O som dos tiros ao longe já não assustava mais Danilo. Sentado no parapeito da laje, com um cigarro entre os dedos e os olhos fixos na cidade iluminada lá embaixo, ele parecia uma sombra. Observava tudo, sempre calado, sempre atento. O morro dormia sob o seu comando, mas ele nunca dormia de verdade.
Ao lado dele, Ivan mantinha os braços cruzados, também em silêncio. O celular vibrou no bolso da bermuda e ele atendeu rápido.
— Fala.
Pausou, escutou.
— Traz pra cá. O chefe vai saber o que fazer.
Danilo não perguntou. Só deu uma tragada longa e jogou a fumaça para o céu estrelado.
— Pegaram uma menina no asfalto. Dizem que é de família rica. Não sabem quem é, mas acham que vale algo. Os moleques estavam tentando assaltar uma loja quando ela passou. Agora tá desacordada.
Danilo se levantou devagar, ajeitando a corrente de ouro no pescoço. Era alto, de ombros largos, com olhos escuros que não entregavam nada — nem raiva, nem medo, nem compaixão. O tipo de homem que aprendeu cedo a não demonstrar fraqueza. O tipo de homem que, para muitos, era só um criminoso perigoso. Mas ali, naquele morro, ele era mais que isso. Era rei. Dono. Justiça.
— Leva pro galpão. Quero ver com meus próprios olhos.
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Acordar foi como emergir debaixo d’água. O corpo de Cecília doía inteiro. A cabeça latejava. O cheiro era de poeira, suor e madeira úmida. Quando tentou se mover, percebeu que estava deitada sobre um colchão velho, jogado num canto de um galpão escuro, com uma lâmpada pendurada do teto piscando ritmadamente.
— Que droga…
Levantou-se com dificuldade, sentindo a garganta seca e o medo crescendo no peito como uma onda prestes a engoli-la. Tentou lembrar de tudo. O assalto, o pano no rosto, o breu.
Ouviu passos. Vários. A porta de metal se abriu com um rangido, e dois homens entraram. Um deles vestia chinelo, bermuda e uma camisa furada, mas trazia no olhar a autoridade de quem não precisava de armas para intimidar. O outro — moreno, tatuado, cara de poucos amigos — ficou ao fundo, como guarda-costas silencioso.
Cecília se pôs de pé com rapidez, mesmo trêmula. Olhou diretamente para o homem à frente. E ele parou, como se a presença dela tivesse lhe acertado em cheio.
— Quem é você? — ela perguntou, a voz rouca, mas firme.
Danilo não respondeu de imediato. Observava. Era linda. Cabelos escuros bagunçados, olhos castanhos cheios de desafio, até ferida ela tinha classe. Mas não era só a beleza. Era o jeito que o encarava. Como se não tivesse medo dele. Como se fosse ela quem mandava ali.
— Quem eu sou não importa agora — ele disse por fim, com voz grave. — A pergunta é: quem é você?
— Isso é sequestro? Roubo? Extorsão? Porque se for, aviso logo: não vão conseguir nada. Meus tios estão falidos, mesmo fingindo o contrário. E eu não valho o que parece, ok?
Ivan soltou uma risada abafada ao fundo. Danilo sorriu de canto. Aquela mulher era diferente. A maioria das ricas chorava, implorava, desmaiava. Ela estava ali, com o queixo erguido, desafiando-o.
— Você tem coragem. Gosto disso.
— Não me interessa o que você gosta ou deixa de gostar — retrucou ela, avançando um passo. — Quero meu celular, quero ir embora. Agora.
Danilo aproximou-se devagar. A diferença de altura entre os dois era evidente, mas Cecília não recuou.
— Tá achando que tá onde, boneca? Isso aqui é o morro. Aqui, quem dita as regras sou eu. Você caiu aqui porque os moleques fizeram merda, e agora tá na minha mão. E eu… ainda tô decidindo o que faço com você.
Ela franziu o cenho.
— Me matar vai servir de quê? Vai dar mais problema do que solução.
— Não sou assassino de rica à toa. Se eu quisesse te apagar, nem tinha acordado. Só tô… curioso.
— Curioso?
— É. Pra entender por que uma patricinha metida tá me encarando como se fosse dona dessa p***a toda.
Os dois se encararam por segundos que pareceram eternos. O ar entre eles carregado, denso, como se uma faísca pudesse incendiar tudo.
— Porque você não me mete medo — ela sussurrou. — Só me dá nojo.
Ivan murmurou algo, mas Danilo ergueu uma mão e riu, de verdade dessa vez. Era raro. Quase ninguém o fazia rir.
— Leva ela pra casa de apoio. Nada de barraco. E coloca alguém de olho. Se tentar fugir, me avisa.
— Eu não vou fugir — Cecília rebateu. — Só quero sair com dignidade.
Danilo virou-se antes de responder, mas disse por cima do ombro:
— Aqui ninguém sai do jeito que quer. Só quando eu permitir.
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A casa de apoio era simples, mas limpa. Um dos cantos do morro onde Danilo mantinha mulheres e crianças protegidas do caos da guerra do tráfico. Era como um abrigo improvisado, com camas beliches, cozinha comunitária e algumas mulheres que o respeitavam como um protetor — mesmo que fosse um criminoso.
Cecília foi deixada em um quarto isolado, com uma troca de roupas e um copo de água. Olhou tudo com cuidado, cada detalhe, cada rota de fuga. Mas, acima de tudo, pensava nele.
Aquele homem. O jeito como a olhou. O poder que emanava. A escuridão nos olhos. Ela sentia ódio dele. E, ao mesmo tempo, algo dentro de si — algo que odiava admitir — queimava.
Danilo, do alto da laje, a observava de longe. Ivan se aproximou com uma garrafa de água e uma pergunta:
— Vai deixar ela ir?
— Ainda não.
— E por quê?
Danilo apertou os olhos, como se enxergasse além das vielas e da cidade iluminada abaixo.
— Porque ela me olha como ninguém nunca olhou. E porque… tem algo nela. Algo que eu quero entender.
Nem que isso me custe a paz.