os olhos fixos na cidade iluminada lá embaixo, ele parecia uma sombra. Observava tudo, sempre calado, sempre atento. O morro dormia sob o seu comando, mas ele nunca dormia de verdade. Ao lado dele, Ivan mantinha os braços cruzados, também em silêncio. O celular vibrou no bolso da bermuda e ele atendeu rápido. — Fala. Pausou, escutou. — Traz pra cá. O chefe vai saber o que fazer. Danilo não perguntou. Só deu uma tragada longa e jogou a fumaça para o céu estrelado. — Pegaram uma menina no asfalto. Dizem que é de família rica. Não sabem quem é, mas acham que vale algo. Os moleques estavam tentando assaltar uma loja quando ela passou. Agora tá desacordada. Danilo se levantou devagar, ajeitando a corrente de ouro no pescoço. Era alto, de ombros largos, com olhos escuros que não entregavam nada — nem raiva, nem medo, nem compaixão. O tipo de homem que aprendeu cedo a não demonstrar fraqueza. O tipo de homem que, para muitos, era só um criminoso perigoso. Mas ali, naquele morro, ele era mais que isso. Era rei. Dono. Justiça. — Leva pro galpão. Quero ver com meus próprios olhos. --- Acordar foi como emergir debaixo d’água. O corpo de Cecília doía inteiro. A cabeça latejava. O cheiro era de poeira, suor e madeira úmida. Quando tentou se mover, percebeu que estava deitada sobre um colchão velho, jogado num canto de um galpão escuro, com uma lâmpada pendurada do teto piscando ritmadamente. — Que droga… Levantou-se com dificuldade, sentindo a garganta seca e o medo crescendo no peito como uma onda prestes a engoli-la. Tentou lembrar de tudo. O assalto, o pano no rosto, o breu. Ouviu passos. Vários. A porta de metal se abriu com um rangido, e dois homens entraram. Um deles vestia chinelo, bermuda e uma camisa furada, mas trazia no olhar a autoridade de quem não precisava de armas para intimidar. O outro — moreno, tatuado, cara de poucos amigos — ficou ao fundo, como guarda-costas silencioso. Cecília se pôs de pé com rapidez, mesmo trêmula. Olhou diretamente para o homem à frente. E ele parou, como se a presença dela tivesse lhe acertado em cheio. — Quem é você? — ela perguntou, a voz rouca, mas firme. Danilo não respondeu de imediato. Observava. Era linda. Cabelos escuros bagunçados, olhos castanhos cheios de desafio, até ferida ela tinha classe. Mas não era só a beleza. Era o jeito que o encarava. Como se não tivesse medo dele. Como se fosse ela quem mandava ali. — Quem eu sou não importa agora — ele disse por fim, com voz grave. — A pergunta é: quem é você? — Isso é sequestro? Roubo? Extorsão? Porque se for, aviso logo: não vão conseguir nada. Meus tios estão falidos, mesmo fingindo o contrário. E eu não valho o que parece, ok? Ivan soltou uma risada abafada ao fundo. Danilo sorriu de canto. Aquela mulher era diferente. A maioria das ricas chorava, implorava, desmaiava. Ela estava ali, com o queixo erguido, desafiando-o. — Você tem coragem. Gosto disso. — Não me interessa o que você gosta ou deixa de gostar — retrucou ela, avançando um passo. — Quero meu celular, quero ir embora. Agora. Danilo aproximou-se devagar. A diferença de altura entre os dois era evidente, mas Cecília não recuou. — Tá achando que tá onde, boneca? Isso aqui é o morro. Aqui, quem dita as regras sou eu. Você caiu aqui porque os moleques fizeram merda, e agora tá na minha mão. E eu… ainda tô decidindo o que faço com você. Ela franziu o cenho. — Me matar vai servir de quê? Vai dar mais problema do que solução. — Não sou assassino de rica à toa. Se eu quisesse te apagar, nem tinha acordado. Só tô… curioso. — Curioso? — É. Pra entender por que uma patricinha metida tá me encarando como se fosse dona dessa p***a toda. Os dois se encararam por segundos que pareceram eternos. O ar entre eles carregado, denso, como se uma faísca pudesse incendiar tudo. — Porque você não me mete medo — ela sussurrou. — Só me dá nojo. Ivan murmurou algo, mas Danilo ergueu uma mão e riu, de verdade dessa vez. Era raro. Quase ninguém o fazia rir. — Leva ela pra casa de apoio. Nada de barraco. E coloca alguém de olho. Se tentar fugir, me avisa. — Eu não vou fugir — Cecília rebateu. — Só quero sair com dignidade. Danilo virou-se antes de responder, mas disse por cima do ombro: — Aqui ninguém sai do jeito que quer. Só quando eu permitir. --- A casa de apoio era simples, mas limpa. Um dos cantos do morro onde Danilo mantinha mulheres e crianças protegidas do caos da guerra do tráfico. Era como um abrigo improvisado, com camas beliches, cozinha comunitária e algumas mulheres que o respeitavam como um protetor — mesmo que fosse um criminoso. Cecília foi deixada em um quarto isolado, com uma troca de roupas e um copo de água. Olhou tudo com cuidado, cada detalhe, cada rota de fuga. Mas, acima de tudo, pensava nele. Aquele homem. O jeito como a olhou. O poder que emanava. A escuridão nos olhos. Ela sentia ódio dele. E, ao mesmo tempo, algo dentro de si — algo que odiava admitir — queimava. Danilo, do alto da laje, a observava de longe. Ivan se aproximou com uma garrafa de água e uma pergunta: — Vai deixar ela ir? — Ainda não. — E por quê? Danilo apertou os olhos, como se enxergasse além das vielas e da cidade iluminada abaixo. — Porque ela me olha como ninguém nunca olhou. E porque… tem algo nela. Algo que eu quero entender. Nem que isso me custe a paz.
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